Sunday, January 21, 2007

O Silêncio da Morte


No lugar da Morte a palavra falha, o silêncio ataca com uma invulgar intensidade. A morte é uma ausência que o silêncio preenche... O silêncio de um cadáver enche subitamente o mundo... O silêncio de quem assiste à morte é a marca da reticência em acreditar na imobilidade de mármore daquele de quem ainda se busca o olhar e cuja fala e escuta acabou há pouco.

Ao aproximar-se da morte a palavra torna-se ridícula. Os restos mortais de um homem são uma amálgama de silêncio, algo que se encontra no centro de uma série de círculos concêntricos que, à medida que se vão afastando, restituem à fala e ao murmúrio do mundo a sua soberania.

O minuto de silêncio visa simbolicamente uma suspensão dos acontecimentos do mundo. O recolhimento dos presentes é um mergulho na memória da sua relação com o defunto ou com a tragédia que se recorda. O fluxo de existência é provisoriamente parado em testemunho da dor sentida. O ritual é uma obrigação social em relação à lembrança, mantendo os corpos e as palavras na mesma postura. A comunidade como que imita a ausência para reviver mentalmente a presença do desaparecido, para o celebrar, para lhes dedicar uma oração...

Mas há sempre um diálogo com o defunto, fala-se com ele, interiormente ou em voz baixa, recorda-se com ele momentos especiais, lamentam-se os mal-entendidos, as ocasiões perdidas, os momentos em que se esteve esquecido de que um dia só lhe restaria recordar.

Uma incansável fala interior mantém viva a memória do outro, com o diálogo a prosseguir, no segredo de uma deliberação íntima. E o defunto pode ser sentido e pensado qual anjo que agora nos acompanhará e ajudará... continua a ser uma presença ligeira, que acompanha os acontecimentos do dia, a quem se pede um conselho, por quem se chama nos momentos em que a dor se torna mais difícil de suportar. Mas ainda nesta perspectiva paira sempre a dúvida acerca de se o outro nos ouve...

Qual feto em perpétua gestação, o outro jaz em nós... mas sempre em silêncio.

Monday, January 08, 2007

Ainda Sobre o Aborto – O Esquecimento dos Pais!


Gonçalo Pistacchini Moita é um dos meus melhores amigos, aqui segue um texto desse meu bom e admirável amigo acerca de uma das questões do momento, a saber, o referendo sobre o Aborto:


AINDA SOBRE O ABORTO – O ESQUECIMENTO DOS PAIS!

Muito se tem discutido sobre o aborto – e muito mal se tem discutido sobre o aborto. Não pretendo aqui resolver a questão. Parece-me, aliás, uma atitude de bom senso. O aborto, de facto, quando não é determinado pela natureza, é fundamentalmente uma questão familiar. É por isso que gostaria de chamar a atenção para um pequeno ponto que a ninguém tem preocupado durante todo este tempo em que o aborto tem sido revoltadamente discutido no nosso País: os direitos dos pais – entenda-se dos progenitores masculinos.

Na raiz deste esquecimento – e da má discussão que tem sido feita – está uma ideia errada e já antiga, com base na qual se tem formado a moderna sociedade ocidental: a ideia de que o indivíduo humano nasce como um ser já moralmente constituído, a partir do qual, por meio das associações que fatal ou felizmente realiza com os outros indivíduos humanos, se produz a sociedade dos homens. É o princípio do absolutismo e do totalitarismo, que não vêem no outro senão uma contrariedade ou uma mais valia com as quais o eu se depara na sua caminhada para a realização do espírito.

Ao contrário, como bem mostraram, aqui, na Península Ibérica, Vitoria, Cano, Fonseca, Molina, Suárez e outros, o indivíduo e a sociedade são realidades distintas, mas simultâneas e interdependentes. A moralidade, de facto, é algo que nasce do compromisso que livremente se estabelece entre duas ou mais pessoas, as quais somente nessa altura se constituem como seres morais, isto é, humanos.

Ao arrepio da proposta ibérica do início da modernidade, porém, filosoficamente mais rica e mais fecunda do que aquela que vingou, o eu absoluto de Descartes, de Hobbes, de Voltaire, de Rousseau, de Kant, de Hegel, de Marx, de Nietzche, exaltou o ser humano até à náusea com que foi depois absurdamente cantado por Camus e por Sartre. É aí que nos encontramos.

