Monday, June 26, 2006

Esboço de uma teoria sobre o Amor e a Morte



Amar é: Ser generoso, Servir, Trabalhar sem procurar descanso, Lutar sem cuidar das feridas, Gastar-se, enfim, Dar-SE


Partindo do pressuposto que o amor é dar-Se (tendo como sentido/sentimento o oposto ao egoísmo) pode considerar-se que a morte apenas põe termo à existência corporal-visível, mas não com a presença efectiva neste mundo.

Se A ama B, então B acaba por tomar A em si, passando a ser uma fusão do que era com a substância do amor de A - um BA - e quando este último amar, dar-Se-á como BA, pelo que, ao amar um C estará a perpetuar a existência de A em C, teremos pois um CBA.

Só morrem aqueles que amamos. Afinal, não tem para nós significado a morte do anónimo. Os que amamos sim, esses morrem, pese embora ser a estes que é mais difícil de atribuir a categoria de mortais. Por outro lado, são os que nos amaram que nunca desaparecem, vivem em nós, connosco... enfim, somo-los. Só há perda quando houve laço, e este, apesar de muito nomes - Admiração; Alegria; Amizade; Atenção; Bondade; Caridade; Compreensão; Empatia; Interesse; Fraternidade; Respeito; Solidariedade; Tolerância; Voluntariado, etc. ...é sempre Amor.

É errado pensar que aquele que nos amou morreu, pois é precisamente no momento da sua "perda" que tal pessoa nos aparece, no fundo de nós, como uma absoluta presença.

Cada um de nós traz no fundo de si um pequeno cemitério daqueles que amou, mas também somos todos aqueles que nos amaram, senão repare-se quantos são aqueles que vêem desvanecer os defeitos dos seus entes queridos que faleceram, ao mesmo tempo que florescem, quase como se as sementes lá jazessem há muito, as suas virtudes brilham no jardim da sua recordação.

Diz Guidicelli:
Morto há um ano, o meu pai é um jovem cadáver que vejo crescer dentro de mim.

Mas eu também morro antes do meu tal dia, pois se vir partir alguém por mim amado... lá se vai um pouco de mim.

Morremos sim, mas aos poucos.



Sunday, June 11, 2006

Brito - Um Homem Só

Era um homem muito só.

Vivia no centro de uma cidade muito povoada... uma cidade moderna.

Absorvido pelo todo, pela sociedade, Brito nada mais fazia senão trabalhar, CONSUMIR e dormir... tinha pouco tempo, demasiado pouco tempo para fazer outras coisas...


Brito era em função do todo, da máquina... não pensava nem sentia nada,

não vivia... era um cidadão exemplar!

Aquando do cumprimento de umas férias, Brito reflectiu... pensou em si... sobre quem era... recordou-se da sua meninice, dos seus pais, de uma ou outra namorada que tivera... lembrou-se dos seus sonhos, daquelas possibilidades belíssimas que tivera para si...


Foi então que começou a perceber que não mais tinha sido ele mesmo... só o era quando dormia e tinha pesadelos pesados, que precisamente o recordavam do que já não era... quando estava acordado a sociedade tratava-o "tão bem" que não lhe deixava espaço para sonhar, ou melhor, o todo em que estava diluído alimentava-o com sonhos que não eram os seus...


Murmurou de si para si:

Sou realmente o que sou quando durmo e sonho, sonhando os meus próprios sonhos, aqueles a que a hierarquia me ensinou a apelidar de pesadelos e a ter medo deles, mas quando sonho sou eu... no acordar sinto o medo que me ensinaram, por isso é que o que sou, o Brito, fica sempre na cama e é lá que está aquele que sou. Acordado sou tudo menos eu mesmo, eu próprio. Acordado existo mas não vivo... acordado... eu nem sequer acordo já... quem acorda é o nº 745664151 e é este quem calça os chinelos que estupidamente chamo "meus"... o Brito... o Brito nunca mais acordou

