Saturday, November 11, 2006

Tomás



Tomás era idoso... velho... vivia numa aldeia que já não o era... só lá vivia ele... os outros... ou tinham ido para as cidades, ou tinham morrido.

Tomás era o último, vivia a vida de um homem só, completamente só...

Em tempos tinha sido famoso pela maneira como escrevia e falava... Foi casado com uma mulher... mas ela estava longe... longe demais.

Agora falava sozinho e escrevia para si mesmo... sentia-se diferente quando se ouvia ou lia o que tinha escrito... Era a única maneira de se sentir acompanhado... Precisava muito de comunicar e como estava só, fazia-o em duas fases: na primeira escrevia ou falava; na segunda lia ou escutava...

Começou a perceber uma coisa muito importante... quando falava e queria ouvir-se como se tratasse de um outro Tomás, só conseguia ser ou o que falava ou o que ouvia... não conseguia fazer ambas as coisas simultaneamente com igual rigor...

Quando escrevia era diferente... sentia-se ainda mais só... pois o diálogo que ele pretendia instituir não resultava... no fundo era uma ilusão enorme. Quando falava, ou falava ou ouvia... quando escrevia não lia e quando lia não podia escrever.

Tomás estava convicto de que precisava falar, ouvir, escrever e ler... pois à falta de melhor para combater a solidão que o ia pisando, restava-lhe isto... Por isso escondia-se atrás da pretensão de se conhecer a si mesmo...

No momento em que percebeu, lendo uma das suas coisas, que estava a ser o maior aliado do inimigo, daquele inimigo que pretendia abater... parou... não mais falou, ouviu, escreveu ou leu alguma coisa.

Compreendeu que o medo de estar só é tremendamente pior que a própria solidão...

Queimou todos os papéis e esqueceu todas as suas palavras, depois lembrou-se que tinha alguns livros em casa e também os queimou. Era uma fogueira alta.

Pensou em como podia lutar contra a solidão e entendeu por bem esperar... só esperar... esperar...

A sua espera durou uns três anos... mas Tomás nunca desesperou... pois a sua esperança era suficientemente grande para superar qualquer desespero...

Quando fechava os olhos via... via uma pessoa, uma outra pessoa... via-se a falar consigo, não a ouvia, apenas via...

Morreu...





Hoje, quando alguém que está só, fecha os olhos e ouve-o, ouve Tomás... não o vê... apenas o ouve... ouve as cinzas dos papéis de Tomás caírem no chão depois de voarem muito tempo e ouve palavras esquecidas:
Espera... não tentes combater... espera... amanhã virá alguém, talvez uma princesa lindíssima, ou simplesmente a morte... Esperei e veio a segunda levar-me para perto da primeira... Confesso que apesar de não saber como é... é ainda mais belo se a princesa chegar primeiro do que a morte... Olha... espera... lembra-te que não tens em ti a tua razão de ser... de seres assim... Espera pois, e pede, sonhando outro alguém... e como um mendigo que estende a mão a quem passa... como ele, não esperes que de cada pessoa que passe venha uma esmola... Pede... pede sempre... não te bastes a ti... se te tentares saciar contigo mesmo... morrerás só... e a princesa não estará no fim da morte.!!!

Saturday, November 04, 2006

Tributo a um Amigo



A morte não é o fim.

Eu só fui para o quarto ao lado.

Eu sou eu, vós sois vós.

O que nós éramos, uns pelos outros, seremos para sempre.

Dêem-me o nome que sempre me deram.

Falem-me como sempre o fizeram.

Não empreguem um tom de voz diferente, nem tenham um ar solene ou triste.

Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim, rezem por mim.

Que o meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de qualquer tipo, sem sombra de escuridão.

A vida continua a significar tudo aquilo que sempre significou.

Ela é o que sempre foi. O fio não foi cortado.

Por que motivo ficaria eu de fora dos vossos pensamentos, lá por estar fora da vossa vida?

Eu guardo-vos e fico por perto: ali do outro lado do caminho.

Estão a ver, Está tudo bem.


Charles Péguy

Tuesday, October 24, 2006

Filosofia Sensível


Eis a Filosofia Sensível:

Eu sou muito importante. Vivendo e pensando só consigo sentir-me a mim próprio. Sou importante porque estas mãos que agora escrevem neste papel são preciosas... para além de serem únicas e insubstituíveis obedecem-me na perfeição, são um óptimo meio que possuo. Como as minhas mãos, todo o meu corpo é, para mim, a minha casa, o meu lar. O proprietário, o eu, é, ou melhor, sou alguém que eu próprio desconheço. Cada dia que passa observo-o(-me) em busca de algo que dissipe o mistério que para mim sou.