Ora, daqui advêm três problemas muito graves: em primeiro lugar, o esquecimento da realidade moral, considerada como mera construção humana; em segundo lugar, a inultrapassável luta entre as classes, as quais, não tendo um princípio comum, não podem verdadeiramente ser uma comunidade; em terceiro lugar, a imposição absoluta e arbitrária de um desses indivíduos, ou grupos, sobre os outros indivíduos, ou grupos, a qual pode ir desde a usurpação dos meios de produção até à aniquilação da própria vida.

É o que se passa, hoje, em Portugal, onde, relativamente à questão do aborto, foram absoluta e arbitrariamente afastados os pais – entenda-se: os progenitores masculinos. Se não vejamos: Em primeiro lugar, a discussão que temos observado não se apresenta como moral, tendo-se antes pretendido científica. Se fosse moral, aliás, teria necessariamente em consideração essa realidade óbvia da qual nasce, por vezes, uma criança, isto é, o casal, neste caso composto por um pai e por uma mãe.

Em segundo lugar, esquecida a realidade moral, instaura-se a luta de classes. Foi assim que esta questão se tornou numa guerra entre a esquerda e a direita, na qual se supõe que as pessoas de direita defendem os direitos da criança, atacando os da mulher, e as pessoas de esquerda lutam pelos direitos da mulher, aniquilando os da criança; discussão na qual, não só os pais não existem, como as mães e as crianças são resumidas numa questão ideológica.

Por último, ante o natural embaraço, perguntam-se honestamente as partes como hão-de sair desta luta? Mas, justamente, não há saída! Daí o lavar das mãos do referendo, no qual ambas esperam conseguir impor à outra a sua razão.

É estranho, porém, que, sendo esta uma questão há tanto tempo discutida, ninguém defenda algo que me parece tão absolutamente evidente, a saber: havendo ocasião para a realização de um aborto, a decisão, não sendo natural, deve caber, sempre que possível, aos pais – entenda-se: ao homem e à mulher que geraram um filho. É aí, com efeito, no seio familiar, que deve resolver-se o problema, sendo que só quando tal não for possível poderá a decisão recair sobre um só. E é nesse sentido que deve intervir o Estado, coagindo para que a decisão seja dos dois.

De outra forma, pergunto, que alternativa caberá aos pais – digo, aos progenitores masculinos –, para além do anormal silêncio ao qual se têm remetido, senão entrar também na guerra que se vai travando entre as partes, daí procurando tirar não mais do que vantagens próprias?

Então, perante os gritos das hostes de esquerda que afirmam que o corpo é da mulher, pelo que a decisão só a ela diz respeito, obriguemos o legislador a tirar as devidas conclusões. Para já, indicamos três:


Em primeiro lugar, que neste referendo só votem as mulheres, a quem unicamente diz respeito a decisão. Mais: que dessa decisão sejam excluídas as mulheres cujos corpos, por natureza ou por voto, não possam gerar filhos.

Em segundo lugar, que, a partir de agora, e independentemente dos resultados do referendo, os pais, ou melhor, os procriadores masculinos, não tenham quaisquer dos direitos e deveres que tradicionalmente lhes eram atribuídos sobre as crianças, não podendo, por isso, em caso de separação do casal, ser-lhes imputado o pagamento de uma pensão para o sustento daquelas, cuja existência, de facto, é da exclusiva responsabilidade das mães.

Por último, e ainda que acessoriamente, que seja imediatamente erradicado o dia do pai; que, consequentemente, se extinga também o do avô; e que, formalmente, se eleve à dignidade jurídica a conhecida expressão vai chamar pai a outro!


Gonçalo Pistacchini Moita



Saturday, December 23, 2006

Tadeu Antunes

Tadeu resolveu rumar para um país diferente onde, talvez aí, sua vida tomasse, também ela, um novo rumo.

Começou por arranjar um emprego daqueles onde só há vaga porque mais ninguém o quer fazer. Ganhava bem, relativamente ao que estava habituado. Todos os meses, e cada vez mais exausto, escrevia para os seus parentes,... sempre recebeu resposta.

