Friday, July 28, 2006

Guilherme

Guilherme tinha acabado os seus estudos. Nunca teve uma namorada a sério... Nunca tinha sentido necessidade de alguém junto de si... o sexo oposto nunca o tinha atraído... tinha tido umas aventuras, mas o seu coração sempre foi seu... nunca o ofereceu a ninguém... só por palavras, mentiras...

Vivia sozinho numa casa onde nada faltava... a não ser um outro... e Guilherme começou a sentir a falta desse outro quando um dia a luz faltou... TV, Hi-Fi e tudo o resto silenciou-se... O silêncio teve então hipótese de ficar a sós com Guilherme... sentiu uma falta muito grande, a falta de algo... alguém!

Um dia resolveu acabar com o silêncio e procurar uma mulher para casar... viu muitas... falou com algumas... não gostou de nenhuma.

Quando chegou a casa pensou que tinha de ter calma, manter-se sereno... pois uma escolha apressada poderia estragar tudo.

Meses após meses Guilherme procurou com muita paz a mulher com quem casar, com quem dividir o que tinha... um alguém que lhe enchesse o que agora sentia tão vazio... mas era muito difícil... Ou eram comprometidas ou então não queriam nada com ele...

Manteve-se calmo... Trabalhava, dormia e procurava a mulher da sua vida... durante anos...

Cada vez mais o silêncio de sua casa lhe metia medo... então, uma noite, antes de adormecer, começou a pensar que afinal de contas ele até estava a viver uma vida boa... apesar de alguma frustração que lhe advinha do facto de não encontrar quem procurava... a sua vida até era, na sua globalidade, uma vida boa... não tinha atritos com ninguém, trabalhava honestamente e era recompensado de acordo com isto... muita gente o admirava e tinha até já servido de exemplo a muitos que se apressavam a procurar outro alguém... Guilherme costumava dizer: " Eu também procuro um outro alguém... mas com a paz de quem quer escolher bem... com a paz de quem vai acertar... com a paz de quem, mais cedo ou mais tarde, vai ser muito feliz porque encontrou o seu outro... e o ama."

Guilherme naquela noite viu que tudo em si até nem estava tão mau como às vezes sentia... por vezes sentia-se mergulhado num poço onde gritava e nem eco havia... porque o seu grito era de silêncio...

Por fim adormeceu...

Foi acordado na manhã seguinte por um cheiro a flores... uma senhora muito bela estava perto da sua cabeceira com um enorme arranjo de flores... ficou espantado... e teve que perguntar como é que ela tinha conseguido entrar...

Ela não lhe respondeu a essa pergunta, mas respondeu à outra que ele ainda não tinha feito:

"- Sou uma mulher que esperava alguém a quem dar o amor que tenho e guardo... sempre tive medo de procurar por medo de não acertar... por isso, simplesmente esperava... até que o vi. Os seus olhos mostraram-me uma paz que não tive dúvidas em ver em si aquele que eu esperava... passou algum tempo e cansei-me de esperar, resolvi procurá-lo e aqui estou... chamo-me Beatriz, tenho 32 anos, sou solteira e amo-o sem o conhecer... ..."

Guilherme nem acreditava... com a boca completamente aberta olhava Beatriz.. nem sabia o que pensar ou sentir... um sonho?! Não... Ela era loira e trazia o cabelo apanhado atrás, muito bem esticado... parecia ter 25 anos... era muito bela...mas... mas... se calhar era um sonho... ele não estava a compreender absolutamente nada... Por fim perguntou:

"- Beatriz... como consegue amar-me sem nada saber de mim, a não ser a forma como eu a olho e... pelos vistos a minha morada... pela minha boca nada sabe... nem sabe o que penso ou sinto por si!?"

Ela respondeu-lhe com serenidade dizendo:

"- Guilherme... desculpe-me mas vou-me embora, não porque esteja desiludida, mas porque me estou a sentir motivo de confusão... quando quis ser motivo de uma alegria de fusão... Desculpe-me... voltarei um outro dia..."

Guilherme agarrou-lhe na mão e disse:

"- Beatriz... não vá... amo-a... é você!!!"

