Friday, February 24, 2006

Catarina Vela


I
Um dos lugares da vida social, nas Azenhas do Mar, era a pastelaria Ouress. Um dia entrou uma jovem desconhecida. Só pela sua aparição, pareceu-me que a cor do dia, e até a qualidade do ar, se transformava. Alta, esguia, reflexos dourados no cabelo e nos olhos, a tez rosada, os lábios tão cintilantes como a polpa de um fruto, aquela rapariga irradiava saúde, vida e alegria.

Eu nunca tinha visto nada igual. Uma fada.

Desde então, só tinha uma ideia fixa: voltar a vê-la. Durante vários dias fui instalar-me na pastelaria. Não saía de lá. Hospedei-me lá. Passava os meus dias à espera dela. De olhar fixo na porta, comia bolos lentamente, cada vez mais lentamente, para os fazer durar, a cada um, o máximo de tempo possível. Um palmier. Um pastel. Um palmier. Outro pastel. Uma tarte. Outra tarte diferente. Mais um palmier. Sentia náuseas. Quase indigestão. Mas por nada deste mundo sairia da pastelaria. Ai de mim! Ela não voltou. Uma vez, de longe, avistei-a na rua. E mais nada. Tinha-se ido embora. Não sabia quem ela era nem onde vivia. Tudo o que sabia dela era o seu nome: Catarina Vela.

II
Com a chegada iminente do verão, já não eram só as férias que se anunciavam. Era sobretudo a perspectiva de em breve voltar a ver Catarina Vela .

E, com efeito, poucos dias depois de ter chegado a férias, avistei a longa e delgada silhueta que esperava. Mais bela ainda que na minha recordação, mais sorridente, mais luminosa, Catarina Vela trazia uma blusa branca, uma longa saia plissada que se evadia em corola a cada passo que dava e um chapéu de donzela do século XIX.

O meu segredo não queria divulgá-lo nem expô-lo aos sorrisos nem à ironia. Preferia vaguear perto do palácio da minha Bela Adormecida. Esperava a passagem de Catarina Vela. Mas, quando a encontrava, não sabia que fazer, nem que dizer...
No último dia, aceitou um passeio a sós comigo. Mal acordei, nessa manhã, corri a abrir as persianas para ver se estava bom tempo. Sim, estava bom tempo. Sim, seria um dia quente, com céu azul, sol e canto de pássaros. Uma hora antes do encontro marcado já eu rodopiava à volta da casa de Catarina Vela. Quando ela apareceu, cintilante no seu vestido de seda azul, nem por um instante duvidei de que ia sair com a mais bela rapariga que o mundo podia oferecer. Tínhamos decidido ir merendar a uma quinta, partindo da praia e indo pela beira-mar para voltarmos pela estrada de Sintra.

Maravilhoso passeio ao fim do mundo, no ar do largo, com o odor do oceano. Tínhamos tantas coisas para dizer um ao outro! Dos nossos estudos, das nossas leituras. Do cinema. Das pessoas das Azenhas do Mar. De pessoas famosas e dos amigos comuns.

III
Várias vezes, ao longo da subida, para transpor um qualquer muro ou vedação, ofereci a mão a Catarina Vela para a ajudar. De todas as vezes, recusou. Era reserva? Medo? Desprezo? A primeira recusa surpreendeu-me. A terceira irritou-me. Quis pegar-lhe no braço. Soltou-se. De repente decidi que precisava de a beijar antes do fim do passeio.

Imediatamente a seguir começou a anoitecer. Tinha a noção de um dever a cumprir. A ideia de um combate a travar, a possibilidade de não atingir o objectivo, o sentimento de incapacidade caso falhasse, tudo isso me tirou imediatamente todo o prazer. A euforia apagou-se perante a inquietação.

A partir de então, só tive uma ideia: encontrar o melhor meio, o melhor momento para beijar Catarina Vela .