Passado algum tempo, e devido à sua entrega total ao que fazia, foi promovido, para um daqueles cargos que ninguém mais quer ocupar porque dá demasiado trabalho... mas recebia mais e mais, e cada vez menos e menos escrevia para os seus. Tanto era o esforço que fazia que a sua casa só tinha uma cama... só trabalhava e dormia, também poupava.

Quase já só escrevia de 6 em 6 meses e na sua terra, não punha o pé haviam já 4 anos...

Foi mais uma vez promovido, agora sim, para um serviço daqueles em que já há concorrência, e trabalhou em favor da sua função com tal empenho que os seus superiores depois de terem começado a tratá-lo por Sr. Antunes, chegaram mesmo a agraciá-lo, não só monetariamente, como também em afecto... superficial, mas.... sempre foi alguma coisa!

Por esta altura já não escrevia aos seus parentes havia um ano. E nunca mais escreveu... arranjou uma namorada, pobre como ele o fora outrora na sua terra, e resolveu partilhar com ela o que tinha poupado: o carinho, o amor e também as suas notas e moedas...

Ela era boa rapariga, gostava dele, amava-o e respeitava-o. Resolveram casar-se porque o sentimento era recíproco. A lua-de-mel seria na terra de Tadeu... comprou-se um carro e fizeram-se as malas e aí estavam eles de alianças no dedo e na estrada rumo à pátria de Tadeu...

Inadvertidamente, aconteceu um acidente, um carro embatera num segundo, e este foi chocar com o carro dos recém-casados. Foi fatal para a esposa do Tadeu, a ele... nem um arranhão... que angústia, que tristeza profunda!

Tadeu foi enterrar a sua esposa à terra natal dela, vindo a saber, mais tarde, que a sua esposa guardava uma criança que lhe germinava dentro.


Depois resolveu voltar e fê-lo de imediato, regressou de avião, depois o comboio e eis que se encontra na sua terra, naquele sítio que o vira nascer, a sua terra...

Os montes ainda eram como os que tinha guardado na memória. Aqueles de quem ele se esquecera é que já não estavam lá, tinham morrido e... que angústia, que profunda tristeza! Que remorso e arrependimento enormes...

Tinha trabalhado tanto e, agora, no momento de partilhar... nada, nem esposa nem pais, nada... a sua família já não existia... o seu suor de nada tinha valido! Tinha sido tudo em vão!

Sentou-se, depois deitou-se... olhou para o nada e sentiu ali a solidão de ninguém se ter.

Partilhou, ou melhor, doou o que tinha poupado (o dinheiro) às crianças da terra, pagou uma escola e um jardim, ambos muito bonitos...

Mas, apesar de tudo isso, jamais deixou de ser só, extremamente só...

Os anos passavam devagar, tal como as lágrimas que dos olhos de Tadeu saiam todos os dias... devagar.

Viu partir jovens para o estrangeiro.

Viu-os voltar, por vezes casados...

Viu-se chorar por nunca ter sido membro de uma família, e não era só por isso que ele chorava, as lágrimas de Tadeu eram fruto de algo que não podia ser dito, pois tal sentimento não tem palavras que o agarrem. No entanto, Tadeu respondia sempre que chorava de saudade... não dizia era de quê...

Inadvertidamente aconteceu um acidente. Num dia de chuva, o telhado da casa onde Tadeu vivia ruiu, caindo-lhe em cima, mas ele... não morreu, o seu coração parava, o sangue saia-lhe do corpo, todo o seu organismo deixava de funcionar... e Tadeu, no seu último acto, disse:

-Trabalhei, sofri e chorei, agora vou morrer... tenho muito medo mas não há outra saída... ... Sinto em mim a saudade do tempo que nunca vivi. Saudade de mim, daquele eu que nunca fui e que sempre quis ser! Quero morrer mesmo assim!


Faleceu depois de uma última lágrima lhe percorrer o rosto... muito devagar e dolorosamente, como a vida.

Foi com muita alegria e surpresa que descobriu que a Morte abre a porta para outra vida e.... (como nas histórias infantis) Viveu. Finalmente viveu!

e Viveu feliz para Sempre.