Alguns dias depois já viviam juntos, como casados... só que não se beijavam nem trocavam palavras. Depois casaram e continuaram como estavam: sem beijos nem palavras, só o amor... só a sua forma bonita de amar...

Muitos anos mais tarde Beatriz não apareceu à hora do costume... Guilherme ficou muito preocupado, entretanto, tocou o telefone e uma voz lacónica perguntou se era o esposo de Beatriz, depois de responder afirmativamente, Guilherme ouviu a voz dizer-lhe que Beatriz tinha sofrido um desastre mortal, ele manteve-se calmo e desligou depois de saber o hospital, ou melhor, a morgue em que ela se encontrava e dirigiu-se para lá... Identificou-se e passados alguns momentos viu o cadáver de Beatriz... Chorou três lágrimas e depois foi para casa...

No enterro estava sozinho... Levou as pétalas das flores com que outrora Beatriz o tinha acordado e que tinha guardado todos aqueles anos... deitou-as por cima do caixão e foi para casa...

Guilherme veio a morrer num hospital da sua cidade... Morreu de velhice... Morreu porque o seu corpo não aguentava viver mais... o seu coração, a sua alma, esse era como sempre foi: Grande e Calmo.

Morreu... e foi sentar-se à cabeceira de uma cama onde Beatriz esperava calmamente por ele... o que ela não esperava era o beijo com que Guilherme a acordou..


Tuesday, July 18, 2006

Wilson





Era uma vez um menino de 12 anos que vivia com a sua família no interior.

Wilson guardava ovelhas. Era magro, cabelo curto e andava sempre a lutar contra o frio com agasalhos cheios de rasgões.

Sua família propusera-lhe um dia que ele fosse estudar, e isso porque se pensou que ele talvez viesse a precisar de ir à escola. Mas Wilson não aceitou, eles precisavam dele e ele precisava de alguém que precisasse dele. René orgulhava-se por ter uma família que precisava dele e que, ainda assim, lhe tinha dado a possibilidade de estudar.

Havia na aldeia uma menina muito bela que o Wilson via sempre que ela vinha da escola.

Passava o dia a pensar nela e em casar-se com ela. Ele precisava dela para ser feliz, mas havia que esperar, é que agora ele estava a cumprir o amor à família.

Deixando temporariamente da lado a escola e o amor exclusivo da rapariga muito bela, Wilson vivia sozinho por entre céu e terra fértil, no meio de vales fundos e montanhas altas.

Um dia a vida de Wilson foi-se embora, fugiu-lhe quando caiu no fundo de uma ravina...

Lá em baixo, um cadáver. Em cima, olhando para baixo, as ovelhas.

Lá na aldeia, uma rapariga muito bela. Em cima, olhando para baixo, um rapaz magro e de cabelo curto.

Wednesday, July 05, 2006

aos meus amigos


existe hoje em mim um sentimento:

o do receio quanto ao futuro,

não o meu,

mas o vosso,

pessoas de quem gosto,

desculpem-me mas hoje receio por vós e sofro.

já me surgiu a ideia de estar a querer que sofram comigo,


mas afasto-a... no extremo preocupa-me tanto o meu como o vosso.


hoje sinto a vertigem dum futuro vazio,


potencialmente repleto de coisas más...


em dias como este, não consigo ser optimista,


porque o mundo me aparece cinza escuro


sem luz no fundo...


embora a metáfora contrária também faça imenso sentido:


se agora há luz, já vislumbro um lugar negro


para onde todos, inevitavelmente, peregrinamos...


chego até a sentir que se um de nós se "safar",


já é uma vitória do colectivo,


e senti-la-ei como se da minha se tratasse.


Desafio-vos pois a todos a irmos juntos,


ou talvez esteja simplesmente a rogar-vos


para que não se esqueçam de vós,


Enfim, que me dêem a felicidade de vos ver felizes.

