Wednesday, August 16, 2006

Francisco



Francisco Laudi, o homem que fez chover.


Ele sonhou, acordou e decidiu-se.

Lançado por si mesmo para aquele empreendimento dispôs-se a tudo.

Com a luz do sol ou da vela trabalhava montando as peças que tinha percorrido longos caminhos para encontrar. Montava aquela enorme e confusa máquina... -sem um esboço de papel.

Tinha-a completado!

Colocou-a em cima de uma carroça que dois fortes cavalos puxaram até ao cimo do monte.

No cume verificou que o sol já estava a desaparecer e que era imperioso esperar pela manhã...- é que o sol era algo de fulcral.

Já noite e sem porquê trouxe os cavalos e a carroça para o vale de sua casa, depois despiu-se,... e nu... subiu o monte até junto da sua máquina.

Esperava pelo sol, com um sorriso nos lábios, quando lhe veio à ideia que a máquina não tinha qualquer interruptor... não tinha feito nenhum mecanismo que pudesse controlar a máquina e nem sequer se tinha lembrado de como ligá-la... desesperou!

Lembrou-se de que no seu sonho também não havia qualquer botão ou outra coisa qualquer... sorriu!

Com o sol veio a chuva e o Francisco Laudi morreu feliz... agarrado à sua máquina.

Nunca ninguém mais viu o Francisco Laudi ou a máquina.

Ele levou-a consigo.



Saturday, August 12, 2006

Bernardo



Bernardo tinha muitos amigos, muitos... no entanto, foi no dia em que morreu e foi velado que se verificou que ninguém o conhecia. A uns tinha dito trabalhar com outros e a estes fizera o mesmo em relação aos primeiros. Três mulheres apareceram dizendo-se os únicos amores de Bernardo... mas eram três... e então perceberam que algo não batia certo.

Bernardo nunca tinha confiado em ninguém ao ponto de lhe contar tudo, talvez porque as pessoas que ia conhecendo iam obrigatoriamente, e por inércia, sendo arrastadas por aquele jogo que só Bernardo sabia jogar, pois era ele o inventor do jogo, das regras e das excepções. Nunca encontrou ninguém a quem confiar isto, porque a fazê-lo, teria que ser alguém que ele não conhecesse, e não era minimamente prudente confiar em alguém que não conhecia. Porém, um dia, pensou ter achado a pessoa correcta, a ideal! Resolveu contar-lhe tudo de uma só vez: que era mentiroso e que ninguém, absolutamente ninguém sabia disso... e que ela era a segunda pessoa a saber de tal coisa.

Um pouco comovida mas nada convencida virou-lhe as costas.

Desesperado, Bernardo desatou a correr até uma ponte e atirou-se.

Aquela a quem tudo confiou, confessando, só amou Bernardo quando este já estava dentro de um caixão e rodeado de burburinhos acerca da sua (ir)real personalidade. É que estavam ali todos, e nunca tinha falado entre si antes... foi um desastre.

Catarina, aquela a quem Bernardo julgava como sendo a pessoa ideal para o ajudar a sair do jogo, chegou ao velório e ouviu todas as contradições que se iam descobrindo acerca de Bernardo... e ela sabia tudo. Até ia sabendo o que através de uma conversa se ia descobrir. Sentou-se e chorou.

E enquanto chorava alguém veio ter com ela e perguntou-lhe:

À Sra. quem ele disse que era? Olhe, não fique assim triste, pois está aqui a descobrir-se que ele era um grande aldrabão, e por isso não merece as suas lágrimas.


Catarina nada respondeu.

Foi ao funeral e depois de comprar umas quantas testemunhas, foi-se entregar à polícia dizendo que fora ela quem tinha, voluntariamente, empurrado Bernardo da ponte.

No tribunal deu-se como provado o homicídio e Catarina foi condenada a prisão perpétua. Era o que ela queria: esperar sozinha pelo momento de pedir perdão cara na cara daquele que um dia se tinha confiado totalmente a ela.