Friday, December 22, 2006

Wissenschaftslehre nova methodo

Fichte
Wissenschaftslehre nova methodo


§3

[A actividade ideal e a actividade real]

[A44] A acção de auto-posição do eu é uma passagem do indeterminado ao determinado; devemos reflectir agora sobre a forma pela qual o eu procede para efectuar esta passagem.

1) Não se pode indicar aqui qualquer fundamento [para essa passagem]; estamos no limite de todos os fundamentos. Basta observar o que se vê aí. Qualquer um verá que não há qualquer mediação. O eu efectua essa passagem porque a efectua. Determina-se porque se determina.; Essa passagem tem lugar por um acto de liberdade absoluta que se funda a si mesmo; é uma criação ex-nihilo, a produção de alguma coisa que não existia, um começo absoluto. O indeterminado não contém o fundamento da determinação ulterior, porquanto [indeterminado e determinado] se suprimem mutuamente. No momento A, estou indeterminado, a minha essência está inteiramente suprimida na indeterminação. No momento B, sou determinado; há pois algo de novo; que provém de mim mesmo; a passagem efectua-se por um acto de liberdade fundado em si mesmo.

2) A actividade que se exterioriza [nesse acto de liberdade] deve ser chamada “actividade real”; o acto pela qual ela se exterioriza “acto prático”; o campo no qual ela se exterioriza “campo prático” . Já observámos esse acto e continuamos a observá-lo. A actividade pela qual o observamos deve ser denominada “actividade ideal”.

Eu, o que intuiciona, o que é activo idealizante, encontro agora esse acto de liberdade absoluta; mas não posso nem encontrá-lo, nem descrevê-lo, sem lhe opor alguma coisa. “Determino-me a mim mesmo” significa que elevo uma possibilidade à realidade, um poder ao acto. Eu determino o acto de auto-determinação por liberdade absoluta graças ao poder de me determinar por liberdade absoluta. “Poder” deve significar possibilidade de actividade, mas não se pode compreendê-lo sem estabelecer a lei de reflexão pela qual o conceito desse poder ganha forma. O poder não passa de actividade, intuicionada segundo uma outra perspectiva. Nenhum acto particular é intuicionado se não for explicado por um poder; o mesmo acontece com o acto da liberdade absoluta. Não há poder sem actividade, nem actividade sem poder: os dois formam uma unidade; simplesmente são considerados segundo diferentes perspectivas. Considerado como intuição, é actividade, enquanto considerado como conceito, é poder.

3) [B 48] A diferença clara entre actividade ideal e actividade real é fácil de indicar. A actividade ideal é uma actividade de repouso, um acto de pôr em repouso, consiste em perder-se no objecto, é uma intuição fixada no objecto.
A actividade real é uma actividade verdadeira, é um agir. [contém em si mesma o fundamento do seu ser-assim-determinado.] A actividade ideal pode igualmente estar em movimento, pode igualmente ser uma passagem, e, quando intuiciona a liberdade, ela é efectivamente essa passagem: de facto, a intuição não é essa passagem por ser intuição deve-o sim ao objecto que é intuicionado, no presente caso, à liberdade. No que intuiciona só há uma reprodução, uma cópia. A actividade ideal não tem em si mesma, como a actividade real, o fundamento do seu ser-determinado; por isso está em repouso. O fundamento da actividade ideal reside no real que tem diante de si.

As duas actividades não se deixam conceber senão por oposição [de uma à outra].

4) A actividade ideal e a actividade real devem, neste caso, ser determinadas ainda mais claramente uma em relação à outra.
A) [A 45] Não há actividade real do eu sem actividade ideal; de facto, a essência do eu consiste no acto de auto-posição; se a actividade do eu tem de ser real, ela deve existir pelo eu, mas é posta pela actividade ideal.

Atribuímos força ao objecto natural, mas não força em si, dado que o objecto natural não tem consciência. Só o eu tem força em si.
B) Inversamente, não há actividade ideal do eu sem actividade real. Uma actividade ideal é uma actividade posta pelo eu, apreendida de novo como objecto da reflexão e representada novamente pela actividade ideal; sem o que o eu se assemelharia a um espelho que por certo representa, mas que não se representa a si próprio. – Este ser-uma-vez-mais-objecto-da-actividade-ideal é postulado com o eu. Mas esta objectivação é produto da actividade real. Sem actividade real, nenhuma auto-intuição da actividade ideal é possível. Sem actividade real, a actividade ideal não teria nada, e se a actividade real não lhe desse alguma coisa, ela nada seria.

