Saturday, December 23, 2006

Tadeu Antunes

Tadeu resolveu rumar para um país diferente onde, talvez aí, sua vida tomasse, também ela, um novo rumo.

Começou por arranjar um emprego daqueles onde só há vaga porque mais ninguém o quer fazer. Ganhava bem, relativamente ao que estava habituado. Todos os meses, e cada vez mais exausto, escrevia para os seus parentes,... sempre recebeu resposta.

Passado algum tempo, e devido à sua entrega total ao que fazia, foi promovido, para um daqueles cargos que ninguém mais quer ocupar porque dá demasiado trabalho... mas recebia mais e mais, e cada vez menos e menos escrevia para os seus. Tanto era o esforço que fazia que a sua casa só tinha uma cama... só trabalhava e dormia, também poupava.

Quase já só escrevia de 6 em 6 meses e na sua terra, não punha o pé haviam já 4 anos...

Foi mais uma vez promovido, agora sim, para um serviço daqueles em que já há concorrência, e trabalhou em favor da sua função com tal empenho que os seus superiores depois de terem começado a tratá-lo por Sr. Antunes, chegaram mesmo a agraciá-lo, não só monetariamente, como também em afecto... superficial, mas.... sempre foi alguma coisa!

Por esta altura já não escrevia aos seus parentes havia um ano. E nunca mais escreveu... arranjou uma namorada, pobre como ele o fora outrora na sua terra, e resolveu partilhar com ela o que tinha poupado: o carinho, o amor e também as suas notas e moedas...

Ela era boa rapariga, gostava dele, amava-o e respeitava-o. Resolveram casar-se porque o sentimento era recíproco. A lua-de-mel seria na terra de Tadeu... comprou-se um carro e fizeram-se as malas e aí estavam eles de alianças no dedo e na estrada rumo à pátria de Tadeu...

Inadvertidamente, aconteceu um acidente, um carro embatera num segundo, e este foi chocar com o carro dos recém-casados. Foi fatal para a esposa do Tadeu, a ele... nem um arranhão... que angústia, que tristeza profunda!

Tadeu foi enterrar a sua esposa à terra natal dela, vindo a saber, mais tarde, que a sua esposa guardava uma criança que lhe germinava dentro.


Depois resolveu voltar e fê-lo de imediato, regressou de avião, depois o comboio e eis que se encontra na sua terra, naquele sítio que o vira nascer, a sua terra...

Os montes ainda eram como os que tinha guardado na memória. Aqueles de quem ele se esquecera é que já não estavam lá, tinham morrido e... que angústia, que profunda tristeza! Que remorso e arrependimento enormes...

Tinha trabalhado tanto e, agora, no momento de partilhar... nada, nem esposa nem pais, nada... a sua família já não existia... o seu suor de nada tinha valido! Tinha sido tudo em vão!

Sentou-se, depois deitou-se... olhou para o nada e sentiu ali a solidão de ninguém se ter.

Partilhou, ou melhor, doou o que tinha poupado (o dinheiro) às crianças da terra, pagou uma escola e um jardim, ambos muito bonitos...

Mas, apesar de tudo isso, jamais deixou de ser só, extremamente só...

Os anos passavam devagar, tal como as lágrimas que dos olhos de Tadeu saiam todos os dias... devagar.

Viu partir jovens para o estrangeiro.

Viu-os voltar, por vezes casados...

Viu-se chorar por nunca ter sido membro de uma família, e não era só por isso que ele chorava, as lágrimas de Tadeu eram fruto de algo que não podia ser dito, pois tal sentimento não tem palavras que o agarrem. No entanto, Tadeu respondia sempre que chorava de saudade... não dizia era de quê...

Inadvertidamente aconteceu um acidente. Num dia de chuva, o telhado da casa onde Tadeu vivia ruiu, caindo-lhe em cima, mas ele... não morreu, o seu coração parava, o sangue saia-lhe do corpo, todo o seu organismo deixava de funcionar... e Tadeu, no seu último acto, disse:

-Trabalhei, sofri e chorei, agora vou morrer... tenho muito medo mas não há outra saída... ... Sinto em mim a saudade do tempo que nunca vivi. Saudade de mim, daquele eu que nunca fui e que sempre quis ser! Quero morrer mesmo assim!


Faleceu depois de uma última lágrima lhe percorrer o rosto... muito devagar e dolorosamente, como a vida.

Foi com muita alegria e surpresa que descobriu que a Morte abre a porta para outra vida e.... (como nas histórias infantis) Viveu. Finalmente viveu!

e Viveu feliz para Sempre.


Friday, December 22, 2006

Wissenschaftslehre nova methodo

Fichte
Wissenschaftslehre nova methodo


§3

[A actividade ideal e a actividade real]

[A44] A acção de auto-posição do eu é uma passagem do indeterminado ao determinado; devemos reflectir agora sobre a forma pela qual o eu procede para efectuar esta passagem.

1) Não se pode indicar aqui qualquer fundamento [para essa passagem]; estamos no limite de todos os fundamentos. Basta observar o que se vê aí. Qualquer um verá que não há qualquer mediação. O eu efectua essa passagem porque a efectua. Determina-se porque se determina.; Essa passagem tem lugar por um acto de liberdade absoluta que se funda a si mesmo; é uma criação ex-nihilo, a produção de alguma coisa que não existia, um começo absoluto. O indeterminado não contém o fundamento da determinação ulterior, porquanto [indeterminado e determinado] se suprimem mutuamente. No momento A, estou indeterminado, a minha essência está inteiramente suprimida na indeterminação. No momento B, sou determinado; há pois algo de novo; que provém de mim mesmo; a passagem efectua-se por um acto de liberdade fundado em si mesmo.

2) A actividade que se exterioriza [nesse acto de liberdade] deve ser chamada “actividade real”; o acto pela qual ela se exterioriza “acto prático”; o campo no qual ela se exterioriza “campo prático” . Já observámos esse acto e continuamos a observá-lo. A actividade pela qual o observamos deve ser denominada “actividade ideal”.

Eu, o que intuiciona, o que é activo idealizante, encontro agora esse acto de liberdade absoluta; mas não posso nem encontrá-lo, nem descrevê-lo, sem lhe opor alguma coisa. “Determino-me a mim mesmo” significa que elevo uma possibilidade à realidade, um poder ao acto. Eu determino o acto de auto-determinação por liberdade absoluta graças ao poder de me determinar por liberdade absoluta. “Poder” deve significar possibilidade de actividade, mas não se pode compreendê-lo sem estabelecer a lei de reflexão pela qual o conceito desse poder ganha forma. O poder não passa de actividade, intuicionada segundo uma outra perspectiva. Nenhum acto particular é intuicionado se não for explicado por um poder; o mesmo acontece com o acto da liberdade absoluta. Não há poder sem actividade, nem actividade sem poder: os dois formam uma unidade; simplesmente são considerados segundo diferentes perspectivas. Considerado como intuição, é actividade, enquanto considerado como conceito, é poder.

3) [B 48] A diferença clara entre actividade ideal e actividade real é fácil de indicar. A actividade ideal é uma actividade de repouso, um acto de pôr em repouso, consiste em perder-se no objecto, é uma intuição fixada no objecto.
A actividade real é uma actividade verdadeira, é um agir. [contém em si mesma o fundamento do seu ser-assim-determinado.] A actividade ideal pode igualmente estar em movimento, pode igualmente ser uma passagem, e, quando intuiciona a liberdade, ela é efectivamente essa passagem: de facto, a intuição não é essa passagem por ser intuição deve-o sim ao objecto que é intuicionado, no presente caso, à liberdade. No que intuiciona só há uma reprodução, uma cópia. A actividade ideal não tem em si mesma, como a actividade real, o fundamento do seu ser-determinado; por isso está em repouso. O fundamento da actividade ideal reside no real que tem diante de si.

As duas actividades não se deixam conceber senão por oposição [de uma à outra].

4) A actividade ideal e a actividade real devem, neste caso, ser determinadas ainda mais claramente uma em relação à outra.
A) [A 45] Não há actividade real do eu sem actividade ideal; de facto, a essência do eu consiste no acto de auto-posição; se a actividade do eu tem de ser real, ela deve existir pelo eu, mas é posta pela actividade ideal.