Envelheceu na prisão e lá morreu... era a sua vontade.

Nada mais se sabe.

Sunday, August 06, 2006

Rodrigo



Rodrigo era um homem tímido, humilde e vivia sozinho. Era professor mas nunca teve um mau aluno, talvez porque o respeitassem como ele merecia; era, no fundo, um professor a sério. As únicas rebeldias aconteciam no princípio dos anos lectivos, mas a personalidade de Rodrigo punha-lhes cobro, não pela rispidez, mas por uma empatia indescritível.

Rodrigo ensinava matemática, mas em casa gostava de escrever... escrever sonetos, poemas, prosas, cartas. Fazia tudo isto construindo romances. Gostava de escrever talvez até mais do que dar aulas de matemática.

Já estava com cerca de 70 anos de idade e foi forçado pela lei a deixar de leccionar e retirou-se... e apesar de ter deixado em muitos alguma saudade, depois de 3 anos, já só recordavam Rodrigo quando havia muitas notas negativas a matemática, mas depois... já nem isso.

Rodrigo estava por casa, escrevendo folhas sem fim, cuja qualidade era irrepreensível: dias e dias a escrever romances que incluíam sonetos, poemas, prosas, cartas, etc. E tão belos romances! As folhas soltas eram agrupadas por capítulos e estes por romances. Já tinha 4 ou 5 montes quando sentiu que já não podia mais; o seu médico avisara-o mas ele não lhe deu ouvidos... Agora, sentira um arrepio na coluna vertebral... tão forte que o deixou imóvel e quase não sentia a cabeça, também não sentia os membros inferiores. Com muito esforço telefonou para os bombeiros que passados alguns minutos estavam já com o Rodrigo a caminho do hospital...

Ficou internado... dias e dias... meses... quase dois anos...e nunca teve uma visita daquelas que vão lá de propósito, daquelas que lá vão, só para nos ver a nós.

Nem uma!

Só o capelão e umas senhoras que visitam todos os doentes que não têm visitas... e com estes Rodrigo falava pouco, mostrando um pouco de simpatia; mas não mais, só um pouco... afinal, era o que sentia por eles.


Rodrigo esperava pela noite para chorar sem que ninguém o ouvisse ou percebesse. De dia sentia o desespero e a angústia de não haver ninguém que o visitasse... ele que tão bom homem fora. Lembrava-se dos seus romances... mas nunca falou deles com ninguém.

A sua tristeza e solidão acabaram por o matar...

Morreu no dia 28 de Março de 1984 com uma coisa qualquer, um daqueles nomes que os médicos têm para dizer quando não sabem o que é, ou do que foi.

Morreu só e triste. Os seus romances, as folhas soltas em montes, foram para um caixote de lixo qualquer...Os seus romances, os romances mesmo... esses todos nós os ouvimos quando estamos sós e tristes.


Friday, July 28, 2006

Guilherme

Guilherme tinha acabado os seus estudos. Nunca teve uma namorada a sério... Nunca tinha sentido necessidade de alguém junto de si... o sexo oposto nunca o tinha atraído... tinha tido umas aventuras, mas o seu coração sempre foi seu... nunca o ofereceu a ninguém... só por palavras, mentiras...

Vivia sozinho numa casa onde nada faltava... a não ser um outro... e Guilherme começou a sentir a falta desse outro quando um dia a luz faltou... TV, Hi-Fi e tudo o resto silenciou-se... O silêncio teve então hipótese de ficar a sós com Guilherme... sentiu uma falta muito grande, a falta de algo... alguém!

Um dia resolveu acabar com o silêncio e procurar uma mulher para casar... viu muitas... falou com algumas... não gostou de nenhuma.

Quando chegou a casa pensou que tinha de ter calma, manter-se sereno... pois uma escolha apressada poderia estragar tudo.