C) [B 49] Imperceptivelmente [preenchemos a lacuna] acima indicada: a consciência imediata não é de todo uma consciência, é um obscuro acto de auto-posição do qual nada resulta, uma intuição sem haver intuicionado. A questão de saber como é que o eu consegue sair da consciência imediata e formar em si a consciência encontra aqui a resposta. Se o eu é tomado como ser, a consciência imediata deve ser posta uma vez mais por liberdade absoluta. Este acto de se pôr diante de si por liberdade é livre, mas, com a condição do eu ser tomado como ser, é necessário.

A actividade ideal seria por consequência produto do poder prático, e este o fundamento existencial da actividade ideal. Mas é preciso ter cuidado para não os considerar como separados. O ideal é o subjectivo no prático, o que observa o prático, e como apenas existem coisas para o eu na medida em que ele as observa, só existe alguma coisa para o eu pela actividade ideal.

Eu que sou activo idealizante, eu afecto-me a mim mesmo. Eu sou indeterminado, torno-me determinado, eu faço-me tal, persigo-me e prendo-me a mim mesmo realizante. Visto que é um eu que se afecta a si mesmo, esta afecção é acompanhada da actividade ideal, da intuição, em suma, da consciência. Esta consciência, pelo facto de se tornar precisamente uma consciência, torna-se uma intuição de si mesma.

“A auto intuição é produto do poder prático” significa que no momento que eu [me] afecto “realiter”, eu observo-me; esta observação é auto-intuição.

5) Admite-se como estabelecido que nada há que não seja na consciência. Ora, vimos que não há consciência sem actividade real, sem liberdade absoluta. Tudo o que pode ser não o é senão com ela e por ela; sem ela, nada há.

Assim, a liberdade é o fundamento de todo o acto de filosofar, de todo o ser. Confia em a ti próprio, escolhe a liberdade, terás então uma base sólida.

[A 46] A consciência liga-se imediatamente à liberdade, e não há outra coisa à qual ela possa estar ligada; a liberdade é o objecto primeiro e imediato da consciência. Toda a consciência é qualquer coisa que recai sobre si. O senso comum reconhece-o [B 49] na expressão: estou consciente em mim mesmo de qualquer coisa. Se o eu fosse pensado apenas como sujeito, isso nada explicaria, seria necessário procurar um novo sujeito para este sujeito, e assim seguindo até ao infinito; o eu tem pois necessariamente de ser pensado como sujeito-objecto.

Mas de novo, um tal sujeito-objecto ideal nada explica, é necessário acrescentar-lhe algo que seja unicamente objecto em relação a esse sujeito e de que eu esteja consciente. Donde é que esse objecto é suposto provir? O dogmático afirma que ele é dado, ou, se se pretende ligar o criticismo ao dogmatismo, que a matéria é dada, mas isso nada explica, é um simples termo vazio, em vez do conceito.

O idealista diz que o objecto é feito; mas, assim formulada, esta resposta nada resolve igualmente; pois, ainda que o objecto seja um produto do eu enquanto ser realmente activo, o eu enquanto ser realmente activo não é um ser ideal, [por consequência] o produto do eu dotado de um agir causal seria, para aquilo [ele] que representa, dado, trazendo-nos de volta à posição dogmática. – O problema pode ser resolvido assim: o que intuiciona e o que faz são um e o mesmo. o que intuiciona observa o seu fazer. Não há objecto enquanto tal que seja imediatamente objecto da consciência, mas somente o fazer, a liberdade. A proposição: “O eu põe-se a si mesmo” tem dois sentidos inseparáveis, um sentido ideal e um sentido real, que estão ambos absolutamente reunidos no eu. Não há acto de pôr ideal sem auto-início real, e inversamente; não há auto-intuição sem liberdade, e vice-versa; de igual forma, sem auto-intuição, não há consciência.