745664151 trabalhou ainda muitos anos vindo a sucumbir com 81 anos de idade e o seu corpo "descansa em paz" num cemitério da sua "mãe" cidade, o epitáfio reza assim: "(...) eterna saudade de todos os seus amigos"

Brito morreu menino, criança ainda, foi brutalmente assassinado por uma almofada que o asfixiou... o seu corpo jaz em câmara ardente debaixo da almofada de cada um de nós, tendo sempre o mesmo epitáfio:

MORREU UM SONHO

Saturday, June 03, 2006

Um Casaco Especial


não me canso de contar esta história:

tinha cerca de 18 anos, lembro-me muito bem de ter trabalhado na Ilha da Berlenga e ter conhecido o faroleiro, era um homem afável, embora de mui poucas palavras, do qual fico com uma ideia de ser alguém que tinha tempo para tudo... e um interior do tamanho do mar...
recordo-me de num dia enquanto com ele dava uma volta de barco, em busca da pesca/apanha ilegal de percebes, eu ter reparado no seu casaco/impermeável e lhe ter dito que o achava "muito louco".

Era de um roxo que a sucessiva exposição à água salgada tinha criado um padrão fora do comum...

o meu amigo com toda a calma que o caracterizava despiu-o e entregou-mo dizendo um seco, sibilino e essencial:

- É TEU !

hoje sei que aquele gesto veio condicionar toda a minha vida...

ainda o tenho ali!


Monday, May 22, 2006

Ensaio de Epistemologia Teológica



A Convicção no Novo Testamento

Convicções

(a) Ámen. Palavra hebraica que significa assim é ou assim seja. Também pode traduzir-se por certamente, verdadeiramente ou com certeza. No Apocalipse é usada como título de Cristo.

(b) A fé é a certeza de se possuírem as coisas que se esperam e a garantia das coisas que se não vêem.
(Hb. 11. 1)

(c) Foi a respeito dele [reino dos céus] que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e abram-lhe estradas direitas.
(Mt. 3. 3)

(d) És tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro? [João Baptista acerca de Jesus]
(Mt. 11. 3)

(e) Não pensem que eu vim para acabar com a lei de Moisés ou com o ensino dos profetas. Não foi para isso que eu vim, mas para lhes dar cumprimento.
(Mt. 5. 17)

(f) Mas Jesus respondeu-lhes: Ao pôr do sol vocês dizem: Vamos ter bom tempo, porque o céu está avermelhado! E de manhã cedo dizem: Hoje vamos ter mau tempo, porque o céu está carregado. Sabem prever o tempo pelo aspecto do céu e não são capazes de perceber os sinais de Deus nos tempos de hoje! Esta gente de má e infiel anda à procura dum sinal, mas o único sinal que lhes será dado é o do profeta Jonas.
(Mt. 16. 2 - 4)

(g) A seguir disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e mete-a no meu peito. Não sejas descrente! Acredita!. E Tomé respondeu: Meu Senhor e meu Deus! Jesus disse-lhe: Acreditas agora porque me viste? Felizes os que acreditarem sem terem visto.
(Jo. 20. 27 – 29)

(h) Os discípulos foram então pregar a Boa Nova por toda a parte. E o Senhor confirmava a pregação por meio de milagres.
(Mc.16. 20)

(i) Então Paulo pôs-se de pé diante da Assembleia do Areópago e disse: Atenienses, vejo que vocês são em tudo muito religiosos. Com efeito quando dei uma volta pela cidade e vi os vossos monumentos religiosos, reparei num altar que tinhas estas palavras escritas: Ao Deus desconhecido. Pois bem, esse Deus que vocês adoram sem o conhecer, é o Deus de que eu vos falo.
(At. 17. 22 – 23)

(j) Deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois, volta e apresenta a tua oferta a Deus
(Mt. 5. 24)