Mas esse beijo tinha perdido todo o sabor. Longe de me alegrar à ideia de felicidade que sentiriam os meus lábios aos tocar os dela, a ideia da luta a travar tornou-se um suplício. Já não olhava Catarina Vela como um objecto de doçura e calor, mas como um motivo de guerra, um objectivo a atingir a qualquer preço. Ela cantarolava enquanto caminhava, colhia aqui uma rosa, ali um brinco-de-princesa, esboçava um passo de dança. Mas aquele entusiasmo e aquela alegria de viver, que um momento antes me enchiam de felicidade, agora não faziam mais que aumentar o meu nervosismo. Já só pensava na obrigação de a beijar. No próximo plátano, aí vou eu. Não. Espero por aquele arbusto, lá em baixo. E a quinta chegou sem eu ter tentado nada. Numa sombra mais generosa, partilhou a merenda – água fresca e travesseiros da Periquita. Catarina Vela saboreou-os com um apetite soberbo. Eu? eu não fui capaz de engolir nada. E tivemos de partir de novo. E com as perguntas de Catarina Vela, que procurava compreender porque tinha eu perdido a minha jovialidade, cresceu em mim a angústia. Seguimos a estrada que entrava por um bosque de ciprestes que já se avistava ao longe. Decidi passar à acção ao atingir esse bosque. Mas, secretamente, esperava que um incidente enorme, uma queda de avião, a irrupção de um touro furioso ou outra coisa qualquer, tornassem vão o meu projecto.

E, à medida que nos aproximávamos do bosque, Catarina Vela parecia cada vez mais intimidante, inacessível. E nenhum engenho aéreo veio em meu socorro. Nenhum animal selvagem se mostrou. Só uma vaca num campo nos contemplava com simpatia. Tinha chegado a um tal ponto de ansiedade que já nem sequer conseguia olhar Catarina Vela.

IV
De repente, agarrei-lhe a mão e tentei atraí-la a mim. Ela retirou a mão. Talvez que perante essa pequena fuga fosse preciso obrigá-la.

Mas foi num tom quase suplicante que, agarrando-a suavemente pelos ombros, lhe disse: "Deixe-me beijá-la." Como se agarrada pelo diabo, ela repeliu-me e afastou-se a passos largos. Segui-a em silêncio. Regressámos às Azenhas do Mar. Ela partiu no dia seguinte.

Porque me rejeitou assim Catarina Vela?

Porque razão recusou com tanta violência uma carícia tão inocente?

Talvez eu tivesse querido ir depressa demais. Talvez ela não pretendesse, antes da partida, conceder-me o que, no seu espírito, eu poderia tomar por um acordo, uma promessa.

Talvez eu me tivesse simplesmente iludido ao julgar que lhe agradava.

Durante vários dias fechei-me em casa.

Eu.

Thursday, February 09, 2006

Pescador


Era um pescador solitário.

Um dia quando o anoitecer caiu e a luz do dia se desvaneceu, a sombra segui-o, - uma sombra de um outro mundo. E estava no mar e já devia ter voltado... estava perdido, perdido no mar e na penumbra, na escuridão do oceano, nos oceanos da noite...

Sentia-se perto, sabia o caminho... sentia-se em casa sentindo-se muito longe dela.

Pedro, pescador, naquele dia, no mar morreu.

Sunday, February 05, 2006

Valéria

Trata-se de uma história verdadeira passada a bordo de um avião da TAP.

Depois do embarque e estando já o avião a circular a fim de proceder à descolagem, uma brasileira, sentada numa fila ligeiramente à frente das asas, chamou uma assistente de bordo para lhe pedir explicação acerca daquele estranho ruído oriundo de algures debaixo da sua cadeira. A assistente, compreendendo do que se tratava logo explicou:


- Por debaixo das asas há o trem de aterragem e é esse barulho que a senhora está a escutar! Trata-se do trem a rolar na pista! é o que está a fazer este barulho... o trem de aterragem... como lhe chamam no Brasil?
- Valéria! Lá no Brasil me chamam de Valéria.


Talvez algum dia possam compreender por que razão há hoje um pouco por todo o mundo pilotos que muito solenemente confirmam:
- Valeria’s handle - Pull Up.
- Valeria up & off.