O outro é importante. Há outros, como eu e a minha casa. Consigo gostar deles, e das suas casas. Procuro até um outro que me ame e que eu o consiga amar a ele também...Sonho envelhecer com ele numa só casa.

Deus é o mais importante. Ele sabe quem sou. Ama-me, apesar de me conhecer perfeitamente. O PAI-NOSSO criou-me e ficou dentro de mim, fez esta minha casa. Há quem não acredite em Deus mas, para esses eu juro que Ele existe, em mim e fora de mim. Tal como na aparência de um fio de telefone não se vislumbram os milhões de palavras que passam a cada segundo por ele...e palavras que têm milhões de sentimentos por detrás de si, também é preciso saber qualquer coisa, para conseguir encontrar o Pai-Nosso.

O pensamento anda virgem de relações sentimentais. Estou farto de filósofos, de Tales a Ricouer, são quase todos uma espécie de semideuses, que expulsam da Filosofia o coração que bate na lareira de nossas casas. Possuem vãs filosofias, são bonecos de barro sem sopro.

Em mim, a razão ama o sentimento, outros há cuja razão se chama Narciso. A Filosofia difere dos filósofos como a Música dos músicos.

A Filosofia é uma festa para todos, apesar de alguns insistirem em reclamá-la só para si.

Friday, October 06, 2006

Há Quem Sofra...



foi um telefonema a meio da tarde...

de muito muito longe,

de alguém que se lembrava de mim
apesar de tudo...

de uma gentileza absolutamente incomum...


talvez nunca como hoje tenha sentido isto.

Já o pensei, sem o ter sentido.


Hoje, por este nosso mundo
há quem prefira viver noutro,
sem dores
nem fome
nem tendo a morte como sua enfermeira.


Hoje compreendo que os heróis
são os que sofrendo,
sorriem…
e não os outros,
que sorriem por se terem furtado à dor.


Há mais herói na dor profunda.


O mais implacável dos meus inimigos
é a carne que me suporta.

E, há quem não escreva mas tenha muito para ensinar.
Que Deus dê força a todos estes fortes que,

hoje,

lutam contra a fraqueza do homem que são,
a sua corporeidade,

circunstância,

enfim, o ser de que são feitos.

Que hoje e sempre o Divino fortaleça os que neste mundo
não têm o mundo que merecem.


um grande abraço a quem nunca lerá isto que para si escrevi.

Thursday, August 31, 2006

Heraclito - Acerca da Natureza (trad.)

A tradução dos fragmentos de Heraclito apresentada abaixo foi efectuada a partir do texto grego clássico (ed. Seghers).

Esta disponibilização on-line é tão-somente para partilhar com quem se possa interessar por estas coisas... ter isto aqui fechado no computador não faz grande sentido... comecei, há muitos anos, por pensar que editaria uma edição crítica (tradução e notas)... mas nunca passei da tradução.

Está registada
- Dep. Legal Nº 72115/93 - Mas... façam o que entenderem com ela! Se me quiserem citar o nome é José Luís Nunes Martins. Sem mais, ei-la!


HERACLITO

"ACERCA DA NATUREZA"

1
Quanto a este Logos, que é sempre, os homens comportam-se como quem não compreende, tanto antes como depois de o ter ouvido. Com efeito, tudo vem de acordo com o Logos, e eles, parecem sem experiência nas experiências com palavras e obras, iguais às que levo a cabo, distinguindo cada coisa conforme a sua natureza, e explicando o que ela é. Aos outros homens, porém, fica-lhes encoberto tanto o que fazem acordados, como se lhes volta a encobrir o que fazem durante o sono.

2
Faz-se necessário seguir o que é con-junto. O Logos é con-junto, enquanto a massa vive como se cada uma das multiplicidades tivesse uma inteligência própria.

3
(O Sol) da largura de um pé humano.

4
Se a felicidade estivesse nos prazeres do corpo, deveríamos chamar felizes aos bois quando encontrassem o que comer.

5
É em vão que se purificam, quando se borrifam com sangue novo, como alguém que tivesse pisado lama, quisesse lavar-se com ela. E fazem orações às imagens como se alguém pudesse falar com paredes. Eles não sabem nada da verdadeira natureza dos deuses e dos heróis.