(k) Portanto é pelas suas acções que hão-de conhecer os falsos profetas
(Mt. 7. 20)

(l) Portanto, meus irmãos, já estão avisados. Tenham cuidado! Não se deixem cair da posição firme em que se encontram, levados pelos enganos dessas pessoas más.
(II Pd. 3. 17)

(m) Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrador de impostos. Chamava-se Mateus. Jesus disse-lhe: Vem comigo. Ele levantou-se e foi.
(Mt. 9. 9)

(n) Deste modo, em Caná da Galileia, Jesus realizou o seu primeiro milagre. Assim mostrou o seu poder divino e os discípulos acreditaram nele.
(Jo. 2. 11)

(o) Pedro então disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima da água. Jesus respondeu: Vem. Então Pedro desceu do barco e começou a caminhar por cima da água em direcção a Jesus. Mas, quando viu que o vento era muito forte, teve medo, começou a afundar-se e gritou: Salva-me, Senhor! Jesus estendeu logo a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, porque duvidas-te?
(Mt. 14. 28 - 31)

(p) Mas devem pedir com fé, sem duvidar. Aquele que duvida é como as ondas do mar, levadas pelo vento. Nem pense que há-de conseguir alguma coisa do Senhor, pois é um indeciso e pouco seguro em tudo o que faz.
(Tg. 1. 6 – 8)

(q) Jesus, porém, disse: Deixem as crianças vir ter comigo! Não as estorvem, porque o Reino de Deus é dos que são como elas.
(Mt. 19. 14)

(r) Depois de as tirar a todas do curral, vai à frente, e elas seguem-no porque conhecem a sua voz.
(Jo. 10. 4)

(s) Um dos criminosos crucificados insultava-o assim: Então não és o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós!. Mas o outro repreendia-o com estas palavras: Não tens temos a Deus, tu que estás a sofrer a mesma condenação? Nós estamos aqui a cumprir o justo castigo pelos actos que temos praticado, mas este não fez nada de mal. E disse: Jesus, lembra-te de mim quando chegares ao teu reino. Jesus respondeu-lhe: Podes ter a certeza que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.
(Lc. 23. 39 - 43)

(t) Pois nós fomos anunciar-lhes a Boa Nova não só com palavras, mas com a força do Espírito Santo e com profunda convicção.
(I Ts. 1. 5)


Implicações

I. Jesus cumpre a fé. (ultrapassando-a) Há uma pré-disposição do homem para Deus.

II. Jesus ao fazer milagres dá uma nova dimensão à fé. (preenche-o)

III. A obra é norma (decorre) da fé.

IV. Conhece-se a fé (convicção), não pelo tom de voz , mas pelas obras.

V. Nesta fé não deverá haver lugar a dúvidas. (não há meias-convicções)

VI. A ingenuidade (superação da racionalidade) da fé (afim de constituir a própria razão).

VII. A nova fé (convicção) não é a fé (no sentido de obra do Espírito Santo) é profundamente pessoal. Há um homem – Jesus – que se dirige a outro homem – eu. Já não um Deus de um povo. A minha adesão é pessoal.

VIII. Hab. 2. 4: O justo vive da fé (hebraico) / fidelidade (grego) / Convicção (epistémico)



Implicações últimas

A. Esta recomeçada fé é evidência. Dá-se tanto à inteligência como à vontade, que se dá ao homem todo e que a todo transforma, move, converte... porque convence)

B. Deus revela-se. A posição do sujeito é mais do que acreditar, é seguir.

C. Só pela convicção se avança, só ela faz avançar.

D. Em teoria teológica, primeiro a fé, a razão depois. Na prática, ambas se cruzam no (todo do) homem, pois há que caminhar / viver como ser íntegro.

E. Há sempre um conjunto de indícios que me fazem adivinhar uma coerência de um modelo. A convicção é essa implicação. Leva o homem a aderir pessoal e absolutamente (até ao seu mais íntimo), e a agir em função desse seu novo fundamento – desse seu novo modo de ser.