Thursday, January 26, 2006

Miguel Vivas - O meu melhor amigo.

11 de Julho de 1993 - concerto dos Depeche Mode em Alvalade. Fomos! afinal tinhamo-lo ansiado há já vários anos. Era o nosso grupo de eleição, lembro que escutávamos músicas vezes sem conta até ser capaz de decorar as letras, e a forma quase religiosa como víamos os videos num qualquer canal televisivo, e sem internet, coleccionávamos montanhas de pequenos factos...

o concerto é inolvidável, sê-lo-ia da mesma forma ainda que o Miguel não tivesse morrido num dia 9 de Dezembro de um dos anos seguintes, o conjunto de pequenos "clips" do concerto que retenho na memória são uma experiência conjunta de ter estado no centro do mundo ao som de depeche mode.

depois, sempre que sairam álbuns ou dvd's comprei-os com a sensação que a minha admiração pelos Depeche era, para além de uma estima pessoal, uma forma de expressar a minha admiração e saudade do meu amigo. ouvi-os vezes sem conta até, literalmente, me fartar... e depois bastava um qualquer pretexto para os ouvir novamente, agora calama e mais serenamente!

para o próximo dia 8 de fevereiro reservo um respeito bonito por ter encontro marcado com o Miguel. No pavilhão atlântico não estarei só, estou tão certo de que ele vai estar comigo que julgo que terei uma noite de suave e delicioso passar do tempo donde se pode saborear cada momento.

Desde a morte do Miguel, muitas foram as vezes em que um turbilhão de pensamentos me foi interrompido porque o rádio soltava uma música dos Depeche detendo-me numa ideia que a partir desse momento era assumida como a correcta. lembro de estar à espera de um teste de gravidez e de o "enjoy the silence" (recordam a letra?) ecoar a partir das colunas do carro e de como a desnecessidade de ir buscar o resultado se deixou surpreender por uma ideia bem mais pragmática: agora veremos se é ou não é tudo uma efabulação da tua cabeça!... e claro que fui buscar o resultado e claro que havia bebé...

Ao miguel devo grande parte do meu sucesso profissional, pois sempre me fez pensar bem claro e determinado a respeito dos estudos - Tens que ir longe, onde os outros não sabem ir... - e depois da sua morte acabei por andar uns bons anos em torno da questão da morte, donde ainda não se vislumbrava que haveria ainda de me tornar num expert, em alguém que os outros até ouvem e de quem recolhem exemplo, como se estivesse mais perto da verdade... em qualquer sítio onde os outros não sabem ou não querem ir...

enquanto escrevo estas linhas sinto-me estranha e vertiginosamente o José Luís que sou, uma espécie de banho de autenticidade me inunda, revelando-me um Eu que afinal sempre sou, até cheguei a ter vontade de dizer olá a mim mesmo!

não sei, sinceramente, onde está o miguel sem ser no meu coração, mas certo é que, aqui, está de certeza...

no dia em que soube da notícia da sua morte tinha trazido uma prenda para lhe dar para fazer umas pazes depois de um afastamento qualquer... dois dias antes tinha-lhe emprestado um CD raríssimo que depressa o miguel passou a cassete para poder ouvir no carro e que na altura da tragédia estava a tocar... "enjoy the silence"...

muitas coisas, belas e não, desde então passei de forma um pouco mais solitária.
Paciência, pois se a vida é assim também estou seguro que não é só assim.

tenho, claro mais amigos e mais músicas e grupos que me deleitam... mas no dia em que o meu velório se realizar lá se escutarão duas canções: "enjoy the silence" - D.M. e o "sailing" - Rod Stewart.

um abc forte a cada um dos meu amigos e
um bj terno a cada uma mas minhas amigas.

permitam-me um tributo ao meu amigo Miguel em forma de desafio:
E tu? que música gostarias que acompanhasse o velório ao teu corpo?

Monday, January 16, 2006

Concept_U

Ortega y Gasset dizia que a excelência não é fazer coisas extraordinárias, mas tão-só: fazer coisas simples extraordinariamente bem.

