Friday, October 14, 2005

Um Espelho para ver o Outro

Existe lá para as índias um chão de água que pretende representar um pequeno espelho por onde um homem passou os últimos dias da sua vida a contemplar um templo que mandou erguer em memória da sua amada esposa.

A história parece ter começado quando o príncipe Shah Jahan se apaixonou por uma donzela com a qual se cruzou num bazar - algo estranho pois tinha direito a cerca de mil mulheres! - chegando ao ponto de lhe oferecer de imediato um enorme diamante.

A Princesa Aryumand Banu Begam recebia do seu amado esposo o nome de Mumtaz Mahal (Jóia do Palácio), e deu à luz, ao seu esposo e a todo o reino, 14 crianças. Mas o parto do 14º foi-lhe fatal.


Corria já o século XVII, e o Imperador Shah Jahan tomou então a decisão de erguer um monumento ao (seu) Amor. Demorou mais de vinte anos a executar o planeado, contou com 22.000 artistas escolhidos entre os melhores artistas do seu reino e dos reinos adjacentes, só utilizou matérias-primas nobres, não se tendo coibido de usar, por exemplo, esmeraldas no topo das cúpulas – onde não se conseguem contemplar a olho nu. Permitam-me um pormenor: a brancura do mármore ainda hoje dá uma sensação de fluorescência se visto ao amanhecer ou ao crepúsculo, mas é ao luar que se compreende que o amor é luz nas trevas.

Continuando a nossa história: Um dos seus filhos querendo tomar de seu pai o trono encarcerou-o sob a acusação de insanidade – tendo o monumento como prova! Shah Jahan passou assim os últimos anos da sua vida a contemplar um espelho por onde lhe era permitido ver a obra que tinha erigido em honra dessa outra obra quase divina de que lhe foi permitido fazer parte: um grande amor.

Morreu com o espelho na mão e com ele assim foi enterrado bem perto da sua amada.

O lago é aparente e resulta da presença de um rio, os ciprestes que o ladeiam são velas que velam... e humanos que caminham para o templo...

Monday, October 10, 2005

O meu Amigo Tó

O meu amigo Tó tem 8 (sim! Oito) filhos.

Tenho, por ele, uma admiração que se cruza com uma ténu
e inveja. Eis os nomes das crianças:

Inês, Mariana, Tiago, Maria, Joana, André, Miguel e José

Aprendo com ele a uma taxa altíssima de aproveitamento de ensinamentos por hora de convivência, talvez pela minha admiração chegar a um ponto que me torna incapaz de questionar o quer que me diga.


E, depois, tem uma humildade tal que acabei por ter de rever a minha escala do que é ser Humilde. Depressa se instalou a amizade entre nós e mais facilmente mostrou aceitar-me no seio da sua família…

As pessoas que se deparam com a situação teórica de ter uma família de 10 pessoas, referem de imediato da necessidade de dinheiro que um cenário desses exigiria. Ora, o problema – segundo me parece – está bem ao lado: não se trata de ter uma família de 10, trata-se de SER a décima parte de um todo, e de acreditar que o Amor pode muito, une e transporta em si uma família de 10 ou mais… sim, ou haverá alguém que ouse pensar que o meu amigo Tó se assusta com o anúncio da chegada de mais?

Vejo na sua atitude quotidiana uma grandeza de carácter raríssima. A fé que deposita Naquele que dá a vida é exemplar. ...o Tó é capaz de pensar e falar acerca do sacrifício pedido a Abraão...

Deixei para o final algo que é, talvez, o mais incrível desta história (compreenderei portanto todos quantos forem descrentes a este nível) os filhos do meu amigo Tó são LINDOS, quais anjos (sim sim, loirinhos e olhos de um azul celeste!!!)… não, não se trata de emoção, tão-pouco elogio mais ou menos requintado, É A VERDADE.

Talvez porque… talvez porque Deus assim quis.


E a Madalena… a sua força e calma, ao que sei, são as de quem só pode ter sido escolhida para boa mãe.

Obrigado Tó.

Friday, October 07, 2005

E o AMOR?