Atribuímos força ao objecto natural, mas não força em si, dado que o objecto natural não tem consciência. Só o eu tem força em si.
B) Inversamente, não há actividade ideal do eu sem actividade real. Uma actividade ideal é uma actividade posta pelo eu, apreendida de novo como objecto da reflexão e representada novamente pela actividade ideal; sem o que o eu se assemelharia a um espelho que por certo representa, mas que não se representa a si próprio. – Este ser-uma-vez-mais-objecto-da-actividade-ideal é postulado com o eu. Mas esta objectivação é produto da actividade real. Sem actividade real, nenhuma auto-intuição da actividade ideal é possível. Sem actividade real, a actividade ideal não teria nada, e se a actividade real não lhe desse alguma coisa, ela nada seria.

C) [B 49] Imperceptivelmente [preenchemos a lacuna] acima indicada: a consciência imediata não é de todo uma consciência, é um obscuro acto de auto-posição do qual nada resulta, uma intuição sem haver intuicionado. A questão de saber como é que o eu consegue sair da consciência imediata e formar em si a consciência encontra aqui a resposta. Se o eu é tomado como ser, a consciência imediata deve ser posta uma vez mais por liberdade absoluta. Este acto de se pôr diante de si por liberdade é livre, mas, com a condição do eu ser tomado como ser, é necessário.

A actividade ideal seria por consequência produto do poder prático, e este o fundamento existencial da actividade ideal. Mas é preciso ter cuidado para não os considerar como separados. O ideal é o subjectivo no prático, o que observa o prático, e como apenas existem coisas para o eu na medida em que ele as observa, só existe alguma coisa para o eu pela actividade ideal.

Eu que sou activo idealizante, eu afecto-me a mim mesmo. Eu sou indeterminado, torno-me determinado, eu faço-me tal, persigo-me e prendo-me a mim mesmo realizante. Visto que é um eu que se afecta a si mesmo, esta afecção é acompanhada da actividade ideal, da intuição, em suma, da consciência. Esta consciência, pelo facto de se tornar precisamente uma consciência, torna-se uma intuição de si mesma.

“A auto intuição é produto do poder prático” significa que no momento que eu [me] afecto “realiter”, eu observo-me; esta observação é auto-intuição.

5) Admite-se como estabelecido que nada há que não seja na consciência. Ora, vimos que não há consciência sem actividade real, sem liberdade absoluta. Tudo o que pode ser não o é senão com ela e por ela; sem ela, nada há.

Assim, a liberdade é o fundamento de todo o acto de filosofar, de todo o ser. Confia em a ti próprio, escolhe a liberdade, terás então uma base sólida.

[A 46] A consciência liga-se imediatamente à liberdade, e não há outra coisa à qual ela possa estar ligada; a liberdade é o objecto primeiro e imediato da consciência. Toda a consciência é qualquer coisa que recai sobre si. O senso comum reconhece-o [B 49] na expressão: estou consciente em mim mesmo de qualquer coisa. Se o eu fosse pensado apenas como sujeito, isso nada explicaria, seria necessário procurar um novo sujeito para este sujeito, e assim seguindo até ao infinito; o eu tem pois necessariamente de ser pensado como sujeito-objecto.

Mas de novo, um tal sujeito-objecto ideal nada explica, é necessário acrescentar-lhe algo que seja unicamente objecto em relação a esse sujeito e de que eu esteja consciente. Donde é que esse objecto é suposto provir? O dogmático afirma que ele é dado, ou, se se pretende ligar o criticismo ao dogmatismo, que a matéria é dada, mas isso nada explica, é um simples termo vazio, em vez do conceito.

O idealista diz que o objecto é feito; mas, assim formulada, esta resposta nada resolve igualmente; pois, ainda que o objecto seja um produto do eu enquanto ser realmente activo, o eu enquanto ser realmente activo não é um ser ideal, [por consequência] o produto do eu dotado de um agir causal seria, para aquilo [ele] que representa, dado, trazendo-nos de volta à posição dogmática. – O problema pode ser resolvido assim: o que intuiciona e o que faz são um e o mesmo. o que intuiciona observa o seu fazer. Não há objecto enquanto tal que seja imediatamente objecto da consciência, mas somente o fazer, a liberdade. A proposição: “O eu põe-se a si mesmo” tem dois sentidos inseparáveis, um sentido ideal e um sentido real, que estão ambos absolutamente reunidos no eu. Não há acto de pôr ideal sem auto-início real, e inversamente; não há auto-intuição sem liberdade, e vice-versa; de igual forma, sem auto-intuição, não há consciência.

Antes do acto da liberdade, não há nada; é com ele que tem origem tudo o que existe; mas não podemos pensar este acto senão como uma passagem de um estado anterior de determinabilidade à determinação. – Por conseguinte para diante ou para trás [que se desça para o determinado ou se suba para o determinável] obtemos a mesma coisa, simplesmente em dois aspectos [diferentes] e é este acto da liberdade que constitui o eixo. No entanto, o acto [da liberdade] não é ele próprio possível se não encontrar à sua direita a determinabilidade; a consciência imediata, e à sua esquerda o que deve ser produzido: o eu intuicionado; [a consciência imediata e o eu intuicionado] são inseparáveis, dependem ambos da liberdade absoluta.

[B51] Nenhum homem pode indicar o acto primeiro da sua consciência, pois cada momento é uma passagem da indeterminação à determinação e pressupõe por isso sempre um outro momento.

O que é propriamente primeiro realizante é a liberdade, mas, no pensamento, isto não pode ser estabelecido logo à primeira vista, por isso tivemos que primeiramente lançar nas pesquisas que aí nos levaram.

§3
Pensar-se-á que a passagem [do determinável ao determinado] (§2) tem o seu fundamento absoluto em si mesma; a acção [pela qual o eu efectua] esta passagem é denominada por essa razão “actividade real”; ela é oposta à actividade ideal que apenas reproduz a actividade real; por isso, [a actividade] do eu em geral é dividida em dois modos. Segundo o princípio da determinabilidade, não é possível pôr um agir real sem um poder real ou prático. Actividade real e actividade ideal são condicionadas e determinadas uma pela outra, uma não é sem a outra, e o que uma é não se deixa compreender sem a outra. Neste acto da liberdade, o eu torna-se objecto para si mesmo. Nasce uma consciência efectiva e esta constitui o ponto de partida ao qual se deve unir desde logo tudo o que, duma forma geral, deve ser objecto dessa consciência. Por conseguinte, a liberdade é o fundamento supremo e a condição primeira de todo o ser e de toda a consciência.



Thursday, December 14, 2006

Vasco Valente Cabral



Vasco era casado, estava doente e já era idoso há muito tempo. Eram pessoas humildes, mas a sua mulher estava sempre junto dele.

Houve um dia em que Vasco se sentiu muito pior, a sua mulher foi a correr à sua vizinha para que pelo telefone o médico fosse chamado... e lá veio...

Depois de fazer o seu diagnóstico o médico chamou D. Teresa e disse-lhe:

"- Dona Teresa, o senhor Vasco Valente está muito mal e não sei por quanto tempo vai ele aguentar... Desculpe-me esta dureza de palavras, mas a verdade é, por vezes, tremendamente áspera."


O médico saiu e ela chorou uma lágrima no caminho até ao quarto, antes de entrar limpou-a e, sorrindo, perguntou a Vasco se ele precisava de alguma coisa,

- Sim, ajuda-me a vestir o fato.


Era o seu único fato, o fato do casamento, o fato da missa, ... o fato da dignidade exterior.

Teresa, solicitamente, acedeu sem hesitar... com uma dor no coração vestiu-o a Vasco que, apesar das dores que o atormentavam, não se queixou nem com um só som de agonia.

Já com o fato completo vestido – colete e gravata incluídos - Vasco pediu-lhe para que Teresa o levasse à rua... ...mais uma vez respeitou e cumpriu o pedido do seu marido.

Era noite de lua nova e estava muito escuro... Vasco estava de pé, encostado a uma árvore e abraçou calmamente Teresa e murmurou-lhe:

"- Teresinha, foste uma companheira maravilhosa, quero muito agradecer-te do fundo do meu coração tudo o que por mim fizeste, mas agora... é tempo para um último pedido: entra em casa e reza por mim que vou morrer...