Não é publicidade... com este post viso apenas recomendar a todos aquilo de que tive, com excelentes resultados, experiência.

Não é em Londres nem noutro sítio qualquer do mundo, é em Portugal; + propriamente em Azenhas do Mar!

Os dois – agora – meus amigos que estão por detrás desta empresa fazem deste trabalho algo que merece a vossa atenção, dado que para mim é óbvio que todos os meus amigos deviam ser tratados como eu o fui (e sou!) pela Concept_U.

Explicações ?
Os mails com que nos respondem são tudo menos standard, personalizadíssimos como se fossemos os seus únicos clientes...

A simpatia e humildade chegam a chocar as mentes mais habituadas aos tratamentos mais hipermercáticos...

O seu trabalho é honesto e de qualidade indubitável.

A reacção das pessoas que recebem uma prenda destas é de admiração (ad-mirar: ficar parado a olhar para). até mesmo os indignos e esquecidos do bom-gosto nem sabem o que dizer perante a novidade que se lhes apresenta.

Ora Aristóteles (que não teve oportunidade de conhecer a Concept_U) escreveu:
Somos o que repetidamente fazemos, a excelência é então, não um acto mas um hábito.

ORIGINAL e EXCELENTE.

Visitem o site: http://www.conceptu.azenhasdomar.net/ e depois digam-me qualquer coisa.

Trabalhos também em exposição na minha humilde casinha!!

Thursday, December 29, 2005

Moleskine



Confesso que este é um post íntimo.

Eu gosto tanto de Moleskine!

O que é um Moleskine? É uma marca de cadernos cuja perfeição se revela nos mais ínfimos pormenores. Existem na linha Moleskine uma panóplia de modelos com diferentes tamanhos e layout de página.

Existe apenas um modelo que nunca comprei e que me parece pouco adequado: a agenda anual... há claro vários modelos! Mas a minha resistência deve-se ao facto de respeitar tanto a folha em branco de um Moleskine que me parece ser quase um crime preenchê-la com banalidades.

Ah claro, há sempre quem diga: caros!!! Pois para a maior parte de vós pode parecer que não há caderno que valha 10 euros, mas há...

Tenho um tal respeito pelos Moleskine que nada de importância escrevo à mão sem ser num dos míticos cadernos, teimei perante mim mesmo porque enquanto não encontrei o modelo perfeito para elaborar apontamentos para a tese de doutoramento não dei início aos trabalhos, o que demorou cerca de 3 meses!

Outra miséria pessoal acerca dos famosos cadernos é o facto de, pessoalmente, nunca ter os suficientes... até porque quando quero dar uma lembrança/prenda com classe lá se vai um dos meus... espero que este texto me ajude a inverter a tendência de os só dar...

Procurem-nos...




Saturday, December 17, 2005

Sebastião

África, sec. XX, anos 90. Guerra e fome.

Uma mulher acabava de dar à luz um filho, um menino, a alegria misturava-se com o som de rebentamentos e com o barulho do vento no colmo de sua casa.

Ela fez tudo: cortou o cordão, lavou o menino na água que tinha andado a poupar havia já algum tempo para esse efeito, por fim abraçou-o e pediu-lhe desculpas em nome do mundo pela condições em que se tinha verificado a sua chegada.

Deu-lhe o nome de Sebastião e tudo o que pensava era em relação a esse menino, ao seu menino, quando saía era para procurar o que comer... por vezes não encontrava nada e entrava na cabana muito triste, rezava... depois dava de mamar ao menino, ele adormecia e ela voltava à rua para procurar comida... estava cada vez mais exausta, pois cada vez menos encontrava de que comer.

Uns vizinhos, os Bidá, moravam a 500 metros e tinham-na ajudado durante os últimos meses de gravidez, ou melhor, a senhora Bidá fazia questão de partilhar com a futura mãe do Sebastião o que o seu marido conseguia arranjar, embora este não gostasse nada disso porque era bruto e egoísta. A senhora Bidá não, era amiga. A mãe do Sebastião bateu à porta dos Bidá mas ninguém respondeu... e agora... não estavam, nada tinham deixado, tinha sido com certeza ideia do senhor Bidá. Voltou para a sua cabana, o menino chorava e por isso encostou-o a si e tentou explicar-lhe que o futuro era algo de muito difícil.