Monday, June 26, 2006

Esboço de uma teoria sobre o Amor e a Morte



Amar é: Ser generoso, Servir, Trabalhar sem procurar descanso, Lutar sem cuidar das feridas, Gastar-se, enfim, Dar-SE


Partindo do pressuposto que o amor é dar-Se (tendo como sentido/sentimento o oposto ao egoísmo) pode considerar-se que a morte apenas põe termo à existência corporal-visível, mas não com a presença efectiva neste mundo.

Se A ama B, então B acaba por tomar A em si, passando a ser uma fusão do que era com a substância do amor de A - um BA - e quando este último amar, dar-Se-á como BA, pelo que, ao amar um C estará a perpetuar a existência de A em C, teremos pois um CBA.

Só morrem aqueles que amamos. Afinal, não tem para nós significado a morte do anónimo. Os que amamos sim, esses morrem, pese embora ser a estes que é mais difícil de atribuir a categoria de mortais. Por outro lado, são os que nos amaram que nunca desaparecem, vivem em nós, connosco... enfim, somo-los. Só há perda quando houve laço, e este, apesar de muito nomes - Admiração; Alegria; Amizade; Atenção; Bondade; Caridade; Compreensão; Empatia; Interesse; Fraternidade; Respeito; Solidariedade; Tolerância; Voluntariado, etc. ...é sempre Amor.

É errado pensar que aquele que nos amou morreu, pois é precisamente no momento da sua "perda" que tal pessoa nos aparece, no fundo de nós, como uma absoluta presença.

Cada um de nós traz no fundo de si um pequeno cemitério daqueles que amou, mas também somos todos aqueles que nos amaram, senão repare-se quantos são aqueles que vêem desvanecer os defeitos dos seus entes queridos que faleceram, ao mesmo tempo que florescem, quase como se as sementes lá jazessem há muito, as suas virtudes brilham no jardim da sua recordação.

Diz Guidicelli:
Morto há um ano, o meu pai é um jovem cadáver que vejo crescer dentro de mim.

Mas eu também morro antes do meu tal dia, pois se vir partir alguém por mim amado... lá se vai um pouco de mim.

Morremos sim, mas aos poucos.



Sunday, June 11, 2006

Brito - Um Homem Só

Era um homem muito só.

Vivia no centro de uma cidade muito povoada... uma cidade moderna.

Absorvido pelo todo, pela sociedade, Brito nada mais fazia senão trabalhar, CONSUMIR e dormir... tinha pouco tempo, demasiado pouco tempo para fazer outras coisas...


Brito era em função do todo, da máquina... não pensava nem sentia nada,

não vivia... era um cidadão exemplar!

Aquando do cumprimento de umas férias, Brito reflectiu... pensou em si... sobre quem era... recordou-se da sua meninice, dos seus pais, de uma ou outra namorada que tivera... lembrou-se dos seus sonhos, daquelas possibilidades belíssimas que tivera para si...


Foi então que começou a perceber que não mais tinha sido ele mesmo... só o era quando dormia e tinha pesadelos pesados, que precisamente o recordavam do que já não era... quando estava acordado a sociedade tratava-o "tão bem" que não lhe deixava espaço para sonhar, ou melhor, o todo em que estava diluído alimentava-o com sonhos que não eram os seus...


Murmurou de si para si:

Sou realmente o que sou quando durmo e sonho, sonhando os meus próprios sonhos, aqueles a que a hierarquia me ensinou a apelidar de pesadelos e a ter medo deles, mas quando sonho sou eu... no acordar sinto o medo que me ensinaram, por isso é que o que sou, o Brito, fica sempre na cama e é lá que está aquele que sou. Acordado sou tudo menos eu mesmo, eu próprio. Acordado existo mas não vivo... acordado... eu nem sequer acordo já... quem acorda é o nº 745664151 e é este quem calça os chinelos que estupidamente chamo "meus"... o Brito... o Brito nunca mais acordou

745664151 trabalhou ainda muitos anos vindo a sucumbir com 81 anos de idade e o seu corpo "descansa em paz" num cemitério da sua "mãe" cidade, o epitáfio reza assim: "(...) eterna saudade de todos os seus amigos"

Brito morreu menino, criança ainda, foi brutalmente assassinado por uma almofada que o asfixiou... o seu corpo jaz em câmara ardente debaixo da almofada de cada um de nós, tendo sempre o mesmo epitáfio:

MORREU UM SONHO

Saturday, June 03, 2006

Um Casaco Especial


não me canso de contar esta história:

tinha cerca de 18 anos, lembro-me muito bem de ter trabalhado na Ilha da Berlenga e ter conhecido o faroleiro, era um homem afável, embora de mui poucas palavras, do qual fico com uma ideia de ser alguém que tinha tempo para tudo... e um interior do tamanho do mar...
recordo-me de num dia enquanto com ele dava uma volta de barco, em busca da pesca/apanha ilegal de percebes, eu ter reparado no seu casaco/impermeável e lhe ter dito que o achava "muito louco".

Era de um roxo que a sucessiva exposição à água salgada tinha criado um padrão fora do comum...

o meu amigo com toda a calma que o caracterizava despiu-o e entregou-mo dizendo um seco, sibilino e essencial:

- É TEU !

hoje sei que aquele gesto veio condicionar toda a minha vida...

ainda o tenho ali!


Monday, May 22, 2006

Ensaio de Epistemologia Teológica



A Convicção no Novo Testamento

Convicções

(a) Ámen. Palavra hebraica que significa assim é ou assim seja. Também pode traduzir-se por certamente, verdadeiramente ou com certeza. No Apocalipse é usada como título de Cristo.

(b) A fé é a certeza de se possuírem as coisas que se esperam e a garantia das coisas que se não vêem.
(Hb. 11. 1)

(c) Foi a respeito dele [reino dos céus] que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e abram-lhe estradas direitas.
(Mt. 3. 3)

(d) És tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro? [João Baptista acerca de Jesus]
(Mt. 11. 3)

(e) Não pensem que eu vim para acabar com a lei de Moisés ou com o ensino dos profetas. Não foi para isso que eu vim, mas para lhes dar cumprimento.
(Mt. 5. 17)

(f) Mas Jesus respondeu-lhes: Ao pôr do sol vocês dizem: Vamos ter bom tempo, porque o céu está avermelhado! E de manhã cedo dizem: Hoje vamos ter mau tempo, porque o céu está carregado. Sabem prever o tempo pelo aspecto do céu e não são capazes de perceber os sinais de Deus nos tempos de hoje! Esta gente de má e infiel anda à procura dum sinal, mas o único sinal que lhes será dado é o do profeta Jonas.
(Mt. 16. 2 - 4)

(g) A seguir disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e mete-a no meu peito. Não sejas descrente! Acredita!. E Tomé respondeu: Meu Senhor e meu Deus! Jesus disse-lhe: Acreditas agora porque me viste? Felizes os que acreditarem sem terem visto.
(Jo. 20. 27 – 29)

(h) Os discípulos foram então pregar a Boa Nova por toda a parte. E o Senhor confirmava a pregação por meio de milagres.
(Mc.16. 20)

(i) Então Paulo pôs-se de pé diante da Assembleia do Areópago e disse: Atenienses, vejo que vocês são em tudo muito religiosos. Com efeito quando dei uma volta pela cidade e vi os vossos monumentos religiosos, reparei num altar que tinhas estas palavras escritas: Ao Deus desconhecido. Pois bem, esse Deus que vocês adoram sem o conhecer, é o Deus de que eu vos falo.
(At. 17. 22 – 23)

(j) Deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois, volta e apresenta a tua oferta a Deus
(Mt. 5. 24)

(k) Portanto é pelas suas acções que hão-de conhecer os falsos profetas
(Mt. 7. 20)

(l) Portanto, meus irmãos, já estão avisados. Tenham cuidado! Não se deixem cair da posição firme em que se encontram, levados pelos enganos dessas pessoas más.
(II Pd. 3. 17)

(m) Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrador de impostos. Chamava-se Mateus. Jesus disse-lhe: Vem comigo. Ele levantou-se e foi.
(Mt. 9. 9)

(n) Deste modo, em Caná da Galileia, Jesus realizou o seu primeiro milagre. Assim mostrou o seu poder divino e os discípulos acreditaram nele.
(Jo. 2. 11)