- Mas Vasco...

- Não faças mais nada... entra em casa e sem chorares pede a Deus que me aceite... que aceite o teu marido... vai e reza!!!"


Sem mais palavras nem trocas de olhares, ela entrou e cumpriu o que Vasco lhe pedira.

Ele desencostou-se da árvore e começou a caminhar... devagar, torto mas decidido... Lá ia, Vasco Valente com o seu fato, o único, o digno... continuou a caminhar até que sentiu que morreria dentro de poucos segundos... ergueu então os braços e, olhando o céu por entre as estrelas, exclamou:

- Meu Deus... leva-me daqui... peço-Te... bem vês que já estou contente só de Te saber a ouvires-me. Eu e a minha amada esposa precisamos de Ti agora... Vê a minha vida e saberás que nunca como hoje de Ti precisei... Mas para quê é que estou aqui a dizer estas coisas se Tu tudo sabes?... ...Leva-me Senhor...


Passaram alguns minutos e Vasco Valente Cabral foi levado... Em casa, Teresa, nesse momento, sentiu vontade de sorrir e sorriu...

Anos depois Vasco recebeu e aconchegou a sua Teresa com um abraço tão forte que o próprio Deus sentiu vontade de sorrir e sorriu... Enquanto, os que aqui, choravam a partida de Teresa... sentiram a verdade da saudade: ser apenas o amor requintado de quem espera, na certeza de que nem a própria morte separa quem gosta de se abraçar.







Enquanto escrevi isto, por vezes senti vontade de sorrir e... sorri!









Friday, December 01, 2006

Francisco Gonçalves



Francisco Gonçalves era pobre. Pobre.

Naquela noite decidira ir para a estrada; e ali estava ele, à beira de uma estrada onde sem cessar passavam carros e dentro dos carros gente, gente que não o via porque ele estava na berma.

Era um homem só... solitário... de alguma maneira triste com essa sua condição. Mas apesar do peso da sua solidão, ele tinha dentro de si algo que as vicissitudes do mundo material não lhe tinham conseguido roubar... Francisco guardava dentro de si a força e o brilho de um cometa.

Estava completamente escuro, não havia ali candeeiros e só a luz dos faróis permitia ver aquilo que havia para ver, ou seja, nada! Uns após outros incessantemente passam, os carros, que dentro de si trazem pessoas que dentro de si... pelos vistos, nada trazem!

Francisco está sentado junto à berma, quieto, silencioso... e a pensar no brilho e na força do cometa que vive dentro de si e que nada pode fazer com ele... absolutamente nada, pois o que se pode fazer com tal coisa em tal sítio!?... Nada!

Francisco é confrontado constantemente com o brilho artificial dos faróis dos carros... e fica ainda mais triste quando pensa que aquele brilho que vê na frente dos carros nada tem a ver com quem os conduz mas antes com a artificialidade dos automóveis e do código que os rege...

No meio destes pensamentos Francisco sente frio e fome como ainda não tinha sentido... mas, apesar disso, o sentimento do cometa, que não se consegue exteriorizar, é irracionalmente mais forte do que a fome e o frio. Francisco Gonçalves pensa então na morte e na sua possibilidade real em si... quer morrer mas deixar no mundo algo que traz consigo e de que não é responsável pela sua presença ali, dentro de si. Francisco queria muito emanar o cometa.

As luzes não se cansavam de atingir a cara do pobre... que hoje se sentia ainda mais pobre... tão pobre que não tinha capacidade de deixar no mundo uma riqueza que tinha consigo... ele estava pobre... Francisco Gonçalves era rico mas estava pobre... Francisco Gonçalves sempre foi rico mas sempre esteve pobre.

Levantou-se e começou a caminhar... não sabia onde ia, tão pouco sabia porque se tinha levantado do chão... caminhava na direcção dos carros, agora ele também ia para onde eles iam. Não tinha luzes, mas as artificiais dos outros serviam, agora até serviam para alguma coisa, além de que já não incomodavam. Não sentia fome nem frio.

Ao longe pareceu-lhe ver um homem sentado à beira da estrada, acelerou o passo... e o outro estava mesmo lá... não tinha sido ilusão... Era um homem muito triste e estava muito triste... era e estava... Francisco intui-o de imediato, e interpelou-o:

- Quem és e o que tens?

- Sou o pessimismo e sofro...

- Sofres por seres pessimista?

- Não... sofro somente e daí advém o pessimismo...

- Talvez a razão do teu sofrer seja a de que não tens luz dentro de ti...

- Dentro de mim há como que um buraco negro... toda a luz que sinto, absorvo, dissolvo e desaparece!

- Que fazes aqui?

- O mesmo que tu fazias há pouco ali em baixo... penso e sinto...

- Como sabes?

- Fui até lá... mas não tive coragem de te ir falar... porque tenho fome e se tivesses algo que comer irias pensar que te tinha ido falar só por interesseirice...

- Também tenho fome...

- ... não tenho nada para te dar...


Conversaram então acerca do buraco negro de um e do cometa do outro, seguiu-se um silêncio enorme... e Francisco Gonçalves estava prestes a morrer, quando pensou em libertar a luz e a força que existia dentro de si... Beijou o seu companheiro de estrada que dormia e deixou-se morrer, tendo consigo a grande felicidade de um dia ter feito algo por outro alguém, de ter conseguido fazer o seu cometa sair...

Morreu

O outro quando acordou, chamou Francisco mas logo se apercebeu de que ele havia morrido!

Decidiu que, embora as forças o pudessem vir a trair, iria enterrar o seu "amigo". Era madrugada cedo e Francisco Gonçalves foi mandado para uma vala e coberto com a areia possível...

O outro reparou então no Sol, na sua luz, que tão alto estava, que calor emanava, sentiu uma coisa muito estranha... já não sentia o buraco negro... não sabia viver assim, era algo completamente novo... que fazer?!

A fome tomou-o, tornando-o exausto... completamente exausto. Sentou-se na beira da estrada e, algum tempo, depois empregando todas as forças que lhe restavam atirou-se para o meio da estrada... Morreu quando um camião enorme o projectou muitos metros...

O que sentiu não foi um choque mas um beijo carregado de luz...
...

- ...

- Olá Francisco Gonçalves!

- Olá... come, come... há aqui comida que vai chegar para todos os pobres do mundo!!!

Saturday, November 11, 2006

Tomás



Tomás era idoso... velho... vivia numa aldeia que já não o era... só lá vivia ele... os outros... ou tinham ido para as cidades, ou tinham morrido.

Tomás era o último, vivia a vida de um homem só, completamente só...

Em tempos tinha sido famoso pela maneira como escrevia e falava... Foi casado com uma mulher... mas ela estava longe... longe demais.

Agora falava sozinho e escrevia para si mesmo... sentia-se diferente quando se ouvia ou lia o que tinha escrito... Era a única maneira de se sentir acompanhado... Precisava muito de comunicar e como estava só, fazia-o em duas fases: na primeira escrevia ou falava; na segunda lia ou escutava...

Começou a perceber uma coisa muito importante... quando falava e queria ouvir-se como se tratasse de um outro Tomás, só conseguia ser ou o que falava ou o que ouvia... não conseguia fazer ambas as coisas simultaneamente com igual rigor...

Quando escrevia era diferente... sentia-se ainda mais só... pois o diálogo que ele pretendia instituir não resultava... no fundo era uma ilusão enorme. Quando falava, ou falava ou ouvia... quando escrevia não lia e quando lia não podia escrever.

Tomás estava convicto de que precisava falar, ouvir, escrever e ler... pois à falta de melhor para combater a solidão que o ia pisando, restava-lhe isto... Por isso escondia-se atrás da pretensão de se conhecer a si mesmo...

No momento em que percebeu, lendo uma das suas coisas, que estava a ser o maior aliado do inimigo, daquele inimigo que pretendia abater... parou... não mais falou, ouviu, escreveu ou leu alguma coisa.

Compreendeu que o medo de estar só é tremendamente pior que a própria solidão...

Queimou todos os papéis e esqueceu todas as suas palavras, depois lembrou-se que tinha alguns livros em casa e também os queimou. Era uma fogueira alta.