Deu-lhe de mamar... mas pouco antes o seu organismo já deixara de permitir que existisse a fonte para saciar o menino, estava magra e embora o Sebastião estivesse bom, ela estava completamente desesperada mas não podia deixar-se morrer pois isso implicaria a morte do menino!

Foi procurar mais uma vez algo para comer quando a cerca de 10 metros da cabana as suas pernas a traíram, caiu e não conseguia levantar-se, estava completamente só, ninguém a podia ajudar mas ela não acreditava nisso e por isso chorando lágrimas que já nem água tinham, rezou da seguinte forma:

Meu Deus,
Este mundo é cruel...
Preciso de Ti, preciso da Tua ajuda para a vida do Sebastião.
Se nasceu, e acredito nisso como tendo sido um dom Teu, porque me deixas só? Porque o deixas morrer? Ouve, ele chora e eu aqui sem ter forças para me levantar... e mesmo que me levantasse precisava ainda de mais ajuda Tua.
Meu Deus, sempre acreditei em Ti e jamais pensei que o menino viesse a morrer e eu sem nada poder fazer. Agora nem sequer posso estar a seu lado...
Meu Deus, porque morrem as crianças? Porque morrem aqueles que existem de mais inocentes?
Peço-Te que me ajudes a levantar-me e que... só Te peço que me ajudes a levantar e que possa explicar ao menino o que se passa, bem sei que nada compreenderá mas talvez eu o oiça a ele.
Ajuda-me, Meu Deus... ... Amen.

A muito custo ergueu-se, entrou na cabana já de gatas e não ouviu o choro do menino... olhou para o berço e... o Sebastião já não estava lá, tinha morrido. ... Olhos esbugalhados, língua de fora... completamente imóvel e horrorosamente branco...

Ela disse então:

Sebastião, meu filho, Deus sabe que fiz tudo o que me era possível para te dar a vida, para que vivesses, infelizmente não posso fazer mais nada.

Abraçou o corpo já um pouco duro e frio do menino e pensando no sentido da vida, rezou:

Meu Deus, acabou, acabei... desculpa-me a falta de esperança. Obrigado. Amen.

... alguns segundos depois caiu no chão, primeiro de joelhos, depois de costas... abraçando sempre aquele que fora outrora o seu menino... e ali morreu, completamente sozinha.

Começou a trovejar, chuva e ventos muito fortes.

...algum tempo depois uma mulher que fugia ao temporal viu a cabana e entrou, mas ficou assustada com o que viu. Como era possível tal coisa??? O medo era tanto que nem sabia o que fazer: como podiam estar ali no chão... duas velas acesas... uma caída sobre a outra, deixando que... deixando que fossem duas velas mas uma só chama.

A mulher ajoelhou-se e disse:
Deus isto é obra Tua e Amo-Te do fundo do meu coração mas agora nem sei o que dizer... Amen.

A senhora Bidá fugira do seu marido e tinha voltado para tentar ajudar a sua vizinha mas logo percebeu que além de já não ser necessário... ...Agradeceu a Deus a força que Ele lhe tinha dado para chegar até ali, sorriu e morreu.

... eram três velas... ...uma só chama, alta... como que apontando para quem a tinha acendido.

Sunday, November 20, 2005

Se...



Se és capaz de manter o sangue-frio
enquanto outros à tua volta o estão perdendo
e deitando-se as culpas;

Se és capaz de fiar-te em ti próprio
quando todos duvidam de ti
- e no entanto perdoares que duvidem;

Se és capaz de esperar sem cansar a esperança,
e de não caluniar os que te caluniam,
e de não pagar ódio por ódio
- tudo isto sem dar-te ares de modelo dos bons;

Se és capaz de sonhar
sem que o sonho te domine,
e de pensar, sem reduzir o pensamento a vício;

Se és capaz de afrontar o Triunfo e o Desastre
Sem fazer distinção entre estes dois impostores;