6
Todos os dias há um Sol novo.

7
Se todas as coisas se tornassem fumo, seria o nosso nariz que as distinguiria.

8
O contrário em tensão é convergente; as divergências dos contrários: a mais bela harmonia, tudo nasce da luta.

9
Os asnos preferem palha a ouro.

10
Conjunções: completo e incompleto, convergente e divergente, concórdia e discórdia, enfim, de todas as coisas uma e de uma, todas as coisas.

11
Tudo o que rasteja, partilha da terra.

12
Para quem entra nos mesmos rios, afluem sempre outras águas.

13
Os porcos têm mais prazer na lama.

14
(Para quem profetiza Heraclito?) Para os errantes nocturnos, os mágicos, os bacantes, as mênades, os mistos. (...) É sem piedade que se iniciam nos mistérios célebres entre os homens.

15
Não fosse para Dionísio a procissão e o hino que entoam com as vergonhas sagradas, praticariam a coisa mais monstruosa. Mas Hades e Dionísio são o mesmo, para quem deliram e festejam.

16
Como alguém poderia manter-se encoberto face ao que nunca se deita?

17
A maior parte dos homens não reflecte aquilo que se lhes apresenta, e mesmo uma vez instruídos, eles não compreendem, vivem na aparência.

18
Se não esperamos o inesperado, não o encontraremos, porquanto ele é inescrutável e difícil de abranger.

19
Não sabendo ouvir não sabem falar.

20
Nascidos, consentem viver e sofrer a morte, ou repousar, e deixam filhos, que sofrerão a morte por seu turno.

21
Morte, tudo o que vemos acordados, sono, tudo o que vemos adormecidos.

22
Os que procuram ouro, cavam muita terra, e encontram pouco ouro.

23
Não conheceriam o nome da Justiça, se não houvesse injustiças.

24
Os homens e os deuses honram os que são mortos nos combates.

25
Às maiores mortes prendem-se os maiores destinos.

26
O homem acende uma luz na noite, quando não vê está morto para si. Vivendo, toca o morto, quando a visão extinta dorme. Acordado, toca o ser que dorme.

27
As coisas que se não esperam nem imaginam, esperam o homem após a sua morte.

28
O mais conhecedor decide das coisas reconhecidas para conservar, mas a Justiça saberá apossar-se dos artesãos e testemunhas de mentiras.

29
Há uma coisa que os melhores preferem: a glória eterna dos mortais; a multidão está saturada como o gado.

30
A ordem do mundo, a mesma para todos os seres, não a criou nenhum dos deuses nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e sempre será um fogo sempre vivo que se acende com medida e com medida se extingue.

31
Metamorfoses do fogo: primeiro o mar, do mar a metade terra, e a outra metade vento ardente. O mar estica-se e encontra a sua medida de acordo com o mesmo Logos que era primeiro.

32
Um único ser, o único sábio, refuta e aceita o nome de Zeus.

33
Lei, é a vontade de seguir uma só coisa.

34
Sem compreensão: ouvindo, parecem surdos. A eles se aplica o provérbio: Presentes, estão ausentes.

35
Os filósofos conhecem muitas coisas, e bem.

36
Para as almas, a morte é transformarem-se em água, para a água a morte é transformar-se em terra: pois a água tem origem na terra, e a alma na água.

37
Os porcos lavam-se na lama, as aves de baixo curso no pó ou na cinza.

38
(Heraclito e Demócrito testemunham que:) Tales foi o primeiro astrónomo.


39
Em Priene nasceu Bias, filho de Teutame, o seu Logos ultrapassou o de todos os outros.

40
Muitos saberes não ensinam sabedoria, senão teriam ensinado a Hesíodo e Pitágoras, a Xenófanes e Hecateu.

41
A sabedoria consiste em compreender uma só coisa: que o pensamento governa tudo através de tudo.

42
Homero merece ser expulso dos concursos e bastonado, e Arquíloco também.

43
Há maior necessidade de extinguir a desmesura do que um incêndio.

44
O povo deve lutar pela lei, como pelas muralhas.

45
Os limites da alma, não os encontrarás, nem que caminhes por todos os caminhos, tão profundo é o Logos que abriga.

46
E chamava a presunção de mal sagrado, (e dizia) que a visão induz ao erro.

47
Sobre as grandes coisas, não façamos conjecturas ao acaso.

48
O arco tem por nome a vida, e por obra a morte.

49
Um só homem vale por dez mil, se for o melhor.

49a
Entramos e não entramos no mesmo rio, somos e não somos.