Meses após meses Guilherme procurou com muita paz a mulher com quem casar, com quem dividir o que tinha... um alguém que lhe enchesse o que agora sentia tão vazio... mas era muito difícil... Ou eram comprometidas ou então não queriam nada com ele...

Manteve-se calmo... Trabalhava, dormia e procurava a mulher da sua vida... durante anos...

Cada vez mais o silêncio de sua casa lhe metia medo... então, uma noite, antes de adormecer, começou a pensar que afinal de contas ele até estava a viver uma vida boa... apesar de alguma frustração que lhe advinha do facto de não encontrar quem procurava... a sua vida até era, na sua globalidade, uma vida boa... não tinha atritos com ninguém, trabalhava honestamente e era recompensado de acordo com isto... muita gente o admirava e tinha até já servido de exemplo a muitos que se apressavam a procurar outro alguém... Guilherme costumava dizer: " Eu também procuro um outro alguém... mas com a paz de quem quer escolher bem... com a paz de quem vai acertar... com a paz de quem, mais cedo ou mais tarde, vai ser muito feliz porque encontrou o seu outro... e o ama."

Guilherme naquela noite viu que tudo em si até nem estava tão mau como às vezes sentia... por vezes sentia-se mergulhado num poço onde gritava e nem eco havia... porque o seu grito era de silêncio...

Por fim adormeceu...

Foi acordado na manhã seguinte por um cheiro a flores... uma senhora muito bela estava perto da sua cabeceira com um enorme arranjo de flores... ficou espantado... e teve que perguntar como é que ela tinha conseguido entrar...

Ela não lhe respondeu a essa pergunta, mas respondeu à outra que ele ainda não tinha feito:

"- Sou uma mulher que esperava alguém a quem dar o amor que tenho e guardo... sempre tive medo de procurar por medo de não acertar... por isso, simplesmente esperava... até que o vi. Os seus olhos mostraram-me uma paz que não tive dúvidas em ver em si aquele que eu esperava... passou algum tempo e cansei-me de esperar, resolvi procurá-lo e aqui estou... chamo-me Beatriz, tenho 32 anos, sou solteira e amo-o sem o conhecer... ..."

Guilherme nem acreditava... com a boca completamente aberta olhava Beatriz.. nem sabia o que pensar ou sentir... um sonho?! Não... Ela era loira e trazia o cabelo apanhado atrás, muito bem esticado... parecia ter 25 anos... era muito bela...mas... mas... se calhar era um sonho... ele não estava a compreender absolutamente nada... Por fim perguntou:

"- Beatriz... como consegue amar-me sem nada saber de mim, a não ser a forma como eu a olho e... pelos vistos a minha morada... pela minha boca nada sabe... nem sabe o que penso ou sinto por si!?"

Ela respondeu-lhe com serenidade dizendo:

"- Guilherme... desculpe-me mas vou-me embora, não porque esteja desiludida, mas porque me estou a sentir motivo de confusão... quando quis ser motivo de uma alegria de fusão... Desculpe-me... voltarei um outro dia..."

Guilherme agarrou-lhe na mão e disse:

"- Beatriz... não vá... amo-a... é você!!!"

Alguns dias depois já viviam juntos, como casados... só que não se beijavam nem trocavam palavras. Depois casaram e continuaram como estavam: sem beijos nem palavras, só o amor... só a sua forma bonita de amar...

Muitos anos mais tarde Beatriz não apareceu à hora do costume... Guilherme ficou muito preocupado, entretanto, tocou o telefone e uma voz lacónica perguntou se era o esposo de Beatriz, depois de responder afirmativamente, Guilherme ouviu a voz dizer-lhe que Beatriz tinha sofrido um desastre mortal, ele manteve-se calmo e desligou depois de saber o hospital, ou melhor, a morgue em que ela se encontrava e dirigiu-se para lá... Identificou-se e passados alguns momentos viu o cadáver de Beatriz... Chorou três lágrimas e depois foi para casa...