Sobre o Amor sempre me ocorre uma ideia que nasceu da contemplação de uma oração que tantas e tantas vezes rezei, ei-la:
Senhor Jesus
Ensinai-me a ser generoso
A servir-Vos como Vós o mereceis

A dar-me sem medida

A lutar sem cuidar das feridas
A trabalhar sem procurar descanso

A gastar-me sem esperar outra recompensa senão saber que faço a Vossa vontade Santa

Ámen


Ora, sempre vi em todas estas linhas uma espécie de concretizações de uma fórmula mais simples:
Ensinai-me a Amar.

E é sempre deste fluxo que emana do mais íntimo em direcção ao outro que se fala… cedo compreendi que o oposto ao amor não é, de forma alguma, o ódio.

É o egoísmo, por ser o movimento contrário – um fluxo de absorção.


Amar é dar, não dar isto ou aquilo – dar o que sou, ser para dar.

Se me dou constituo o outro, da mesma forma que sou um resultado da fusão de muitos amores que me tiveram como alvo/receptáculo.


Não morro tão cedo, porque para morrer por completo teriam de desaparecer todos quantos já amei… afinal não morreram todos quantos me morreram, porque vivem em mim – deram-se-me.


Obrigado a todos quantos sou.

Thursday, October 06, 2005

Uma questão da "Felicidade"

Dizem os budistas que se se trata de concretizar objectivos, então, mais do que a luta empreendida para os alcançar, há que diminuí-los ao ponto mínimo... assim, tudo seria razão de felicidade.

Há, no nosso mundo, um apelo constante e quase tão profundo quanto o nosso ser ao consumir... sementes de desejos daninhos que crescem e se alimentam da nossa pré-fabricada frustração por não os satisfazer... Já escrevia Platão que sendo a nossa alma semelhante ao líquído de um tonel, os desejos seriam furos que auto-infligiríamos a esse recipiente... todo o trabalho para a edificação e crescimento da alma de nada valeria pois, pouco tempo volvido, acabaríamos esvaziados de nós próprios... deixando a nossa alma na mão dos semeadores de sonhos materialistas.

É-me difícil lidar com os meus apetites. São tantas as vezes que "quero" comprar e ter, que pouco me aplico na construção do ser... e tendo consciência de onde está o que intimamente viso, ou não tivesse já cheirado a felicidade, pior me encontro quando sigo por caminhos opostos ao daquele que me levará ao eu feliz... ao daquilo que DEVIA ser.

Farei um esforço por anular, na medida do possível, essas sementes que alguém em mim plantou e que teimo em alimentar.

Não imagino pior que chegar a velho e ver a nossa vida como um enorme falhanço... e gritar como um dos personagens de Raul Brandão:
Estou gasto e velho, porque, sem - ó desgraça - ter vivido, tudo vivi.
(tudo vivi: consumi o tempo todo; sem ter
vivido: sem ter conseguido viver em profundidade, em significado existencial)

Wednesday, October 05, 2005

O Porquê da minha Admiração pelo Cipreste


Há um tempo atrás fui a casa do meu amigo Martinho, bisneto de Raul Lino - Famoso arquitecto de idos tempos, que tinha na sua casa uma marca que muito me despertou a atenção: AZAD escrito em persa. Era A marca do famoso arquitecto... quer dizer Cipreste e foi o Martinho quem me deu mais dados sobre esta ideia, a meu ver, genial.

Perguntaram a um homem sábio: "Cada qual tem a sua missão e o seu tempo próprio, durante o qual é forte e fértil, e na sua ausência fraco e seco; a nenhum destes estados transintórios está o cipreste exposto, florescendo sempre: e desta natureza são os azads. Não fixam o seu coração no que é transitório. (...) Se na tua mão houver abundância, sê generoso como a tamareira; mas se nada tiveres para dar, sê um azad, ou homem livre, tal como o cipreste.

Sa’di de Xiraz
Depois, foi um sem número de reflexões que me apontavam sempre para as peculiaridades dessa árvore que teimamos em considerar de forma básica como: a dos cemitérios.

Tentarei, ao longo daquilo que aqui escreverei, divulgar as qualidades do cipreste.

Óbvio: Obrigado Martinho!