50
Ouvindo não a mim mas ao Logos, é sábio concordar que tudo é um.

51
Não compreendem como é que o oposto a si mesmo é ao mesmo tempo harmonioso consigo próprio; acordo de tensões inversas, como no arco e na lira.

52
O tempo é uma criança que joga o jogo das pedras: vigência da criança.

53
O combate é pai de todas as coisas, de todas as coisas é senhor, de uns fez deuses e de outros fez homens, de uns fez escravos, de outros fez livres.

54
A harmonia invisível é mais forte do que a visível.

55
O que podemos ver, entender e conhecer, é o que eu prefiro.

56
No esforço para conhecer o visível, os homens são ludibriados como Homero, que foi o mais sábio de todos os gregos. Com efeito, é a ele que ludibriaram os garotos que matavam piolhos e diziam: "Tudo o que vimos e agarrámos, deixámos, tudo o que não vimos nem agarrámos, trouxemos connosco.".

57
O mestre de quase todos, Hesíodo, embora estejam convencidos de que ele sabe tudo, ele não conhece nem a noite nem o dia, nem que tudo é um.

58
Cortando, queimando e atormentando de todos os modos, os médicos acusam indevidamente os doentes de não pagarem, pois o que operam nos doentes é o sucesso e a doença.

59
O caminho a direito ou com curvas, é um e o mesmo caminho.

60
O caminho que sobe e o que desce são um e o mesmo.

61
A água do mar é a mais pura e a mais impura. Para os peixes, potável e vivificante, para os homens, impotável e mortal.

62
Os imortais são mortais e os mortais imortais. Uns vivem da morte dos outros, os outros morrem da vida dos primeiros.

63
Insurgir-se contra os seres e assim fazer-se pastor dos vivos da vigília e dos mortos.

64
O raio governa o universo.

65
Indigência e saciedade.

66
O fogo virá em cima de tudo o que existe para o julgar e tomar consigo.

67
Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome. Ele transforma-se como o fogo que quando é mistura de aromas, recebe nomes diferentes conforme o gosto de cada um.

67a
Como a aranha no centro da teia logo sente quando uma mosca rompe o fio, e assim acorre rapidamente para lá como que temendo pela integridade do fio, assim também, a alma humana, ferida alguma parte do corpo, se dirige rápido para lá como se não suportasse a lesão do corpo, ao qual está unida firme e harmoniosamente.

68
E é por isso que Heraclito chamava "remédios" a tais coisas (a saber: alguns espectáculos e audições indecentes), por trazerem remédios à angústia e libertarem a alma do que traz consigo no crescimento.

69
Distingo dois tipos de sacrifícios: uns, os de homens inteiramente purificados, tais que raramente se dão a um indivíduo singular, ou a um pequeno grupo de homens; e os sacrifícios materiais.

70
As ideias humanas são jogos de crianças.

71
(Ter também presente) aquele para quem está esquecido aonde conduz o caminho.

72
Do Logos com quem sempre lidam, que governa todas as coisas, eles separam-se, e por isso as coisas que encontram lhes parecem estranhas.

73
Não é para falar a agir dormindo, porque a dormir crê-se que se fala e se age.

74
Não é para ser como crianças sobre a autoridade dos progenitores, sobre a tradição, sobre termos simples, como nos ocorre.

75
Os que dormem são operários das obras que acontecem no universo.

76
A morte da terra é tornar-se água, a morte da água é tornar-se ar e a do ar tornar-se fogo e inversamente.

77
Para as almas é prazer ou morte tornarem-se húmidas. Prazer é para elas cair na vida. A nossa vida nasce da sua morte e a sua vida nasce da nossa morte.

78
A morada do homem não abriga conhecimento, a divina sim.

79
A partir do divino, o homem, como a partir do homem a criança.

80
O combate é universal, a justiça é uma luta, e que todas as coisas nascem segundo a luta e a necessidade.

81
...fonte de mentira.

82
O mais belo macaco é feio, comparado à espécie humana.

83
O mais sábio dos homens comparado com Deus, parecerá um macaco, quanto à sabedoria, à beleza e a tudo o resto.

84a
O fogo repousa, transformando-se.

84b
É penoso castigar e servir os mesmos.

85
É duro lutar contra o coração, pois paga-se com a alma.

86
A maior parte das coisas divinas fogem ao conhecimento por causa da incredulidade.
87
Indolente, o homem que se deixa espantar pelo Logos em tudo.