No enterro estava sozinho... Levou as pétalas das flores com que outrora Beatriz o tinha acordado e que tinha guardado todos aqueles anos... deitou-as por cima do caixão e foi para casa...

Guilherme veio a morrer num hospital da sua cidade... Morreu de velhice... Morreu porque o seu corpo não aguentava viver mais... o seu coração, a sua alma, esse era como sempre foi: Grande e Calmo.

Morreu... e foi sentar-se à cabeceira de uma cama onde Beatriz esperava calmamente por ele... o que ela não esperava era o beijo com que Guilherme a acordou..


Tuesday, July 18, 2006

Wilson





Era uma vez um menino de 12 anos que vivia com a sua família no interior.

Wilson guardava ovelhas. Era magro, cabelo curto e andava sempre a lutar contra o frio com agasalhos cheios de rasgões.

Sua família propusera-lhe um dia que ele fosse estudar, e isso porque se pensou que ele talvez viesse a precisar de ir à escola. Mas Wilson não aceitou, eles precisavam dele e ele precisava de alguém que precisasse dele. René orgulhava-se por ter uma família que precisava dele e que, ainda assim, lhe tinha dado a possibilidade de estudar.

Havia na aldeia uma menina muito bela que o Wilson via sempre que ela vinha da escola.

Passava o dia a pensar nela e em casar-se com ela. Ele precisava dela para ser feliz, mas havia que esperar, é que agora ele estava a cumprir o amor à família.

Deixando temporariamente da lado a escola e o amor exclusivo da rapariga muito bela, Wilson vivia sozinho por entre céu e terra fértil, no meio de vales fundos e montanhas altas.

Um dia a vida de Wilson foi-se embora, fugiu-lhe quando caiu no fundo de uma ravina...

Lá em baixo, um cadáver. Em cima, olhando para baixo, as ovelhas.

Lá na aldeia, uma rapariga muito bela. Em cima, olhando para baixo, um rapaz magro e de cabelo curto.

Wednesday, July 05, 2006

aos meus amigos


existe hoje em mim um sentimento:

o do receio quanto ao futuro,

não o meu,

mas o vosso,

pessoas de quem gosto,

desculpem-me mas hoje receio por vós e sofro.

já me surgiu a ideia de estar a querer que sofram comigo,


mas afasto-a... no extremo preocupa-me tanto o meu como o vosso.


hoje sinto a vertigem dum futuro vazio,


potencialmente repleto de coisas más...


em dias como este, não consigo ser optimista,


porque o mundo me aparece cinza escuro


sem luz no fundo...


embora a metáfora contrária também faça imenso sentido:


se agora há luz, já vislumbro um lugar negro


para onde todos, inevitavelmente, peregrinamos...


chego até a sentir que se um de nós se "safar",


já é uma vitória do colectivo,


e senti-la-ei como se da minha se tratasse.


Desafio-vos pois a todos a irmos juntos,


ou talvez esteja simplesmente a rogar-vos


para que não se esqueçam de vós,


Enfim, que me dêem a felicidade de vos ver felizes.

Monday, June 26, 2006

Esboço de uma teoria sobre o Amor e a Morte



Amar é: Ser generoso, Servir, Trabalhar sem procurar descanso, Lutar sem cuidar das feridas, Gastar-se, enfim, Dar-SE


Partindo do pressuposto que o amor é dar-Se (tendo como sentido/sentimento o oposto ao egoísmo) pode considerar-se que a morte apenas põe termo à existência corporal-visível, mas não com a presença efectiva neste mundo.

Se A ama B, então B acaba por tomar A em si, passando a ser uma fusão do que era com a substância do amor de A - um BA - e quando este último amar, dar-Se-á como BA, pelo que, ao amar um C estará a perpetuar a existência de A em C, teremos pois um CBA.