F. Ultrapassagem da divisão da razão em teórica e prática.

G. É pelas implicações que se julgam as definições.

H. Convicção pessoal como o pressuposto. Fundamento da acção, fundo dos julgamentos (da opinião ao rigor matemático)... Condição de racionalidade. Fundação do pensamento e, por isso, de toda a acção. A própria dúvida radica numa convicção.

I. Funda-mental (?)

J. Há uma adesão tal do sujeito à proposição, que a toma (se voluntariamente) como fundamento de si.

K. Há uma adequação do ser do homem à verdade.

L. Tudo no que sou decorre daquilo em que estou convicto. As convicções constituem-me. É em função das minhas convicções que se dá o meu ser / agir.

M. No fundo do ser do homem está a convicção.

N. A confiança que sinto em alguém. E em Jesus... é convicção.

Porque Jesus é, verdadeiramente Rei, principalmente dos humildes, a Boa Nova não é um tratado de lógica, ontologia, ou simplesmente, de filosofia. Ela é O fundamental.

Friday, March 03, 2006

Série 24

surgiu-me um tempo livre suficiente para ver a série 24 em dvd ... e vi uma série (a primeira) em menos de três dias!

são 24 episódios cada um deles correspondendo a uma hora de acção de um determinado dia, ou seja, a série retrata em tempo real a acção decorrida em 24 horas. é algo para ser visto em dvd durante mais ou menos 16 horas dado que cada episódio tem cerca de 40 minutos...

aquilo que mais me fascinou nesta aventura foi a quantidade de tempo que aproveitamos com qualidade... podemos (posso!!!) fazer muito mais coisas do que o costume se aproveitarmos bem o tempo. Aprendi.

este texto também serve para lançar aos ventos o meu pedido:

quem me poderá ajudar a ter as 2ª e a 4ª épocas (seasons) desta série??

Friday, February 24, 2006

Catarina Vela


I
Um dos lugares da vida social, nas Azenhas do Mar, era a pastelaria Ouress. Um dia entrou uma jovem desconhecida. Só pela sua aparição, pareceu-me que a cor do dia, e até a qualidade do ar, se transformava. Alta, esguia, reflexos dourados no cabelo e nos olhos, a tez rosada, os lábios tão cintilantes como a polpa de um fruto, aquela rapariga irradiava saúde, vida e alegria.

Eu nunca tinha visto nada igual. Uma fada.

Desde então, só tinha uma ideia fixa: voltar a vê-la. Durante vários dias fui instalar-me na pastelaria. Não saía de lá. Hospedei-me lá. Passava os meus dias à espera dela. De olhar fixo na porta, comia bolos lentamente, cada vez mais lentamente, para os fazer durar, a cada um, o máximo de tempo possível. Um palmier. Um pastel. Um palmier. Outro pastel. Uma tarte. Outra tarte diferente. Mais um palmier. Sentia náuseas. Quase indigestão. Mas por nada deste mundo sairia da pastelaria. Ai de mim! Ela não voltou. Uma vez, de longe, avistei-a na rua. E mais nada. Tinha-se ido embora. Não sabia quem ela era nem onde vivia. Tudo o que sabia dela era o seu nome: Catarina Vela.

II
Com a chegada iminente do verão, já não eram só as férias que se anunciavam. Era sobretudo a perspectiva de em breve voltar a ver Catarina Vela .

E, com efeito, poucos dias depois de ter chegado a férias, avistei a longa e delgada silhueta que esperava. Mais bela ainda que na minha recordação, mais sorridente, mais luminosa, Catarina Vela trazia uma blusa branca, uma longa saia plissada que se evadia em corola a cada passo que dava e um chapéu de donzela do século XIX.