88
O mesmo é vivo e morto, vivendo e morrendo, a vigília e o sono, o novo e o velho: pois estes alterando-se são aqueles e aqueles alterando-se são estes.

89
Acordados, têm um só mundo que lhes é comum, mas durante o sono cada um retorna ao seu próprio mundo.

90
Pelo fogo tudo se troca e por tudo, o fogo; como pelo ouro, as mercadorias e pelas mercadorias o ouro.

91
Não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio.

92
A Sibila, com voz delirante pronuncia palavras graves e sem disfarce, através de milhares de anos, graças ao deus que a anima.

93
O mestre do oráculo de Delfos não diz nem esconde nada, apenas indica.

94
O Sol não ultrapassará os seus limites; se o fizer, as Erineas, executoras da Justiça, saberão descobri-lo.

95
É melhor esconder a ignorância do que a desvelar em público.

96
Mais do que o excremento, deve-se deitar fora as cadáveres.

97
Os cães ladram a todos os que desconhecem.

98
As almas farejam no Hades.

99
Se não existisse Sol haveria noite por todos os outros astros.

100
O Sol, mestre e guardião das revoluções periódicas, vigia-as, limita-as, distribui-as, suscita e manifesta as metamorfoses e as estações que tudo trazem. Colabora não nas coisas vis e pequenas, mas nas maiores e nas mais essenciais, associado ao guia e Deus principal.

101
A mim mesmo me procurei.

101a
Os olhos são melhores testemunhas do que os ouvidos.

102
Para Deus é tudo belo, bom e recto; os homens é que tomam umas coisas por injustas e outras por justas.

103
Na circunferência, o começo e o fim coincidem.

104
Mas que espírito é o deles, que razão? Deixam-se levar pelos cantores de rua e ensinar pela multidão, não vêem que a maioria é má, e poucos são os homens bons.

105
Homero é um astrónomo.

106
Qualquer dia é igual a qualquer outro dia. (A natureza de todos os dias é una.)

107
Más testemunhas são para os homens os olhos e os ouvidos, se tiverem almas bárbaras.

108
De quantos discursos ouvi, nenhum chega ao ponto de saber que a sabedoria está separada de tudo.

109=95

110
Não é melhor para os homens que lhes aconteça tudo o que eles querem.

111
A doença torna a saúde agradável e boa, como a fome a saciedade, e a fadiga o repouso.

112
Pensar justamente (ser sensato) é a maior virtude, ser sábio é dizer a verdade e proceder de acordo com a natureza.

113
O pensamento é comum a todos. (Reúne tudo).

114
Para falar com inteligência é necessário concentrar-se no que é comum a tudo, como a cidade na lei, e com a maior concentração ainda. Porque todas as leis dos homens alimentam-se de uma lei una, a divina; ela impera o quanto se dispõe, basta e excede a todas.

115
A alma tem um Logos que se multiplica a si mesmo.

116
É dado a todos os homens conhecerem-se a si mesmos e saberem pensar.

117
Um homem, quando embriagado, deixa-se conduzir por uma criança inexperiente, cambaleando, sem saber para onde vai, com a sua alma húmida.


118
Uma alma seca é mais sábia e melhor.

119
O costume (hábito) é para o homem um deus.

120
Os limites da aurora e do crepúsculo são a Ursa e, frente à Ursa, o limite do sereno Zeus.

121
É justo que todos os Efésios adultos sejam mortos e os menores abandonem a cidade, eles que baniram Hermodoro, seu melhor homem, dizendo: "Nenhum de nós será o melhor, mas se alguém o for, que o seja então alhures e entre outros.".

122
Ambiguidade = Aproximação.

123
A natureza gosta de se esconder. (Surgimento já tende ao encobrimento)

124
O cosmos das coisas lançadas ao acaso é o arranjo mais belo.

125
A bebida desintegra-se se não a agitarmos.

125a
Que a riqueza não nos venha a faltar, Efésios, afim de que a vossa miséria se desvele toda.

126
O frio aquece-se, o quente esfria-se, o húmido seca e o seco humidifica-se.






Wednesday, August 23, 2006

Hoje caí

por um simples acidente
esta simples queda doméstica fez de mim
um ser que duvida do sentido que esta vida faz.

O joelho no chão e o espírito no vácuo…
sem outra vontade senão a de sair.

Porque não coabitam em mim
a queda do corpo e a elevação do espírito ?

Afinal
sou feito de sonhos
que se dissipam no primeiro momento
ao primeiro obstáculo.
No fundo,
não sou tão forte como julgava.