Se és capaz de sofrer que o ideal que sonhaste
o transformem canalhas em ratoeiras de tolos;
ou de ver destruído o ideal da vida inteira
e construí - lo outra vez com ferramentas gastas;

Se és capaz de fazer do que tens um montinho
e de tudo arriscar numa carta ou num dado,
e perder, e começar de novo o teu caminho,.
sem que te oiça um suspiro quem seguir a teu lado;

Se és capaz de apelar para músculo e nervo
E fazê-los servir, se já quase não servem
aguentando-te assim quando nada em ti resta,
a não ser a Vontade, que te diz: aguenta!

Se és capaz de aproximar-te do povo e fazer digno,
ou de passear com reis conservando-te humilde;

Se não pode abalar-te o amigo ou inimigo;
se todos contam contigo e não erram as contas;
se és capaz de preencher o minuto que foge
com sessenta segundos de tarefa acertada;

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
será teu tudo o que nela existe,
e não receies que to tomem...

Mas (ainda melhor que tudo isto)
se assim fores, serás um homem!

Rudyard Kipling
[Tradução de Agostinho de Campos]


Saturday, November 05, 2005

Apesar de Tudo

As pessoas são insensatas, inconstantes e egoístas.
Ama-as, apesar de tudo.

Se fizeres o bem serás acusado de agires por outros motivos.
Faz o bem, apesar de tudo.

Se tiveres êxito, ganharás falsos amigos e verdadeiros inimigos.
Tenta alcançá-lo, apesar de tudo.

Todo o bem que fizeres, amanhã será esquecido.
Faz o bem, apesar de tudo.

A honestidade e a franqueza tornam-te vulnerável.
Sê honesto e franco, apesar de tudo.

O que passaste anos a construir será destruído numa só noite.
Constrói o que tens a construir, apesar de tudo.

As pessoas precisam de ajuda mas atacar-te-ão se as ajudares.
Ajuda-as, apesar de tudo.

Dá o melhor de ti mesmo e serás atingido nos dentes.
Dá ao mundo o melhor de ti, apesar de tudo.



Pedro Paixão

Sunday, October 30, 2005

Senhor das Tempestades

Senhor das Tempestades é, para mim, o nome pelo qual mais se vislumbra a essência de Deus. O seu poder é algo de incomensurável através de medidas humanas, está claramente fora – além.


Desde pequeno, e nunca serei grande, admiro uma trovoada como algo sagrado.


Ali se espelha uma tal força concentrada que, simplesmente, não se esgota…



De repente, o céu cobre-se de um manto opaco e começa uma amplitude de
cores que nos leva a compreender que tudo o que nos rodeia é claramente tudo menos cinzento, são cores e formas que não estamos habituados a ver – vivemos dias e dias sem olhar para nada com os sábios olhos de uma criança... e o trovão lança luz sobre um mundo que não sendo novo o é para nós naquele momento.

E chove continuamente, a água que cai – e bela, brilha enquanto cai… mas só para quem está atento!! E, acreditem, há quem viva uma vida inteira sem conhecer o prazer de andar à chuva, recolher na sua face aquilo que compõe as nuvens… ah e depois ainda fica em espelho no chão para reflectir cintilantemente os mais pequenos pormenores de mundo.

Claro que é bom pensar na bonança sequente a uma tempestade – quase tão bom como ansiar pela tempestade em tempo de acalmia.

Cai um raio, depois ouve-se a cair, como se a simultaneidade dos dois elementos fosse demasiado para um momento só.

Destruição, sim. Mas não se deve nunca esquecer que é a mesma força que tudo construiu, e não nos alegramos com a beleza do existente, e se nunca ousámos dar-lhe valor, por que Raio, havemos nós de condenar o que a destrói… e terá alguma vez a destruição sido completa? Não.

Sempre de novo tudo se renova incessantemente.

A tempestade é apenas
um sinal e um passo decisivo para que a mudança se consubstancie.

Não há mudança – tão-pouco melhoria sem que haja momentos de ruptura.

Gosto de crises, é quando mais cresço.