Pensou em como podia lutar contra a solidão e entendeu por bem esperar... só esperar... esperar...

A sua espera durou uns três anos... mas Tomás nunca desesperou... pois a sua esperança era suficientemente grande para superar qualquer desespero...

Quando fechava os olhos via... via uma pessoa, uma outra pessoa... via-se a falar consigo, não a ouvia, apenas via...

Morreu...





Hoje, quando alguém que está só, fecha os olhos e ouve-o, ouve Tomás... não o vê... apenas o ouve... ouve as cinzas dos papéis de Tomás caírem no chão depois de voarem muito tempo e ouve palavras esquecidas:
Espera... não tentes combater... espera... amanhã virá alguém, talvez uma princesa lindíssima, ou simplesmente a morte... Esperei e veio a segunda levar-me para perto da primeira... Confesso que apesar de não saber como é... é ainda mais belo se a princesa chegar primeiro do que a morte... Olha... espera... lembra-te que não tens em ti a tua razão de ser... de seres assim... Espera pois, e pede, sonhando outro alguém... e como um mendigo que estende a mão a quem passa... como ele, não esperes que de cada pessoa que passe venha uma esmola... Pede... pede sempre... não te bastes a ti... se te tentares saciar contigo mesmo... morrerás só... e a princesa não estará no fim da morte.!!!

Saturday, November 04, 2006

Tributo a um Amigo



A morte não é o fim.

Eu só fui para o quarto ao lado.

Eu sou eu, vós sois vós.

O que nós éramos, uns pelos outros, seremos para sempre.

Dêem-me o nome que sempre me deram.

Falem-me como sempre o fizeram.

Não empreguem um tom de voz diferente, nem tenham um ar solene ou triste.

Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim, rezem por mim.

Que o meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de qualquer tipo, sem sombra de escuridão.

A vida continua a significar tudo aquilo que sempre significou.

Ela é o que sempre foi. O fio não foi cortado.

Por que motivo ficaria eu de fora dos vossos pensamentos, lá por estar fora da vossa vida?

Eu guardo-vos e fico por perto: ali do outro lado do caminho.

Estão a ver, Está tudo bem.


Charles Péguy

Tuesday, October 24, 2006

Filosofia Sensível


Eis a Filosofia Sensível:

Eu sou muito importante. Vivendo e pensando só consigo sentir-me a mim próprio. Sou importante porque estas mãos que agora escrevem neste papel são preciosas... para além de serem únicas e insubstituíveis obedecem-me na perfeição, são um óptimo meio que possuo. Como as minhas mãos, todo o meu corpo é, para mim, a minha casa, o meu lar. O proprietário, o eu, é, ou melhor, sou alguém que eu próprio desconheço. Cada dia que passa observo-o(-me) em busca de algo que dissipe o mistério que para mim sou.

O outro é importante. Há outros, como eu e a minha casa. Consigo gostar deles, e das suas casas. Procuro até um outro que me ame e que eu o consiga amar a ele também...Sonho envelhecer com ele numa só casa.

Deus é o mais importante. Ele sabe quem sou. Ama-me, apesar de me conhecer perfeitamente. O PAI-NOSSO criou-me e ficou dentro de mim, fez esta minha casa. Há quem não acredite em Deus mas, para esses eu juro que Ele existe, em mim e fora de mim. Tal como na aparência de um fio de telefone não se vislumbram os milhões de palavras que passam a cada segundo por ele...e palavras que têm milhões de sentimentos por detrás de si, também é preciso saber qualquer coisa, para conseguir encontrar o Pai-Nosso.

O pensamento anda virgem de relações sentimentais. Estou farto de filósofos, de Tales a Ricouer, são quase todos uma espécie de semideuses, que expulsam da Filosofia o coração que bate na lareira de nossas casas. Possuem vãs filosofias, são bonecos de barro sem sopro.

Em mim, a razão ama o sentimento, outros há cuja razão se chama Narciso. A Filosofia difere dos filósofos como a Música dos músicos.

A Filosofia é uma festa para todos, apesar de alguns insistirem em reclamá-la só para si.

Friday, October 06, 2006

Há Quem Sofra...



foi um telefonema a meio da tarde...

de muito muito longe,

de alguém que se lembrava de mim
apesar de tudo...

de uma gentileza absolutamente incomum...


talvez nunca como hoje tenha sentido isto.

Já o pensei, sem o ter sentido.


Hoje, por este nosso mundo
há quem prefira viver noutro,
sem dores
nem fome
nem tendo a morte como sua enfermeira.


Hoje compreendo que os heróis
são os que sofrendo,
sorriem…
e não os outros,
que sorriem por se terem furtado à dor.


Há mais herói na dor profunda.


O mais implacável dos meus inimigos
é a carne que me suporta.

E, há quem não escreva mas tenha muito para ensinar.
Que Deus dê força a todos estes fortes que,

hoje,

lutam contra a fraqueza do homem que são,
a sua corporeidade,

circunstância,

enfim, o ser de que são feitos.

Que hoje e sempre o Divino fortaleça os que neste mundo
não têm o mundo que merecem.


um grande abraço a quem nunca lerá isto que para si escrevi.

Thursday, August 31, 2006

Heraclito - Acerca da Natureza (trad.)

A tradução dos fragmentos de Heraclito apresentada abaixo foi efectuada a partir do texto grego clássico (ed. Seghers).

Esta disponibilização on-line é tão-somente para partilhar com quem se possa interessar por estas coisas... ter isto aqui fechado no computador não faz grande sentido... comecei, há muitos anos, por pensar que editaria uma edição crítica (tradução e notas)... mas nunca passei da tradução.

Está registada
- Dep. Legal Nº 72115/93 - Mas... façam o que entenderem com ela! Se me quiserem citar o nome é José Luís Nunes Martins. Sem mais, ei-la!


HERACLITO

"ACERCA DA NATUREZA"

1
Quanto a este Logos, que é sempre, os homens comportam-se como quem não compreende, tanto antes como depois de o ter ouvido. Com efeito, tudo vem de acordo com o Logos, e eles, parecem sem experiência nas experiências com palavras e obras, iguais às que levo a cabo, distinguindo cada coisa conforme a sua natureza, e explicando o que ela é. Aos outros homens, porém, fica-lhes encoberto tanto o que fazem acordados, como se lhes volta a encobrir o que fazem durante o sono.

2
Faz-se necessário seguir o que é con-junto. O Logos é con-junto, enquanto a massa vive como se cada uma das multiplicidades tivesse uma inteligência própria.

3
(O Sol) da largura de um pé humano.

4
Se a felicidade estivesse nos prazeres do corpo, deveríamos chamar felizes aos bois quando encontrassem o que comer.

5
É em vão que se purificam, quando se borrifam com sangue novo, como alguém que tivesse pisado lama, quisesse lavar-se com ela. E fazem orações às imagens como se alguém pudesse falar com paredes. Eles não sabem nada da verdadeira natureza dos deuses e dos heróis.

6
Todos os dias há um Sol novo.

7
Se todas as coisas se tornassem fumo, seria o nosso nariz que as distinguiria.

8
O contrário em tensão é convergente; as divergências dos contrários: a mais bela harmonia, tudo nasce da luta.

9
Os asnos preferem palha a ouro.

10
Conjunções: completo e incompleto, convergente e divergente, concórdia e discórdia, enfim, de todas as coisas uma e de uma, todas as coisas.

11
Tudo o que rasteja, partilha da terra.

12
Para quem entra nos mesmos rios, afluem sempre outras águas.

13
Os porcos têm mais prazer na lama.

14
(Para quem profetiza Heraclito?) Para os errantes nocturnos, os mágicos, os bacantes, as mênades, os mistos. (...) É sem piedade que se iniciam nos mistérios célebres entre os homens.

15
Não fosse para Dionísio a procissão e o hino que entoam com as vergonhas sagradas, praticariam a coisa mais monstruosa. Mas Hades e Dionísio são o mesmo, para quem deliram e festejam.

16
Como alguém poderia manter-se encoberto face ao que nunca se deita?

17
A maior parte dos homens não reflecte aquilo que se lhes apresenta, e mesmo uma vez instruídos, eles não compreendem, vivem na aparência.