Hoje isto não está nada bem
estou sozinho, abandonado pelos sonhos,
e, na companhia desta tristeza
que me consome.

Sim, sei que tudo melhorará,
mas isso só acontecerá amanhã,
e faltam ainda muitos tempos
até de manhã.

O que há de mais triste nesta vida
é saber que ela passa,
que o bom é efémero…
mas, seguindo esta perspectiva,
eu deveria estar animado
pois até as desgraças,
enquanto coisas desta vida
são, ou deveriam ser, passageiras…
Mas se a felicidade não nos ilude,
pelo contrário, a tristeza dá cabo de mim.
Feliz, consigo sempre olhar para a frente e ver
que não dura sempre…
Triste, não me disponho a olhar para onde quer que seja.

Quero, simplesmente, não ter caído.
É impossível…
e é nisto que se aloja o fundo do meu sentir.

Sinto-me fraco, vencido…
perante um obstáculo que sou eu.
Caí,
p’ra cima da minha consciência.

Não sou só o sonho que tenho.
Mas também este pesadelo que o acaso me deu,
hoje.

Wednesday, August 16, 2006

Francisco



Francisco Laudi, o homem que fez chover.


Ele sonhou, acordou e decidiu-se.

Lançado por si mesmo para aquele empreendimento dispôs-se a tudo.

Com a luz do sol ou da vela trabalhava montando as peças que tinha percorrido longos caminhos para encontrar. Montava aquela enorme e confusa máquina... -sem um esboço de papel.

Tinha-a completado!

Colocou-a em cima de uma carroça que dois fortes cavalos puxaram até ao cimo do monte.

No cume verificou que o sol já estava a desaparecer e que era imperioso esperar pela manhã...- é que o sol era algo de fulcral.

Já noite e sem porquê trouxe os cavalos e a carroça para o vale de sua casa, depois despiu-se,... e nu... subiu o monte até junto da sua máquina.

Esperava pelo sol, com um sorriso nos lábios, quando lhe veio à ideia que a máquina não tinha qualquer interruptor... não tinha feito nenhum mecanismo que pudesse controlar a máquina e nem sequer se tinha lembrado de como ligá-la... desesperou!

Lembrou-se de que no seu sonho também não havia qualquer botão ou outra coisa qualquer... sorriu!

Com o sol veio a chuva e o Francisco Laudi morreu feliz... agarrado à sua máquina.

Nunca ninguém mais viu o Francisco Laudi ou a máquina.

Ele levou-a consigo.



Saturday, August 12, 2006

Bernardo



Bernardo tinha muitos amigos, muitos... no entanto, foi no dia em que morreu e foi velado que se verificou que ninguém o conhecia. A uns tinha dito trabalhar com outros e a estes fizera o mesmo em relação aos primeiros. Três mulheres apareceram dizendo-se os únicos amores de Bernardo... mas eram três... e então perceberam que algo não batia certo.

Bernardo nunca tinha confiado em ninguém ao ponto de lhe contar tudo, talvez porque as pessoas que ia conhecendo iam obrigatoriamente, e por inércia, sendo arrastadas por aquele jogo que só Bernardo sabia jogar, pois era ele o inventor do jogo, das regras e das excepções. Nunca encontrou ninguém a quem confiar isto, porque a fazê-lo, teria que ser alguém que ele não conhecesse, e não era minimamente prudente confiar em alguém que não conhecia. Porém, um dia, pensou ter achado a pessoa correcta, a ideal! Resolveu contar-lhe tudo de uma só vez: que era mentiroso e que ninguém, absolutamente ninguém sabia disso... e que ela era a segunda pessoa a saber de tal coisa.

Um pouco comovida mas nada convencida virou-lhe as costas.

Desesperado, Bernardo desatou a correr até uma ponte e atirou-se.

Aquela a quem tudo confiou, confessando, só amou Bernardo quando este já estava dentro de um caixão e rodeado de burburinhos acerca da sua (ir)real personalidade. É que estavam ali todos, e nunca tinha falado entre si antes... foi um desastre.

Catarina, aquela a quem Bernardo julgava como sendo a pessoa ideal para o ajudar a sair do jogo, chegou ao velório e ouviu todas as contradições que se iam descobrindo acerca de Bernardo... e ela sabia tudo. Até ia sabendo o que através de uma conversa se ia descobrir. Sentou-se e chorou.