(o) Pedro então disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima da água. Jesus respondeu: Vem. Então Pedro desceu do barco e começou a caminhar por cima da água em direcção a Jesus. Mas, quando viu que o vento era muito forte, teve medo, começou a afundar-se e gritou: Salva-me, Senhor! Jesus estendeu logo a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, porque duvidas-te?
(Mt. 14. 28 - 31)

(p) Mas devem pedir com fé, sem duvidar. Aquele que duvida é como as ondas do mar, levadas pelo vento. Nem pense que há-de conseguir alguma coisa do Senhor, pois é um indeciso e pouco seguro em tudo o que faz.
(Tg. 1. 6 – 8)

(q) Jesus, porém, disse: Deixem as crianças vir ter comigo! Não as estorvem, porque o Reino de Deus é dos que são como elas.
(Mt. 19. 14)

(r) Depois de as tirar a todas do curral, vai à frente, e elas seguem-no porque conhecem a sua voz.
(Jo. 10. 4)

(s) Um dos criminosos crucificados insultava-o assim: Então não és o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós!. Mas o outro repreendia-o com estas palavras: Não tens temos a Deus, tu que estás a sofrer a mesma condenação? Nós estamos aqui a cumprir o justo castigo pelos actos que temos praticado, mas este não fez nada de mal. E disse: Jesus, lembra-te de mim quando chegares ao teu reino. Jesus respondeu-lhe: Podes ter a certeza que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.
(Lc. 23. 39 - 43)

(t) Pois nós fomos anunciar-lhes a Boa Nova não só com palavras, mas com a força do Espírito Santo e com profunda convicção.
(I Ts. 1. 5)


Implicações

I. Jesus cumpre a fé. (ultrapassando-a) Há uma pré-disposição do homem para Deus.

II. Jesus ao fazer milagres dá uma nova dimensão à fé. (preenche-o)

III. A obra é norma (decorre) da fé.

IV. Conhece-se a fé (convicção), não pelo tom de voz , mas pelas obras.

V. Nesta fé não deverá haver lugar a dúvidas. (não há meias-convicções)

VI. A ingenuidade (superação da racionalidade) da fé (afim de constituir a própria razão).

VII. A nova fé (convicção) não é a fé (no sentido de obra do Espírito Santo) é profundamente pessoal. Há um homem – Jesus – que se dirige a outro homem – eu. Já não um Deus de um povo. A minha adesão é pessoal.

VIII. Hab. 2. 4: O justo vive da fé (hebraico) / fidelidade (grego) / Convicção (epistémico)



Implicações últimas

A. Esta recomeçada fé é evidência. Dá-se tanto à inteligência como à vontade, que se dá ao homem todo e que a todo transforma, move, converte... porque convence)

B. Deus revela-se. A posição do sujeito é mais do que acreditar, é seguir.

C. Só pela convicção se avança, só ela faz avançar.

D. Em teoria teológica, primeiro a fé, a razão depois. Na prática, ambas se cruzam no (todo do) homem, pois há que caminhar / viver como ser íntegro.

E. Há sempre um conjunto de indícios que me fazem adivinhar uma coerência de um modelo. A convicção é essa implicação. Leva o homem a aderir pessoal e absolutamente (até ao seu mais íntimo), e a agir em função desse seu novo fundamento – desse seu novo modo de ser.

F. Ultrapassagem da divisão da razão em teórica e prática.

G. É pelas implicações que se julgam as definições.

H. Convicção pessoal como o pressuposto. Fundamento da acção, fundo dos julgamentos (da opinião ao rigor matemático)... Condição de racionalidade. Fundação do pensamento e, por isso, de toda a acção. A própria dúvida radica numa convicção.

I. Funda-mental (?)

J. Há uma adesão tal do sujeito à proposição, que a toma (se voluntariamente) como fundamento de si.

K. Há uma adequação do ser do homem à verdade.

L. Tudo no que sou decorre daquilo em que estou convicto. As convicções constituem-me. É em função das minhas convicções que se dá o meu ser / agir.