18
Se não esperamos o inesperado, não o encontraremos, porquanto ele é inescrutável e difícil de abranger.

19
Não sabendo ouvir não sabem falar.

20
Nascidos, consentem viver e sofrer a morte, ou repousar, e deixam filhos, que sofrerão a morte por seu turno.

21
Morte, tudo o que vemos acordados, sono, tudo o que vemos adormecidos.

22
Os que procuram ouro, cavam muita terra, e encontram pouco ouro.

23
Não conheceriam o nome da Justiça, se não houvesse injustiças.

24
Os homens e os deuses honram os que são mortos nos combates.

25
Às maiores mortes prendem-se os maiores destinos.

26
O homem acende uma luz na noite, quando não vê está morto para si. Vivendo, toca o morto, quando a visão extinta dorme. Acordado, toca o ser que dorme.

27
As coisas que se não esperam nem imaginam, esperam o homem após a sua morte.

28
O mais conhecedor decide das coisas reconhecidas para conservar, mas a Justiça saberá apossar-se dos artesãos e testemunhas de mentiras.

29
Há uma coisa que os melhores preferem: a glória eterna dos mortais; a multidão está saturada como o gado.

30
A ordem do mundo, a mesma para todos os seres, não a criou nenhum dos deuses nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e sempre será um fogo sempre vivo que se acende com medida e com medida se extingue.

31
Metamorfoses do fogo: primeiro o mar, do mar a metade terra, e a outra metade vento ardente. O mar estica-se e encontra a sua medida de acordo com o mesmo Logos que era primeiro.

32
Um único ser, o único sábio, refuta e aceita o nome de Zeus.

33
Lei, é a vontade de seguir uma só coisa.

34
Sem compreensão: ouvindo, parecem surdos. A eles se aplica o provérbio: Presentes, estão ausentes.

35
Os filósofos conhecem muitas coisas, e bem.

36
Para as almas, a morte é transformarem-se em água, para a água a morte é transformar-se em terra: pois a água tem origem na terra, e a alma na água.

37
Os porcos lavam-se na lama, as aves de baixo curso no pó ou na cinza.

38
(Heraclito e Demócrito testemunham que:) Tales foi o primeiro astrónomo.


39
Em Priene nasceu Bias, filho de Teutame, o seu Logos ultrapassou o de todos os outros.

40
Muitos saberes não ensinam sabedoria, senão teriam ensinado a Hesíodo e Pitágoras, a Xenófanes e Hecateu.

41
A sabedoria consiste em compreender uma só coisa: que o pensamento governa tudo através de tudo.

42
Homero merece ser expulso dos concursos e bastonado, e Arquíloco também.

43
Há maior necessidade de extinguir a desmesura do que um incêndio.

44
O povo deve lutar pela lei, como pelas muralhas.

45
Os limites da alma, não os encontrarás, nem que caminhes por todos os caminhos, tão profundo é o Logos que abriga.

46
E chamava a presunção de mal sagrado, (e dizia) que a visão induz ao erro.

47
Sobre as grandes coisas, não façamos conjecturas ao acaso.

48
O arco tem por nome a vida, e por obra a morte.

49
Um só homem vale por dez mil, se for o melhor.

49a
Entramos e não entramos no mesmo rio, somos e não somos.

50
Ouvindo não a mim mas ao Logos, é sábio concordar que tudo é um.

51
Não compreendem como é que o oposto a si mesmo é ao mesmo tempo harmonioso consigo próprio; acordo de tensões inversas, como no arco e na lira.

52
O tempo é uma criança que joga o jogo das pedras: vigência da criança.

53
O combate é pai de todas as coisas, de todas as coisas é senhor, de uns fez deuses e de outros fez homens, de uns fez escravos, de outros fez livres.

54
A harmonia invisível é mais forte do que a visível.

55
O que podemos ver, entender e conhecer, é o que eu prefiro.

56
No esforço para conhecer o visível, os homens são ludibriados como Homero, que foi o mais sábio de todos os gregos. Com efeito, é a ele que ludibriaram os garotos que matavam piolhos e diziam: "Tudo o que vimos e agarrámos, deixámos, tudo o que não vimos nem agarrámos, trouxemos connosco.".

57
O mestre de quase todos, Hesíodo, embora estejam convencidos de que ele sabe tudo, ele não conhece nem a noite nem o dia, nem que tudo é um.

58
Cortando, queimando e atormentando de todos os modos, os médicos acusam indevidamente os doentes de não pagarem, pois o que operam nos doentes é o sucesso e a doença.

59
O caminho a direito ou com curvas, é um e o mesmo caminho.

60
O caminho que sobe e o que desce são um e o mesmo.

61
A água do mar é a mais pura e a mais impura. Para os peixes, potável e vivificante, para os homens, impotável e mortal.

62
Os imortais são mortais e os mortais imortais. Uns vivem da morte dos outros, os outros morrem da vida dos primeiros.

63
Insurgir-se contra os seres e assim fazer-se pastor dos vivos da vigília e dos mortos.

64
O raio governa o universo.

65
Indigência e saciedade.

66
O fogo virá em cima de tudo o que existe para o julgar e tomar consigo.

67
Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome. Ele transforma-se como o fogo que quando é mistura de aromas, recebe nomes diferentes conforme o gosto de cada um.

67a
Como a aranha no centro da teia logo sente quando uma mosca rompe o fio, e assim acorre rapidamente para lá como que temendo pela integridade do fio, assim também, a alma humana, ferida alguma parte do corpo, se dirige rápido para lá como se não suportasse a lesão do corpo, ao qual está unida firme e harmoniosamente.

68
E é por isso que Heraclito chamava "remédios" a tais coisas (a saber: alguns espectáculos e audições indecentes), por trazerem remédios à angústia e libertarem a alma do que traz consigo no crescimento.

69
Distingo dois tipos de sacrifícios: uns, os de homens inteiramente purificados, tais que raramente se dão a um indivíduo singular, ou a um pequeno grupo de homens; e os sacrifícios materiais.

70
As ideias humanas são jogos de crianças.

71
(Ter também presente) aquele para quem está esquecido aonde conduz o caminho.

72
Do Logos com quem sempre lidam, que governa todas as coisas, eles separam-se, e por isso as coisas que encontram lhes parecem estranhas.

73
Não é para falar a agir dormindo, porque a dormir crê-se que se fala e se age.

74
Não é para ser como crianças sobre a autoridade dos progenitores, sobre a tradição, sobre termos simples, como nos ocorre.

75
Os que dormem são operários das obras que acontecem no universo.

76
A morte da terra é tornar-se água, a morte da água é tornar-se ar e a do ar tornar-se fogo e inversamente.

77
Para as almas é prazer ou morte tornarem-se húmidas. Prazer é para elas cair na vida. A nossa vida nasce da sua morte e a sua vida nasce da nossa morte.

78
A morada do homem não abriga conhecimento, a divina sim.

79
A partir do divino, o homem, como a partir do homem a criança.

80
O combate é universal, a justiça é uma luta, e que todas as coisas nascem segundo a luta e a necessidade.

81
...fonte de mentira.

82
O mais belo macaco é feio, comparado à espécie humana.

83
O mais sábio dos homens comparado com Deus, parecerá um macaco, quanto à sabedoria, à beleza e a tudo o resto.

84a
O fogo repousa, transformando-se.

84b
É penoso castigar e servir os mesmos.

85
É duro lutar contra o coração, pois paga-se com a alma.

86
A maior parte das coisas divinas fogem ao conhecimento por causa da incredulidade.
87
Indolente, o homem que se deixa espantar pelo Logos em tudo.

88
O mesmo é vivo e morto, vivendo e morrendo, a vigília e o sono, o novo e o velho: pois estes alterando-se são aqueles e aqueles alterando-se são estes.

89
Acordados, têm um só mundo que lhes é comum, mas durante o sono cada um retorna ao seu próprio mundo.

90
Pelo fogo tudo se troca e por tudo, o fogo; como pelo ouro, as mercadorias e pelas mercadorias o ouro.

91
Não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio.

92
A Sibila, com voz delirante pronuncia palavras graves e sem disfarce, através de milhares de anos, graças ao deus que a anima.