E enquanto chorava alguém veio ter com ela e perguntou-lhe:

À Sra. quem ele disse que era? Olhe, não fique assim triste, pois está aqui a descobrir-se que ele era um grande aldrabão, e por isso não merece as suas lágrimas.


Catarina nada respondeu.

Foi ao funeral e depois de comprar umas quantas testemunhas, foi-se entregar à polícia dizendo que fora ela quem tinha, voluntariamente, empurrado Bernardo da ponte.

No tribunal deu-se como provado o homicídio e Catarina foi condenada a prisão perpétua. Era o que ela queria: esperar sozinha pelo momento de pedir perdão cara na cara daquele que um dia se tinha confiado totalmente a ela.

Envelheceu na prisão e lá morreu... era a sua vontade.

Nada mais se sabe.

Sunday, August 06, 2006

Rodrigo



Rodrigo era um homem tímido, humilde e vivia sozinho. Era professor mas nunca teve um mau aluno, talvez porque o respeitassem como ele merecia; era, no fundo, um professor a sério. As únicas rebeldias aconteciam no princípio dos anos lectivos, mas a personalidade de Rodrigo punha-lhes cobro, não pela rispidez, mas por uma empatia indescritível.

Rodrigo ensinava matemática, mas em casa gostava de escrever... escrever sonetos, poemas, prosas, cartas. Fazia tudo isto construindo romances. Gostava de escrever talvez até mais do que dar aulas de matemática.

Já estava com cerca de 70 anos de idade e foi forçado pela lei a deixar de leccionar e retirou-se... e apesar de ter deixado em muitos alguma saudade, depois de 3 anos, já só recordavam Rodrigo quando havia muitas notas negativas a matemática, mas depois... já nem isso.

Rodrigo estava por casa, escrevendo folhas sem fim, cuja qualidade era irrepreensível: dias e dias a escrever romances que incluíam sonetos, poemas, prosas, cartas, etc. E tão belos romances! As folhas soltas eram agrupadas por capítulos e estes por romances. Já tinha 4 ou 5 montes quando sentiu que já não podia mais; o seu médico avisara-o mas ele não lhe deu ouvidos... Agora, sentira um arrepio na coluna vertebral... tão forte que o deixou imóvel e quase não sentia a cabeça, também não sentia os membros inferiores. Com muito esforço telefonou para os bombeiros que passados alguns minutos estavam já com o Rodrigo a caminho do hospital...

Ficou internado... dias e dias... meses... quase dois anos...e nunca teve uma visita daquelas que vão lá de propósito, daquelas que lá vão, só para nos ver a nós.

Nem uma!

Só o capelão e umas senhoras que visitam todos os doentes que não têm visitas... e com estes Rodrigo falava pouco, mostrando um pouco de simpatia; mas não mais, só um pouco... afinal, era o que sentia por eles.


Rodrigo esperava pela noite para chorar sem que ninguém o ouvisse ou percebesse. De dia sentia o desespero e a angústia de não haver ninguém que o visitasse... ele que tão bom homem fora. Lembrava-se dos seus romances... mas nunca falou deles com ninguém.

A sua tristeza e solidão acabaram por o matar...

Morreu no dia 28 de Março de 1984 com uma coisa qualquer, um daqueles nomes que os médicos têm para dizer quando não sabem o que é, ou do que foi.

Morreu só e triste. Os seus romances, as folhas soltas em montes, foram para um caixote de lixo qualquer...Os seus romances, os romances mesmo... esses todos nós os ouvimos quando estamos sós e tristes.


Friday, July 28, 2006

Guilherme

Guilherme tinha acabado os seus estudos. Nunca teve uma namorada a sério... Nunca tinha sentido necessidade de alguém junto de si... o sexo oposto nunca o tinha atraído... tinha tido umas aventuras, mas o seu coração sempre foi seu... nunca o ofereceu a ninguém... só por palavras, mentiras...

Vivia sozinho numa casa onde nada faltava... a não ser um outro... e Guilherme começou a sentir a falta desse outro quando um dia a luz faltou... TV, Hi-Fi e tudo o resto silenciou-se... O silêncio teve então hipótese de ficar a sós com Guilherme... sentiu uma falta muito grande, a falta de algo... alguém!

Um dia resolveu acabar com o silêncio e procurar uma mulher para casar... viu muitas... falou com algumas... não gostou de nenhuma.

Quando chegou a casa pensou que tinha de ter calma, manter-se sereno... pois uma escolha apressada poderia estragar tudo.