Só morrem aqueles que amamos. Afinal, não tem para nós significado a morte do anónimo. Os que amamos sim, esses morrem, pese embora ser a estes que é mais difícil de atribuir a categoria de mortais. Por outro lado, são os que nos amaram que nunca desaparecem, vivem em nós, connosco... enfim, somo-los. Só há perda quando houve laço, e este, apesar de muito nomes - Admiração; Alegria; Amizade; Atenção; Bondade; Caridade; Compreensão; Empatia; Interesse; Fraternidade; Respeito; Solidariedade; Tolerância; Voluntariado, etc. ...é sempre Amor.

É errado pensar que aquele que nos amou morreu, pois é precisamente no momento da sua "perda" que tal pessoa nos aparece, no fundo de nós, como uma absoluta presença.

Cada um de nós traz no fundo de si um pequeno cemitério daqueles que amou, mas também somos todos aqueles que nos amaram, senão repare-se quantos são aqueles que vêem desvanecer os defeitos dos seus entes queridos que faleceram, ao mesmo tempo que florescem, quase como se as sementes lá jazessem há muito, as suas virtudes brilham no jardim da sua recordação.

Diz Guidicelli:
Morto há um ano, o meu pai é um jovem cadáver que vejo crescer dentro de mim.

Mas eu também morro antes do meu tal dia, pois se vir partir alguém por mim amado... lá se vai um pouco de mim.

Morremos sim, mas aos poucos.



Sunday, June 11, 2006

Brito - Um Homem Só

Era um homem muito só.

Vivia no centro de uma cidade muito povoada... uma cidade moderna.

Absorvido pelo todo, pela sociedade, Brito nada mais fazia senão trabalhar, CONSUMIR e dormir... tinha pouco tempo, demasiado pouco tempo para fazer outras coisas...


Brito era em função do todo, da máquina... não pensava nem sentia nada,

não vivia... era um cidadão exemplar!

Aquando do cumprimento de umas férias, Brito reflectiu... pensou em si... sobre quem era... recordou-se da sua meninice, dos seus pais, de uma ou outra namorada que tivera... lembrou-se dos seus sonhos, daquelas possibilidades belíssimas que tivera para si...


Foi então que começou a perceber que não mais tinha sido ele mesmo... só o era quando dormia e tinha pesadelos pesados, que precisamente o recordavam do que já não era... quando estava acordado a sociedade tratava-o "tão bem" que não lhe deixava espaço para sonhar, ou melhor, o todo em que estava diluído alimentava-o com sonhos que não eram os seus...


Murmurou de si para si:

Sou realmente o que sou quando durmo e sonho, sonhando os meus próprios sonhos, aqueles a que a hierarquia me ensinou a apelidar de pesadelos e a ter medo deles, mas quando sonho sou eu... no acordar sinto o medo que me ensinaram, por isso é que o que sou, o Brito, fica sempre na cama e é lá que está aquele que sou. Acordado sou tudo menos eu mesmo, eu próprio. Acordado existo mas não vivo... acordado... eu nem sequer acordo já... quem acorda é o nº 745664151 e é este quem calça os chinelos que estupidamente chamo "meus"... o Brito... o Brito nunca mais acordou

745664151 trabalhou ainda muitos anos vindo a sucumbir com 81 anos de idade e o seu corpo "descansa em paz" num cemitério da sua "mãe" cidade, o epitáfio reza assim: "(...) eterna saudade de todos os seus amigos"

Brito morreu menino, criança ainda, foi brutalmente assassinado por uma almofada que o asfixiou... o seu corpo jaz em câmara ardente debaixo da almofada de cada um de nós, tendo sempre o mesmo epitáfio:

MORREU UM SONHO

Saturday, June 03, 2006

Um Casaco Especial


não me canso de contar esta história:

tinha cerca de 18 anos, lembro-me muito bem de ter trabalhado na Ilha da Berlenga e ter conhecido o faroleiro, era um homem afável, embora de mui poucas palavras, do qual fico com uma ideia de ser alguém que tinha tempo para tudo... e um interior do tamanho do mar...
recordo-me de num dia enquanto com ele dava uma volta de barco, em busca da pesca/apanha ilegal de percebes, eu ter reparado no seu casaco/impermeável e lhe ter dito que o achava "muito louco".