O meu segredo não queria divulgá-lo nem expô-lo aos sorrisos nem à ironia. Preferia vaguear perto do palácio da minha Bela Adormecida. Esperava a passagem de Catarina Vela. Mas, quando a encontrava, não sabia que fazer, nem que dizer...
No último dia, aceitou um passeio a sós comigo. Mal acordei, nessa manhã, corri a abrir as persianas para ver se estava bom tempo. Sim, estava bom tempo. Sim, seria um dia quente, com céu azul, sol e canto de pássaros. Uma hora antes do encontro marcado já eu rodopiava à volta da casa de Catarina Vela. Quando ela apareceu, cintilante no seu vestido de seda azul, nem por um instante duvidei de que ia sair com a mais bela rapariga que o mundo podia oferecer. Tínhamos decidido ir merendar a uma quinta, partindo da praia e indo pela beira-mar para voltarmos pela estrada de Sintra.

Maravilhoso passeio ao fim do mundo, no ar do largo, com o odor do oceano. Tínhamos tantas coisas para dizer um ao outro! Dos nossos estudos, das nossas leituras. Do cinema. Das pessoas das Azenhas do Mar. De pessoas famosas e dos amigos comuns.

III
Várias vezes, ao longo da subida, para transpor um qualquer muro ou vedação, ofereci a mão a Catarina Vela para a ajudar. De todas as vezes, recusou. Era reserva? Medo? Desprezo? A primeira recusa surpreendeu-me. A terceira irritou-me. Quis pegar-lhe no braço. Soltou-se. De repente decidi que precisava de a beijar antes do fim do passeio.

Imediatamente a seguir começou a anoitecer. Tinha a noção de um dever a cumprir. A ideia de um combate a travar, a possibilidade de não atingir o objectivo, o sentimento de incapacidade caso falhasse, tudo isso me tirou imediatamente todo o prazer. A euforia apagou-se perante a inquietação.

A partir de então, só tive uma ideia: encontrar o melhor meio, o melhor momento para beijar Catarina Vela .

Mas esse beijo tinha perdido todo o sabor. Longe de me alegrar à ideia de felicidade que sentiriam os meus lábios aos tocar os dela, a ideia da luta a travar tornou-se um suplício. Já não olhava Catarina Vela como um objecto de doçura e calor, mas como um motivo de guerra, um objectivo a atingir a qualquer preço. Ela cantarolava enquanto caminhava, colhia aqui uma rosa, ali um brinco-de-princesa, esboçava um passo de dança. Mas aquele entusiasmo e aquela alegria de viver, que um momento antes me enchiam de felicidade, agora não faziam mais que aumentar o meu nervosismo. Já só pensava na obrigação de a beijar. No próximo plátano, aí vou eu. Não. Espero por aquele arbusto, lá em baixo. E a quinta chegou sem eu ter tentado nada. Numa sombra mais generosa, partilhou a merenda – água fresca e travesseiros da Periquita. Catarina Vela saboreou-os com um apetite soberbo. Eu? eu não fui capaz de engolir nada. E tivemos de partir de novo. E com as perguntas de Catarina Vela, que procurava compreender porque tinha eu perdido a minha jovialidade, cresceu em mim a angústia. Seguimos a estrada que entrava por um bosque de ciprestes que já se avistava ao longe. Decidi passar à acção ao atingir esse bosque. Mas, secretamente, esperava que um incidente enorme, uma queda de avião, a irrupção de um touro furioso ou outra coisa qualquer, tornassem vão o meu projecto.

E, à medida que nos aproximávamos do bosque, Catarina Vela parecia cada vez mais intimidante, inacessível. E nenhum engenho aéreo veio em meu socorro. Nenhum animal selvagem se mostrou. Só uma vaca num campo nos contemplava com simpatia. Tinha chegado a um tal ponto de ansiedade que já nem sequer conseguia olhar Catarina Vela.