93
O mestre do oráculo de Delfos não diz nem esconde nada, apenas indica.

94
O Sol não ultrapassará os seus limites; se o fizer, as Erineas, executoras da Justiça, saberão descobri-lo.

95
É melhor esconder a ignorância do que a desvelar em público.

96
Mais do que o excremento, deve-se deitar fora as cadáveres.

97
Os cães ladram a todos os que desconhecem.

98
As almas farejam no Hades.

99
Se não existisse Sol haveria noite por todos os outros astros.

100
O Sol, mestre e guardião das revoluções periódicas, vigia-as, limita-as, distribui-as, suscita e manifesta as metamorfoses e as estações que tudo trazem. Colabora não nas coisas vis e pequenas, mas nas maiores e nas mais essenciais, associado ao guia e Deus principal.

101
A mim mesmo me procurei.

101a
Os olhos são melhores testemunhas do que os ouvidos.

102
Para Deus é tudo belo, bom e recto; os homens é que tomam umas coisas por injustas e outras por justas.

103
Na circunferência, o começo e o fim coincidem.

104
Mas que espírito é o deles, que razão? Deixam-se levar pelos cantores de rua e ensinar pela multidão, não vêem que a maioria é má, e poucos são os homens bons.

105
Homero é um astrónomo.

106
Qualquer dia é igual a qualquer outro dia. (A natureza de todos os dias é una.)

107
Más testemunhas são para os homens os olhos e os ouvidos, se tiverem almas bárbaras.

108
De quantos discursos ouvi, nenhum chega ao ponto de saber que a sabedoria está separada de tudo.

109=95

110
Não é melhor para os homens que lhes aconteça tudo o que eles querem.

111
A doença torna a saúde agradável e boa, como a fome a saciedade, e a fadiga o repouso.

112
Pensar justamente (ser sensato) é a maior virtude, ser sábio é dizer a verdade e proceder de acordo com a natureza.

113
O pensamento é comum a todos. (Reúne tudo).

114
Para falar com inteligência é necessário concentrar-se no que é comum a tudo, como a cidade na lei, e com a maior concentração ainda. Porque todas as leis dos homens alimentam-se de uma lei una, a divina; ela impera o quanto se dispõe, basta e excede a todas.

115
A alma tem um Logos que se multiplica a si mesmo.

116
É dado a todos os homens conhecerem-se a si mesmos e saberem pensar.

117
Um homem, quando embriagado, deixa-se conduzir por uma criança inexperiente, cambaleando, sem saber para onde vai, com a sua alma húmida.


118
Uma alma seca é mais sábia e melhor.

119
O costume (hábito) é para o homem um deus.

120
Os limites da aurora e do crepúsculo são a Ursa e, frente à Ursa, o limite do sereno Zeus.

121
É justo que todos os Efésios adultos sejam mortos e os menores abandonem a cidade, eles que baniram Hermodoro, seu melhor homem, dizendo: "Nenhum de nós será o melhor, mas se alguém o for, que o seja então alhures e entre outros.".

122
Ambiguidade = Aproximação.

123
A natureza gosta de se esconder. (Surgimento já tende ao encobrimento)

124
O cosmos das coisas lançadas ao acaso é o arranjo mais belo.

125
A bebida desintegra-se se não a agitarmos.

125a
Que a riqueza não nos venha a faltar, Efésios, afim de que a vossa miséria se desvele toda.

126
O frio aquece-se, o quente esfria-se, o húmido seca e o seco humidifica-se.






Wednesday, August 23, 2006

Hoje caí

por um simples acidente
esta simples queda doméstica fez de mim
um ser que duvida do sentido que esta vida faz.

O joelho no chão e o espírito no vácuo…
sem outra vontade senão a de sair.

Porque não coabitam em mim
a queda do corpo e a elevação do espírito ?

Afinal
sou feito de sonhos
que se dissipam no primeiro momento
ao primeiro obstáculo.
No fundo,
não sou tão forte como julgava.

Hoje isto não está nada bem
estou sozinho, abandonado pelos sonhos,
e, na companhia desta tristeza
que me consome.

Sim, sei que tudo melhorará,
mas isso só acontecerá amanhã,
e faltam ainda muitos tempos
até de manhã.

O que há de mais triste nesta vida
é saber que ela passa,
que o bom é efémero…
mas, seguindo esta perspectiva,
eu deveria estar animado
pois até as desgraças,
enquanto coisas desta vida
são, ou deveriam ser, passageiras…
Mas se a felicidade não nos ilude,
pelo contrário, a tristeza dá cabo de mim.
Feliz, consigo sempre olhar para a frente e ver
que não dura sempre…
Triste, não me disponho a olhar para onde quer que seja.

Quero, simplesmente, não ter caído.
É impossível…
e é nisto que se aloja o fundo do meu sentir.

Sinto-me fraco, vencido…
perante um obstáculo que sou eu.
Caí,
p’ra cima da minha consciência.

Não sou só o sonho que tenho.
Mas também este pesadelo que o acaso me deu,
hoje.

Wednesday, August 16, 2006

Francisco



Francisco Laudi, o homem que fez chover.


Ele sonhou, acordou e decidiu-se.

Lançado por si mesmo para aquele empreendimento dispôs-se a tudo.

Com a luz do sol ou da vela trabalhava montando as peças que tinha percorrido longos caminhos para encontrar. Montava aquela enorme e confusa máquina... -sem um esboço de papel.

Tinha-a completado!

Colocou-a em cima de uma carroça que dois fortes cavalos puxaram até ao cimo do monte.

No cume verificou que o sol já estava a desaparecer e que era imperioso esperar pela manhã...- é que o sol era algo de fulcral.

Já noite e sem porquê trouxe os cavalos e a carroça para o vale de sua casa, depois despiu-se,... e nu... subiu o monte até junto da sua máquina.

Esperava pelo sol, com um sorriso nos lábios, quando lhe veio à ideia que a máquina não tinha qualquer interruptor... não tinha feito nenhum mecanismo que pudesse controlar a máquina e nem sequer se tinha lembrado de como ligá-la... desesperou!

Lembrou-se de que no seu sonho também não havia qualquer botão ou outra coisa qualquer... sorriu!

Com o sol veio a chuva e o Francisco Laudi morreu feliz... agarrado à sua máquina.

Nunca ninguém mais viu o Francisco Laudi ou a máquina.

Ele levou-a consigo.



Saturday, August 12, 2006

Bernardo



Bernardo tinha muitos amigos, muitos... no entanto, foi no dia em que morreu e foi velado que se verificou que ninguém o conhecia. A uns tinha dito trabalhar com outros e a estes fizera o mesmo em relação aos primeiros. Três mulheres apareceram dizendo-se os únicos amores de Bernardo... mas eram três... e então perceberam que algo não batia certo.

Bernardo nunca tinha confiado em ninguém ao ponto de lhe contar tudo, talvez porque as pessoas que ia conhecendo iam obrigatoriamente, e por inércia, sendo arrastadas por aquele jogo que só Bernardo sabia jogar, pois era ele o inventor do jogo, das regras e das excepções. Nunca encontrou ninguém a quem confiar isto, porque a fazê-lo, teria que ser alguém que ele não conhecesse, e não era minimamente prudente confiar em alguém que não conhecia. Porém, um dia, pensou ter achado a pessoa correcta, a ideal! Resolveu contar-lhe tudo de uma só vez: que era mentiroso e que ninguém, absolutamente ninguém sabia disso... e que ela era a segunda pessoa a saber de tal coisa.

Um pouco comovida mas nada convencida virou-lhe as costas.

Desesperado, Bernardo desatou a correr até uma ponte e atirou-se.

Aquela a quem tudo confiou, confessando, só amou Bernardo quando este já estava dentro de um caixão e rodeado de burburinhos acerca da sua (ir)real personalidade. É que estavam ali todos, e nunca tinha falado entre si antes... foi um desastre.

Catarina, aquela a quem Bernardo julgava como sendo a pessoa ideal para o ajudar a sair do jogo, chegou ao velório e ouviu todas as contradições que se iam descobrindo acerca de Bernardo... e ela sabia tudo. Até ia sabendo o que através de uma conversa se ia descobrir. Sentou-se e chorou.

E enquanto chorava alguém veio ter com ela e perguntou-lhe:

À Sra. quem ele disse que era? Olhe, não fique assim triste, pois está aqui a descobrir-se que ele era um grande aldrabão, e por isso não merece as suas lágrimas.