Era de um roxo que a sucessiva exposição à água salgada tinha criado um padrão fora do comum...

o meu amigo com toda a calma que o caracterizava despiu-o e entregou-mo dizendo um seco, sibilino e essencial:

- É TEU !

hoje sei que aquele gesto veio condicionar toda a minha vida...

ainda o tenho ali!


Monday, May 22, 2006

Ensaio de Epistemologia Teológica



A Convicção no Novo Testamento

Convicções

(a) Ámen. Palavra hebraica que significa assim é ou assim seja. Também pode traduzir-se por certamente, verdadeiramente ou com certeza. No Apocalipse é usada como título de Cristo.

(b) A fé é a certeza de se possuírem as coisas que se esperam e a garantia das coisas que se não vêem.
(Hb. 11. 1)

(c) Foi a respeito dele [reino dos céus] que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e abram-lhe estradas direitas.
(Mt. 3. 3)

(d) És tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro? [João Baptista acerca de Jesus]
(Mt. 11. 3)

(e) Não pensem que eu vim para acabar com a lei de Moisés ou com o ensino dos profetas. Não foi para isso que eu vim, mas para lhes dar cumprimento.
(Mt. 5. 17)

(f) Mas Jesus respondeu-lhes: Ao pôr do sol vocês dizem: Vamos ter bom tempo, porque o céu está avermelhado! E de manhã cedo dizem: Hoje vamos ter mau tempo, porque o céu está carregado. Sabem prever o tempo pelo aspecto do céu e não são capazes de perceber os sinais de Deus nos tempos de hoje! Esta gente de má e infiel anda à procura dum sinal, mas o único sinal que lhes será dado é o do profeta Jonas.
(Mt. 16. 2 - 4)

(g) A seguir disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e mete-a no meu peito. Não sejas descrente! Acredita!. E Tomé respondeu: Meu Senhor e meu Deus! Jesus disse-lhe: Acreditas agora porque me viste? Felizes os que acreditarem sem terem visto.
(Jo. 20. 27 – 29)

(h) Os discípulos foram então pregar a Boa Nova por toda a parte. E o Senhor confirmava a pregação por meio de milagres.
(Mc.16. 20)

(i) Então Paulo pôs-se de pé diante da Assembleia do Areópago e disse: Atenienses, vejo que vocês são em tudo muito religiosos. Com efeito quando dei uma volta pela cidade e vi os vossos monumentos religiosos, reparei num altar que tinhas estas palavras escritas: Ao Deus desconhecido. Pois bem, esse Deus que vocês adoram sem o conhecer, é o Deus de que eu vos falo.
(At. 17. 22 – 23)

(j) Deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois, volta e apresenta a tua oferta a Deus
(Mt. 5. 24)

(k) Portanto é pelas suas acções que hão-de conhecer os falsos profetas
(Mt. 7. 20)

(l) Portanto, meus irmãos, já estão avisados. Tenham cuidado! Não se deixem cair da posição firme em que se encontram, levados pelos enganos dessas pessoas más.
(II Pd. 3. 17)

(m) Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrador de impostos. Chamava-se Mateus. Jesus disse-lhe: Vem comigo. Ele levantou-se e foi.
(Mt. 9. 9)

(n) Deste modo, em Caná da Galileia, Jesus realizou o seu primeiro milagre. Assim mostrou o seu poder divino e os discípulos acreditaram nele.
(Jo. 2. 11)

(o) Pedro então disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima da água. Jesus respondeu: Vem. Então Pedro desceu do barco e começou a caminhar por cima da água em direcção a Jesus. Mas, quando viu que o vento era muito forte, teve medo, começou a afundar-se e gritou: Salva-me, Senhor! Jesus estendeu logo a mão, segurou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, porque duvidas-te?
(Mt. 14. 28 - 31)