IV
De repente, agarrei-lhe a mão e tentei atraí-la a mim. Ela retirou a mão. Talvez que perante essa pequena fuga fosse preciso obrigá-la.

Mas foi num tom quase suplicante que, agarrando-a suavemente pelos ombros, lhe disse: "Deixe-me beijá-la." Como se agarrada pelo diabo, ela repeliu-me e afastou-se a passos largos. Segui-a em silêncio. Regressámos às Azenhas do Mar. Ela partiu no dia seguinte.

Porque me rejeitou assim Catarina Vela?

Porque razão recusou com tanta violência uma carícia tão inocente?

Talvez eu tivesse querido ir depressa demais. Talvez ela não pretendesse, antes da partida, conceder-me o que, no seu espírito, eu poderia tomar por um acordo, uma promessa.

Talvez eu me tivesse simplesmente iludido ao julgar que lhe agradava.

Durante vários dias fechei-me em casa.

Eu.

Thursday, February 09, 2006

Pescador


Era um pescador solitário.

Um dia quando o anoitecer caiu e a luz do dia se desvaneceu, a sombra segui-o, - uma sombra de um outro mundo. E estava no mar e já devia ter voltado... estava perdido, perdido no mar e na penumbra, na escuridão do oceano, nos oceanos da noite...

Sentia-se perto, sabia o caminho... sentia-se em casa sentindo-se muito longe dela.

Pedro, pescador, naquele dia, no mar morreu.

Sunday, February 05, 2006

Valéria

Trata-se de uma história verdadeira passada a bordo de um avião da TAP.

Depois do embarque e estando já o avião a circular a fim de proceder à descolagem, uma brasileira, sentada numa fila ligeiramente à frente das asas, chamou uma assistente de bordo para lhe pedir explicação acerca daquele estranho ruído oriundo de algures debaixo da sua cadeira. A assistente, compreendendo do que se tratava logo explicou:


- Por debaixo das asas há o trem de aterragem e é esse barulho que a senhora está a escutar! Trata-se do trem a rolar na pista! é o que está a fazer este barulho... o trem de aterragem... como lhe chamam no Brasil?
- Valéria! Lá no Brasil me chamam de Valéria.


Talvez algum dia possam compreender por que razão há hoje um pouco por todo o mundo pilotos que muito solenemente confirmam:
- Valeria’s handle - Pull Up.
- Valeria up & off.

Thursday, January 26, 2006

Miguel Vivas - O meu melhor amigo.

11 de Julho de 1993 - concerto dos Depeche Mode em Alvalade. Fomos! afinal tinhamo-lo ansiado há já vários anos. Era o nosso grupo de eleição, lembro que escutávamos músicas vezes sem conta até ser capaz de decorar as letras, e a forma quase religiosa como víamos os videos num qualquer canal televisivo, e sem internet, coleccionávamos montanhas de pequenos factos...

o concerto é inolvidável, sê-lo-ia da mesma forma ainda que o Miguel não tivesse morrido num dia 9 de Dezembro de um dos anos seguintes, o conjunto de pequenos "clips" do concerto que retenho na memória são uma experiência conjunta de ter estado no centro do mundo ao som de depeche mode.

depois, sempre que sairam álbuns ou dvd's comprei-os com a sensação que a minha admiração pelos Depeche era, para além de uma estima pessoal, uma forma de expressar a minha admiração e saudade do meu amigo. ouvi-os vezes sem conta até, literalmente, me fartar... e depois bastava um qualquer pretexto para os ouvir novamente, agora calama e mais serenamente!

para o próximo dia 8 de fevereiro reservo um respeito bonito por ter encontro marcado com o Miguel. No pavilhão atlântico não estarei só, estou tão certo de que ele vai estar comigo que julgo que terei uma noite de suave e delicioso passar do tempo donde se pode saborear cada momento.