Catarina nada respondeu.

Foi ao funeral e depois de comprar umas quantas testemunhas, foi-se entregar à polícia dizendo que fora ela quem tinha, voluntariamente, empurrado Bernardo da ponte.

No tribunal deu-se como provado o homicídio e Catarina foi condenada a prisão perpétua. Era o que ela queria: esperar sozinha pelo momento de pedir perdão cara na cara daquele que um dia se tinha confiado totalmente a ela.

Envelheceu na prisão e lá morreu... era a sua vontade.

Nada mais se sabe.

Sunday, August 06, 2006

Rodrigo



Rodrigo era um homem tímido, humilde e vivia sozinho. Era professor mas nunca teve um mau aluno, talvez porque o respeitassem como ele merecia; era, no fundo, um professor a sério. As únicas rebeldias aconteciam no princípio dos anos lectivos, mas a personalidade de Rodrigo punha-lhes cobro, não pela rispidez, mas por uma empatia indescritível.

Rodrigo ensinava matemática, mas em casa gostava de escrever... escrever sonetos, poemas, prosas, cartas. Fazia tudo isto construindo romances. Gostava de escrever talvez até mais do que dar aulas de matemática.

Já estava com cerca de 70 anos de idade e foi forçado pela lei a deixar de leccionar e retirou-se... e apesar de ter deixado em muitos alguma saudade, depois de 3 anos, já só recordavam Rodrigo quando havia muitas notas negativas a matemática, mas depois... já nem isso.

Rodrigo estava por casa, escrevendo folhas sem fim, cuja qualidade era irrepreensível: dias e dias a escrever romances que incluíam sonetos, poemas, prosas, cartas, etc. E tão belos romances! As folhas soltas eram agrupadas por capítulos e estes por romances. Já tinha 4 ou 5 montes quando sentiu que já não podia mais; o seu médico avisara-o mas ele não lhe deu ouvidos... Agora, sentira um arrepio na coluna vertebral... tão forte que o deixou imóvel e quase não sentia a cabeça, também não sentia os membros inferiores. Com muito esforço telefonou para os bombeiros que passados alguns minutos estavam já com o Rodrigo a caminho do hospital...

Ficou internado... dias e dias... meses... quase dois anos...e nunca teve uma visita daquelas que vão lá de propósito, daquelas que lá vão, só para nos ver a nós.

Nem uma!

Só o capelão e umas senhoras que visitam todos os doentes que não têm visitas... e com estes Rodrigo falava pouco, mostrando um pouco de simpatia; mas não mais, só um pouco... afinal, era o que sentia por eles.


Rodrigo esperava pela noite para chorar sem que ninguém o ouvisse ou percebesse. De dia sentia o desespero e a angústia de não haver ninguém que o visitasse... ele que tão bom homem fora. Lembrava-se dos seus romances... mas nunca falou deles com ninguém.

A sua tristeza e solidão acabaram por o matar...

Morreu no dia 28 de Março de 1984 com uma coisa qualquer, um daqueles nomes que os médicos têm para dizer quando não sabem o que é, ou do que foi.

Morreu só e triste. Os seus romances, as folhas soltas em montes, foram para um caixote de lixo qualquer...Os seus romances, os romances mesmo... esses todos nós os ouvimos quando estamos sós e tristes.


Friday, July 28, 2006

Guilherme

Guilherme tinha acabado os seus estudos. Nunca teve uma namorada a sério... Nunca tinha sentido necessidade de alguém junto de si... o sexo oposto nunca o tinha atraído... tinha tido umas aventuras, mas o seu coração sempre foi seu... nunca o ofereceu a ninguém... só por palavras, mentiras...

Vivia sozinho numa casa onde nada faltava... a não ser um outro... e Guilherme começou a sentir a falta desse outro quando um dia a luz faltou... TV, Hi-Fi e tudo o resto silenciou-se... O silêncio teve então hipótese de ficar a sós com Guilherme... sentiu uma falta muito grande, a falta de algo... alguém!

Um dia resolveu acabar com o silêncio e procurar uma mulher para casar... viu muitas... falou com algumas... não gostou de nenhuma.

Quando chegou a casa pensou que tinha de ter calma, manter-se sereno... pois uma escolha apressada poderia estragar tudo.

Meses após meses Guilherme procurou com muita paz a mulher com quem casar, com quem dividir o que tinha... um alguém que lhe enchesse o que agora sentia tão vazio... mas era muito difícil... Ou eram comprometidas ou então não queriam nada com ele...

Manteve-se calmo... Trabalhava, dormia e procurava a mulher da sua vida... durante anos...

Cada vez mais o silêncio de sua casa lhe metia medo... então, uma noite, antes de adormecer, começou a pensar que afinal de contas ele até estava a viver uma vida boa... apesar de alguma frustração que lhe advinha do facto de não encontrar quem procurava... a sua vida até era, na sua globalidade, uma vida boa... não tinha atritos com ninguém, trabalhava honestamente e era recompensado de acordo com isto... muita gente o admirava e tinha até já servido de exemplo a muitos que se apressavam a procurar outro alguém... Guilherme costumava dizer: " Eu também procuro um outro alguém... mas com a paz de quem quer escolher bem... com a paz de quem vai acertar... com a paz de quem, mais cedo ou mais tarde, vai ser muito feliz porque encontrou o seu outro... e o ama."

Guilherme naquela noite viu que tudo em si até nem estava tão mau como às vezes sentia... por vezes sentia-se mergulhado num poço onde gritava e nem eco havia... porque o seu grito era de silêncio...

Por fim adormeceu...

Foi acordado na manhã seguinte por um cheiro a flores... uma senhora muito bela estava perto da sua cabeceira com um enorme arranjo de flores... ficou espantado... e teve que perguntar como é que ela tinha conseguido entrar...

Ela não lhe respondeu a essa pergunta, mas respondeu à outra que ele ainda não tinha feito:

"- Sou uma mulher que esperava alguém a quem dar o amor que tenho e guardo... sempre tive medo de procurar por medo de não acertar... por isso, simplesmente esperava... até que o vi. Os seus olhos mostraram-me uma paz que não tive dúvidas em ver em si aquele que eu esperava... passou algum tempo e cansei-me de esperar, resolvi procurá-lo e aqui estou... chamo-me Beatriz, tenho 32 anos, sou solteira e amo-o sem o conhecer... ..."

Guilherme nem acreditava... com a boca completamente aberta olhava Beatriz.. nem sabia o que pensar ou sentir... um sonho?! Não... Ela era loira e trazia o cabelo apanhado atrás, muito bem esticado... parecia ter 25 anos... era muito bela...mas... mas... se calhar era um sonho... ele não estava a compreender absolutamente nada... Por fim perguntou:

"- Beatriz... como consegue amar-me sem nada saber de mim, a não ser a forma como eu a olho e... pelos vistos a minha morada... pela minha boca nada sabe... nem sabe o que penso ou sinto por si!?"

Ela respondeu-lhe com serenidade dizendo:

"- Guilherme... desculpe-me mas vou-me embora, não porque esteja desiludida, mas porque me estou a sentir motivo de confusão... quando quis ser motivo de uma alegria de fusão... Desculpe-me... voltarei um outro dia..."

Guilherme agarrou-lhe na mão e disse:

"- Beatriz... não vá... amo-a... é você!!!"

Alguns dias depois já viviam juntos, como casados... só que não se beijavam nem trocavam palavras. Depois casaram e continuaram como estavam: sem beijos nem palavras, só o amor... só a sua forma bonita de amar...

Muitos anos mais tarde Beatriz não apareceu à hora do costume... Guilherme ficou muito preocupado, entretanto, tocou o telefone e uma voz lacónica perguntou se era o esposo de Beatriz, depois de responder afirmativamente, Guilherme ouviu a voz dizer-lhe que Beatriz tinha sofrido um desastre mortal, ele manteve-se calmo e desligou depois de saber o hospital, ou melhor, a morgue em que ela se encontrava e dirigiu-se para lá... Identificou-se e passados alguns momentos viu o cadáver de Beatriz... Chorou três lágrimas e depois foi para casa...