M. No fundo do ser do homem está a convicção.

N. A confiança que sinto em alguém. E em Jesus... é convicção.

Porque Jesus é, verdadeiramente Rei, principalmente dos humildes, a Boa Nova não é um tratado de lógica, ontologia, ou simplesmente, de filosofia. Ela é O fundamental.

Friday, March 03, 2006

Série 24

surgiu-me um tempo livre suficiente para ver a série 24 em dvd ... e vi uma série (a primeira) em menos de três dias!

são 24 episódios cada um deles correspondendo a uma hora de acção de um determinado dia, ou seja, a série retrata em tempo real a acção decorrida em 24 horas. é algo para ser visto em dvd durante mais ou menos 16 horas dado que cada episódio tem cerca de 40 minutos...

aquilo que mais me fascinou nesta aventura foi a quantidade de tempo que aproveitamos com qualidade... podemos (posso!!!) fazer muito mais coisas do que o costume se aproveitarmos bem o tempo. Aprendi.

este texto também serve para lançar aos ventos o meu pedido:

quem me poderá ajudar a ter as 2ª e a 4ª épocas (seasons) desta série??

Friday, February 24, 2006

Catarina Vela


I
Um dos lugares da vida social, nas Azenhas do Mar, era a pastelaria Ouress. Um dia entrou uma jovem desconhecida. Só pela sua aparição, pareceu-me que a cor do dia, e até a qualidade do ar, se transformava. Alta, esguia, reflexos dourados no cabelo e nos olhos, a tez rosada, os lábios tão cintilantes como a polpa de um fruto, aquela rapariga irradiava saúde, vida e alegria.

Eu nunca tinha visto nada igual. Uma fada.

Desde então, só tinha uma ideia fixa: voltar a vê-la. Durante vários dias fui instalar-me na pastelaria. Não saía de lá. Hospedei-me lá. Passava os meus dias à espera dela. De olhar fixo na porta, comia bolos lentamente, cada vez mais lentamente, para os fazer durar, a cada um, o máximo de tempo possível. Um palmier. Um pastel. Um palmier. Outro pastel. Uma tarte. Outra tarte diferente. Mais um palmier. Sentia náuseas. Quase indigestão. Mas por nada deste mundo sairia da pastelaria. Ai de mim! Ela não voltou. Uma vez, de longe, avistei-a na rua. E mais nada. Tinha-se ido embora. Não sabia quem ela era nem onde vivia. Tudo o que sabia dela era o seu nome: Catarina Vela.

II
Com a chegada iminente do verão, já não eram só as férias que se anunciavam. Era sobretudo a perspectiva de em breve voltar a ver Catarina Vela .

E, com efeito, poucos dias depois de ter chegado a férias, avistei a longa e delgada silhueta que esperava. Mais bela ainda que na minha recordação, mais sorridente, mais luminosa, Catarina Vela trazia uma blusa branca, uma longa saia plissada que se evadia em corola a cada passo que dava e um chapéu de donzela do século XIX.

O meu segredo não queria divulgá-lo nem expô-lo aos sorrisos nem à ironia. Preferia vaguear perto do palácio da minha Bela Adormecida. Esperava a passagem de Catarina Vela. Mas, quando a encontrava, não sabia que fazer, nem que dizer...
No último dia, aceitou um passeio a sós comigo. Mal acordei, nessa manhã, corri a abrir as persianas para ver se estava bom tempo. Sim, estava bom tempo. Sim, seria um dia quente, com céu azul, sol e canto de pássaros. Uma hora antes do encontro marcado já eu rodopiava à volta da casa de Catarina Vela. Quando ela apareceu, cintilante no seu vestido de seda azul, nem por um instante duvidei de que ia sair com a mais bela rapariga que o mundo podia oferecer. Tínhamos decidido ir merendar a uma quinta, partindo da praia e indo pela beira-mar para voltarmos pela estrada de Sintra.

Maravilhoso passeio ao fim do mundo, no ar do largo, com o odor do oceano. Tínhamos tantas coisas para dizer um ao outro! Dos nossos estudos, das nossas leituras. Do cinema. Das pessoas das Azenhas do Mar. De pessoas famosas e dos amigos comuns.