Desde a morte do Miguel, muitas foram as vezes em que um turbilhão de pensamentos me foi interrompido porque o rádio soltava uma música dos Depeche detendo-me numa ideia que a partir desse momento era assumida como a correcta. lembro de estar à espera de um teste de gravidez e de o "enjoy the silence" (recordam a letra?) ecoar a partir das colunas do carro e de como a desnecessidade de ir buscar o resultado se deixou surpreender por uma ideia bem mais pragmática: agora veremos se é ou não é tudo uma efabulação da tua cabeça!... e claro que fui buscar o resultado e claro que havia bebé...

Ao miguel devo grande parte do meu sucesso profissional, pois sempre me fez pensar bem claro e determinado a respeito dos estudos - Tens que ir longe, onde os outros não sabem ir... - e depois da sua morte acabei por andar uns bons anos em torno da questão da morte, donde ainda não se vislumbrava que haveria ainda de me tornar num expert, em alguém que os outros até ouvem e de quem recolhem exemplo, como se estivesse mais perto da verdade... em qualquer sítio onde os outros não sabem ou não querem ir...

enquanto escrevo estas linhas sinto-me estranha e vertiginosamente o José Luís que sou, uma espécie de banho de autenticidade me inunda, revelando-me um Eu que afinal sempre sou, até cheguei a ter vontade de dizer olá a mim mesmo!

não sei, sinceramente, onde está o miguel sem ser no meu coração, mas certo é que, aqui, está de certeza...

no dia em que soube da notícia da sua morte tinha trazido uma prenda para lhe dar para fazer umas pazes depois de um afastamento qualquer... dois dias antes tinha-lhe emprestado um CD raríssimo que depressa o miguel passou a cassete para poder ouvir no carro e que na altura da tragédia estava a tocar... "enjoy the silence"...

muitas coisas, belas e não, desde então passei de forma um pouco mais solitária.
Paciência, pois se a vida é assim também estou seguro que não é só assim.

tenho, claro mais amigos e mais músicas e grupos que me deleitam... mas no dia em que o meu velório se realizar lá se escutarão duas canções: "enjoy the silence" - D.M. e o "sailing" - Rod Stewart.

um abc forte a cada um dos meu amigos e
um bj terno a cada uma mas minhas amigas.

permitam-me um tributo ao meu amigo Miguel em forma de desafio:
E tu? que música gostarias que acompanhasse o velório ao teu corpo?

Monday, January 16, 2006

Concept_U

Ortega y Gasset dizia que a excelência não é fazer coisas extraordinárias, mas tão-só: fazer coisas simples extraordinariamente bem.

Não é publicidade... com este post viso apenas recomendar a todos aquilo de que tive, com excelentes resultados, experiência.

Não é em Londres nem noutro sítio qualquer do mundo, é em Portugal; + propriamente em Azenhas do Mar!

Os dois – agora – meus amigos que estão por detrás desta empresa fazem deste trabalho algo que merece a vossa atenção, dado que para mim é óbvio que todos os meus amigos deviam ser tratados como eu o fui (e sou!) pela Concept_U.

Explicações ?
Os mails com que nos respondem são tudo menos standard, personalizadíssimos como se fossemos os seus únicos clientes...

A simpatia e humildade chegam a chocar as mentes mais habituadas aos tratamentos mais hipermercáticos...

O seu trabalho é honesto e de qualidade indubitável.

A reacção das pessoas que recebem uma prenda destas é de admiração (ad-mirar: ficar parado a olhar para). até mesmo os indignos e esquecidos do bom-gosto nem sabem o que dizer perante a novidade que se lhes apresenta.

Ora Aristóteles (que não teve oportunidade de conhecer a Concept_U) escreveu:
Somos o que repetidamente fazemos, a excelência é então, não um acto mas um hábito.

ORIGINAL e EXCELENTE.

Visitem o site: http://www.conceptu.azenhasdomar.net/ e depois digam-me qualquer coisa.

Trabalhos também em exposição na minha humilde casinha!!