Meses após meses Guilherme procurou com muita paz a mulher com quem casar, com quem dividir o que tinha... um alguém que lhe enchesse o que agora sentia tão vazio... mas era muito difícil... Ou eram comprometidas ou então não queriam nada com ele...

Manteve-se calmo... Trabalhava, dormia e procurava a mulher da sua vida... durante anos...

Cada vez mais o silêncio de sua casa lhe metia medo... então, uma noite, antes de adormecer, começou a pensar que afinal de contas ele até estava a viver uma vida boa... apesar de alguma frustração que lhe advinha do facto de não encontrar quem procurava... a sua vida até era, na sua globalidade, uma vida boa... não tinha atritos com ninguém, trabalhava honestamente e era recompensado de acordo com isto... muita gente o admirava e tinha até já servido de exemplo a muitos que se apressavam a procurar outro alguém... Guilherme costumava dizer: " Eu também procuro um outro alguém... mas com a paz de quem quer escolher bem... com a paz de quem vai acertar... com a paz de quem, mais cedo ou mais tarde, vai ser muito feliz porque encontrou o seu outro... e o ama."

Guilherme naquela noite viu que tudo em si até nem estava tão mau como às vezes sentia... por vezes sentia-se mergulhado num poço onde gritava e nem eco havia... porque o seu grito era de silêncio...

Por fim adormeceu...

Foi acordado na manhã seguinte por um cheiro a flores... uma senhora muito bela estava perto da sua cabeceira com um enorme arranjo de flores... ficou espantado... e teve que perguntar como é que ela tinha conseguido entrar...

Ela não lhe respondeu a essa pergunta, mas respondeu à outra que ele ainda não tinha feito:

"- Sou uma mulher que esperava alguém a quem dar o amor que tenho e guardo... sempre tive medo de procurar por medo de não acertar... por isso, simplesmente esperava... até que o vi. Os seus olhos mostraram-me uma paz que não tive dúvidas em ver em si aquele que eu esperava... passou algum tempo e cansei-me de esperar, resolvi procurá-lo e aqui estou... chamo-me Beatriz, tenho 32 anos, sou solteira e amo-o sem o conhecer... ..."

Guilherme nem acreditava... com a boca completamente aberta olhava Beatriz.. nem sabia o que pensar ou sentir... um sonho?! Não... Ela era loira e trazia o cabelo apanhado atrás, muito bem esticado... parecia ter 25 anos... era muito bela...mas... mas... se calhar era um sonho... ele não estava a compreender absolutamente nada... Por fim perguntou:

"- Beatriz... como consegue amar-me sem nada saber de mim, a não ser a forma como eu a olho e... pelos vistos a minha morada... pela minha boca nada sabe... nem sabe o que penso ou sinto por si!?"

Ela respondeu-lhe com serenidade dizendo:

"- Guilherme... desculpe-me mas vou-me embora, não porque esteja desiludida, mas porque me estou a sentir motivo de confusão... quando quis ser motivo de uma alegria de fusão... Desculpe-me... voltarei um outro dia..."

Guilherme agarrou-lhe na mão e disse:

"- Beatriz... não vá... amo-a... é você!!!"

Alguns dias depois já viviam juntos, como casados... só que não se beijavam nem trocavam palavras. Depois casaram e continuaram como estavam: sem beijos nem palavras, só o amor... só a sua forma bonita de amar...

Muitos anos mais tarde Beatriz não apareceu à hora do costume... Guilherme ficou muito preocupado, entretanto, tocou o telefone e uma voz lacónica perguntou se era o esposo de Beatriz, depois de responder afirmativamente, Guilherme ouviu a voz dizer-lhe que Beatriz tinha sofrido um desastre mortal, ele manteve-se calmo e desligou depois de saber o hospital, ou melhor, a morgue em que ela se encontrava e dirigiu-se para lá... Identificou-se e passados alguns momentos viu o cadáver de Beatriz... Chorou três lágrimas e depois foi para casa...

No enterro estava sozinho... Levou as pétalas das flores com que outrora Beatriz o tinha acordado e que tinha guardado todos aqueles anos... deitou-as por cima do caixão e foi para casa...

Guilherme veio a morrer num hospital da sua cidade... Morreu de velhice... Morreu porque o seu corpo não aguentava viver mais... o seu coração, a sua alma, esse era como sempre foi: Grande e Calmo.

Morreu... e foi sentar-se à cabeceira de uma cama onde Beatriz esperava calmamente por ele... o que ela não esperava era o beijo com que Guilherme a acordou..