III
Várias vezes, ao longo da subida, para transpor um qualquer muro ou vedação, ofereci a mão a Catarina Vela para a ajudar. De todas as vezes, recusou. Era reserva? Medo? Desprezo? A primeira recusa surpreendeu-me. A terceira irritou-me. Quis pegar-lhe no braço. Soltou-se. De repente decidi que precisava de a beijar antes do fim do passeio.

Imediatamente a seguir começou a anoitecer. Tinha a noção de um dever a cumprir. A ideia de um combate a travar, a possibilidade de não atingir o objectivo, o sentimento de incapacidade caso falhasse, tudo isso me tirou imediatamente todo o prazer. A euforia apagou-se perante a inquietação.

A partir de então, só tive uma ideia: encontrar o melhor meio, o melhor momento para beijar Catarina Vela .

Mas esse beijo tinha perdido todo o sabor. Longe de me alegrar à ideia de felicidade que sentiriam os meus lábios aos tocar os dela, a ideia da luta a travar tornou-se um suplício. Já não olhava Catarina Vela como um objecto de doçura e calor, mas como um motivo de guerra, um objectivo a atingir a qualquer preço. Ela cantarolava enquanto caminhava, colhia aqui uma rosa, ali um brinco-de-princesa, esboçava um passo de dança. Mas aquele entusiasmo e aquela alegria de viver, que um momento antes me enchiam de felicidade, agora não faziam mais que aumentar o meu nervosismo. Já só pensava na obrigação de a beijar. No próximo plátano, aí vou eu. Não. Espero por aquele arbusto, lá em baixo. E a quinta chegou sem eu ter tentado nada. Numa sombra mais generosa, partilhou a merenda – água fresca e travesseiros da Periquita. Catarina Vela saboreou-os com um apetite soberbo. Eu? eu não fui capaz de engolir nada. E tivemos de partir de novo. E com as perguntas de Catarina Vela, que procurava compreender porque tinha eu perdido a minha jovialidade, cresceu em mim a angústia. Seguimos a estrada que entrava por um bosque de ciprestes que já se avistava ao longe. Decidi passar à acção ao atingir esse bosque. Mas, secretamente, esperava que um incidente enorme, uma queda de avião, a irrupção de um touro furioso ou outra coisa qualquer, tornassem vão o meu projecto.

E, à medida que nos aproximávamos do bosque, Catarina Vela parecia cada vez mais intimidante, inacessível. E nenhum engenho aéreo veio em meu socorro. Nenhum animal selvagem se mostrou. Só uma vaca num campo nos contemplava com simpatia. Tinha chegado a um tal ponto de ansiedade que já nem sequer conseguia olhar Catarina Vela.

IV
De repente, agarrei-lhe a mão e tentei atraí-la a mim. Ela retirou a mão. Talvez que perante essa pequena fuga fosse preciso obrigá-la.

Mas foi num tom quase suplicante que, agarrando-a suavemente pelos ombros, lhe disse: "Deixe-me beijá-la." Como se agarrada pelo diabo, ela repeliu-me e afastou-se a passos largos. Segui-a em silêncio. Regressámos às Azenhas do Mar. Ela partiu no dia seguinte.

Porque me rejeitou assim Catarina Vela?

Porque razão recusou com tanta violência uma carícia tão inocente?

Talvez eu tivesse querido ir depressa demais. Talvez ela não pretendesse, antes da partida, conceder-me o que, no seu espírito, eu poderia tomar por um acordo, uma promessa.

Talvez eu me tivesse simplesmente iludido ao julgar que lhe agradava.

Durante vários dias fechei-me em casa.

Eu.

Thursday, February 09, 2006

Pescador


Era um pescador solitário.

Um dia quando o anoitecer caiu e a luz do dia se desvaneceu, a sombra segui-o, - uma sombra de um outro mundo. E estava no mar e já devia ter voltado... estava perdido, perdido no mar e na penumbra, na escuridão do oceano, nos oceanos da noite...

Sentia-se perto, sabia o caminho... sentia-se em casa sentindo-se muito longe dela.

Pedro, pescador, naquele dia, no mar morreu.