(p) Mas devem pedir com fé, sem duvidar. Aquele que duvida é como as ondas do mar, levadas pelo vento. Nem pense que há-de conseguir alguma coisa do Senhor, pois é um indeciso e pouco seguro em tudo o que faz.
(Tg. 1. 6 – 8)

(q) Jesus, porém, disse: Deixem as crianças vir ter comigo! Não as estorvem, porque o Reino de Deus é dos que são como elas.
(Mt. 19. 14)

(r) Depois de as tirar a todas do curral, vai à frente, e elas seguem-no porque conhecem a sua voz.
(Jo. 10. 4)

(s) Um dos criminosos crucificados insultava-o assim: Então não és o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós!. Mas o outro repreendia-o com estas palavras: Não tens temos a Deus, tu que estás a sofrer a mesma condenação? Nós estamos aqui a cumprir o justo castigo pelos actos que temos praticado, mas este não fez nada de mal. E disse: Jesus, lembra-te de mim quando chegares ao teu reino. Jesus respondeu-lhe: Podes ter a certeza que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.
(Lc. 23. 39 - 43)

(t) Pois nós fomos anunciar-lhes a Boa Nova não só com palavras, mas com a força do Espírito Santo e com profunda convicção.
(I Ts. 1. 5)


Implicações

I. Jesus cumpre a fé. (ultrapassando-a) Há uma pré-disposição do homem para Deus.

II. Jesus ao fazer milagres dá uma nova dimensão à fé. (preenche-o)

III. A obra é norma (decorre) da fé.

IV. Conhece-se a fé (convicção), não pelo tom de voz , mas pelas obras.

V. Nesta fé não deverá haver lugar a dúvidas. (não há meias-convicções)

VI. A ingenuidade (superação da racionalidade) da fé (afim de constituir a própria razão).

VII. A nova fé (convicção) não é a fé (no sentido de obra do Espírito Santo) é profundamente pessoal. Há um homem – Jesus – que se dirige a outro homem – eu. Já não um Deus de um povo. A minha adesão é pessoal.

VIII. Hab. 2. 4: O justo vive da fé (hebraico) / fidelidade (grego) / Convicção (epistémico)



Implicações últimas

A. Esta recomeçada fé é evidência. Dá-se tanto à inteligência como à vontade, que se dá ao homem todo e que a todo transforma, move, converte... porque convence)

B. Deus revela-se. A posição do sujeito é mais do que acreditar, é seguir.

C. Só pela convicção se avança, só ela faz avançar.

D. Em teoria teológica, primeiro a fé, a razão depois. Na prática, ambas se cruzam no (todo do) homem, pois há que caminhar / viver como ser íntegro.

E. Há sempre um conjunto de indícios que me fazem adivinhar uma coerência de um modelo. A convicção é essa implicação. Leva o homem a aderir pessoal e absolutamente (até ao seu mais íntimo), e a agir em função desse seu novo fundamento – desse seu novo modo de ser.

F. Ultrapassagem da divisão da razão em teórica e prática.

G. É pelas implicações que se julgam as definições.

H. Convicção pessoal como o pressuposto. Fundamento da acção, fundo dos julgamentos (da opinião ao rigor matemático)... Condição de racionalidade. Fundação do pensamento e, por isso, de toda a acção. A própria dúvida radica numa convicção.

I. Funda-mental (?)

J. Há uma adesão tal do sujeito à proposição, que a toma (se voluntariamente) como fundamento de si.

K. Há uma adequação do ser do homem à verdade.

L. Tudo no que sou decorre daquilo em que estou convicto. As convicções constituem-me. É em função das minhas convicções que se dá o meu ser / agir.

M. No fundo do ser do homem está a convicção.

N. A confiança que sinto em alguém. E em Jesus... é convicção.

Porque Jesus é, verdadeiramente Rei, principalmente dos humildes, a Boa Nova não é um tratado de lógica, ontologia, ou simplesmente, de filosofia. Ela é O fundamental.