No enterro estava sozinho... Levou as pétalas das flores com que outrora Beatriz o tinha acordado e que tinha guardado todos aqueles anos... deitou-as por cima do caixão e foi para casa...

Guilherme veio a morrer num hospital da sua cidade... Morreu de velhice... Morreu porque o seu corpo não aguentava viver mais... o seu coração, a sua alma, esse era como sempre foi: Grande e Calmo.

Morreu... e foi sentar-se à cabeceira de uma cama onde Beatriz esperava calmamente por ele... o que ela não esperava era o beijo com que Guilherme a acordou..


Tuesday, July 18, 2006

Wilson





Era uma vez um menino de 12 anos que vivia com a sua família no interior.

Wilson guardava ovelhas. Era magro, cabelo curto e andava sempre a lutar contra o frio com agasalhos cheios de rasgões.

Sua família propusera-lhe um dia que ele fosse estudar, e isso porque se pensou que ele talvez viesse a precisar de ir à escola. Mas Wilson não aceitou, eles precisavam dele e ele precisava de alguém que precisasse dele. René orgulhava-se por ter uma família que precisava dele e que, ainda assim, lhe tinha dado a possibilidade de estudar.

Havia na aldeia uma menina muito bela que o Wilson via sempre que ela vinha da escola.

Passava o dia a pensar nela e em casar-se com ela. Ele precisava dela para ser feliz, mas havia que esperar, é que agora ele estava a cumprir o amor à família.

Deixando temporariamente da lado a escola e o amor exclusivo da rapariga muito bela, Wilson vivia sozinho por entre céu e terra fértil, no meio de vales fundos e montanhas altas.

Um dia a vida de Wilson foi-se embora, fugiu-lhe quando caiu no fundo de uma ravina...

Lá em baixo, um cadáver. Em cima, olhando para baixo, as ovelhas.

Lá na aldeia, uma rapariga muito bela. Em cima, olhando para baixo, um rapaz magro e de cabelo curto.

Wednesday, July 05, 2006

aos meus amigos


existe hoje em mim um sentimento:

o do receio quanto ao futuro,

não o meu,

mas o vosso,

pessoas de quem gosto,

desculpem-me mas hoje receio por vós e sofro.

já me surgiu a ideia de estar a querer que sofram comigo,


mas afasto-a... no extremo preocupa-me tanto o meu como o vosso.


hoje sinto a vertigem dum futuro vazio,


potencialmente repleto de coisas más...


em dias como este, não consigo ser optimista,


porque o mundo me aparece cinza escuro


sem luz no fundo...


embora a metáfora contrária também faça imenso sentido:


se agora há luz, já vislumbro um lugar negro


para onde todos, inevitavelmente, peregrinamos...


chego até a sentir que se um de nós se "safar",


já é uma vitória do colectivo,


e senti-la-ei como se da minha se tratasse.


Desafio-vos pois a todos a irmos juntos,


ou talvez esteja simplesmente a rogar-vos


para que não se esqueçam de vós,


Enfim, que me dêem a felicidade de vos ver felizes.

Monday, June 26, 2006

Esboço de uma teoria sobre o Amor e a Morte



Amar é: Ser generoso, Servir, Trabalhar sem procurar descanso, Lutar sem cuidar das feridas, Gastar-se, enfim, Dar-SE


Partindo do pressuposto que o amor é dar-Se (tendo como sentido/sentimento o oposto ao egoísmo) pode considerar-se que a morte apenas põe termo à existência corporal-visível, mas não com a presença efectiva neste mundo.

Se A ama B, então B acaba por tomar A em si, passando a ser uma fusão do que era com a substância do amor de A - um BA - e quando este último amar, dar-Se-á como BA, pelo que, ao amar um C estará a perpetuar a existência de A em C, teremos pois um CBA.

Só morrem aqueles que amamos. Afinal, não tem para nós significado a morte do anónimo. Os que amamos sim, esses morrem, pese embora ser a estes que é mais difícil de atribuir a categoria de mortais. Por outro lado, são os que nos amaram que nunca desaparecem, vivem em nós, connosco... enfim, somo-los. Só há perda quando houve laço, e este, apesar de muito nomes - Admiração; Alegria; Amizade; Atenção; Bondade; Caridade; Compreensão; Empatia; Interesse; Fraternidade; Respeito; Solidariedade; Tolerância; Voluntariado, etc. ...é sempre Amor.

É errado pensar que aquele que nos amou morreu, pois é precisamente no momento da sua "perda" que tal pessoa nos aparece, no fundo de nós, como uma absoluta presença.

Cada um de nós traz no fundo de si um pequeno cemitério daqueles que amou, mas também somos todos aqueles que nos amaram, senão repare-se quantos são aqueles que vêem desvanecer os defeitos dos seus entes queridos que faleceram, ao mesmo tempo que florescem, quase como se as sementes lá jazessem há muito, as suas virtudes brilham no jardim da sua recordação.

Diz Guidicelli:
Morto há um ano, o meu pai é um jovem cadáver que vejo crescer dentro de mim.

Mas eu também morro antes do meu tal dia, pois se vir partir alguém por mim amado... lá se vai um pouco de mim.

Morremos sim, mas aos poucos.



Sunday, June 11, 2006

Brito - Um Homem Só

Era um homem muito só.

Vivia no centro de uma cidade muito povoada... uma cidade moderna.

Absorvido pelo todo, pela sociedade, Brito nada mais fazia senão trabalhar, CONSUMIR e dormir... tinha pouco tempo, demasiado pouco tempo para fazer outras coisas...


Brito era em função do todo, da máquina... não pensava nem sentia nada,

não vivia... era um cidadão exemplar!

Aquando do cumprimento de umas férias, Brito reflectiu... pensou em si... sobre quem era... recordou-se da sua meninice, dos seus pais, de uma ou outra namorada que tivera... lembrou-se dos seus sonhos, daquelas possibilidades belíssimas que tivera para si...


Foi então que começou a perceber que não mais tinha sido ele mesmo... só o era quando dormia e tinha pesadelos pesados, que precisamente o recordavam do que já não era... quando estava acordado a sociedade tratava-o "tão bem" que não lhe deixava espaço para sonhar, ou melhor, o todo em que estava diluído alimentava-o com sonhos que não eram os seus...


Murmurou de si para si:

Sou realmente o que sou quando durmo e sonho, sonhando os meus próprios sonhos, aqueles a que a hierarquia me ensinou a apelidar de pesadelos e a ter medo deles, mas quando sonho sou eu... no acordar sinto o medo que me ensinaram, por isso é que o que sou, o Brito, fica sempre na cama e é lá que está aquele que sou. Acordado sou tudo menos eu mesmo, eu próprio. Acordado existo mas não vivo... acordado... eu nem sequer acordo já... quem acorda é o nº 745664151 e é este quem calça os chinelos que estupidamente chamo "meus"... o Brito... o Brito nunca mais acordou

745664151 trabalhou ainda muitos anos vindo a sucumbir com 81 anos de idade e o seu corpo "descansa em paz" num cemitério da sua "mãe" cidade, o epitáfio reza assim: "(...) eterna saudade de todos os seus amigos"

Brito morreu menino, criança ainda, foi brutalmente assassinado por uma almofada que o asfixiou... o seu corpo jaz em câmara ardente debaixo da almofada de cada um de nós, tendo sempre o mesmo epitáfio:

MORREU UM SONHO

Saturday, June 03, 2006

Um Casaco Especial


não me canso de contar esta história:

tinha cerca de 18 anos, lembro-me muito bem de ter trabalhado na Ilha da Berlenga e ter conhecido o faroleiro, era um homem afável, embora de mui poucas palavras, do qual fico com uma ideia de ser alguém que tinha tempo para tudo... e um interior do tamanho do mar...
recordo-me de num dia enquanto com ele dava uma volta de barco, em busca da pesca/apanha ilegal de percebes, eu ter reparado no seu casaco/impermeável e lhe ter dito que o achava "muito louco".

Era de um roxo que a sucessiva exposição à água salgada tinha criado um padrão fora do comum...

o meu amigo com toda a calma que o caracterizava despiu-o e entregou-mo dizendo um seco, sibilino e essencial:

- É TEU !

hoje sei que aquele gesto veio condicionar toda a minha vida...

ainda o tenho ali!