Antes do acto da liberdade, não há nada; é com ele que tem origem tudo o que existe; mas não podemos pensar este acto senão como uma passagem de um estado anterior de determinabilidade à determinação. – Por conseguinte para diante ou para trás [que se desça para o determinado ou se suba para o determinável] obtemos a mesma coisa, simplesmente em dois aspectos [diferentes] e é este acto da liberdade que constitui o eixo. No entanto, o acto [da liberdade] não é ele próprio possível se não encontrar à sua direita a determinabilidade; a consciência imediata, e à sua esquerda o que deve ser produzido: o eu intuicionado; [a consciência imediata e o eu intuicionado] são inseparáveis, dependem ambos da liberdade absoluta.

[B51] Nenhum homem pode indicar o acto primeiro da sua consciência, pois cada momento é uma passagem da indeterminação à determinação e pressupõe por isso sempre um outro momento.

O que é propriamente primeiro realizante é a liberdade, mas, no pensamento, isto não pode ser estabelecido logo à primeira vista, por isso tivemos que primeiramente lançar nas pesquisas que aí nos levaram.

§3
Pensar-se-á que a passagem [do determinável ao determinado] (§2) tem o seu fundamento absoluto em si mesma; a acção [pela qual o eu efectua] esta passagem é denominada por essa razão “actividade real”; ela é oposta à actividade ideal que apenas reproduz a actividade real; por isso, [a actividade] do eu em geral é dividida em dois modos. Segundo o princípio da determinabilidade, não é possível pôr um agir real sem um poder real ou prático. Actividade real e actividade ideal são condicionadas e determinadas uma pela outra, uma não é sem a outra, e o que uma é não se deixa compreender sem a outra. Neste acto da liberdade, o eu torna-se objecto para si mesmo. Nasce uma consciência efectiva e esta constitui o ponto de partida ao qual se deve unir desde logo tudo o que, duma forma geral, deve ser objecto dessa consciência. Por conseguinte, a liberdade é o fundamento supremo e a condição primeira de todo o ser e de toda a consciência.



Thursday, December 14, 2006

Vasco Valente Cabral



Vasco era casado, estava doente e já era idoso há muito tempo. Eram pessoas humildes, mas a sua mulher estava sempre junto dele.

Houve um dia em que Vasco se sentiu muito pior, a sua mulher foi a correr à sua vizinha para que pelo telefone o médico fosse chamado... e lá veio...

Depois de fazer o seu diagnóstico o médico chamou D. Teresa e disse-lhe:

"- Dona Teresa, o senhor Vasco Valente está muito mal e não sei por quanto tempo vai ele aguentar... Desculpe-me esta dureza de palavras, mas a verdade é, por vezes, tremendamente áspera."


O médico saiu e ela chorou uma lágrima no caminho até ao quarto, antes de entrar limpou-a e, sorrindo, perguntou a Vasco se ele precisava de alguma coisa,

- Sim, ajuda-me a vestir o fato.


Era o seu único fato, o fato do casamento, o fato da missa, ... o fato da dignidade exterior.

Teresa, solicitamente, acedeu sem hesitar... com uma dor no coração vestiu-o a Vasco que, apesar das dores que o atormentavam, não se queixou nem com um só som de agonia.

Já com o fato completo vestido – colete e gravata incluídos - Vasco pediu-lhe para que Teresa o levasse à rua... ...mais uma vez respeitou e cumpriu o pedido do seu marido.

Era noite de lua nova e estava muito escuro... Vasco estava de pé, encostado a uma árvore e abraçou calmamente Teresa e murmurou-lhe:

"- Teresinha, foste uma companheira maravilhosa, quero muito agradecer-te do fundo do meu coração tudo o que por mim fizeste, mas agora... é tempo para um último pedido: entra em casa e reza por mim que vou morrer...

- Mas Vasco...

- Não faças mais nada... entra em casa e sem chorares pede a Deus que me aceite... que aceite o teu marido... vai e reza!!!"


Sem mais palavras nem trocas de olhares, ela entrou e cumpriu o que Vasco lhe pedira.

Ele desencostou-se da árvore e começou a caminhar... devagar, torto mas decidido... Lá ia, Vasco Valente com o seu fato, o único, o digno... continuou a caminhar até que sentiu que morreria dentro de poucos segundos... ergueu então os braços e, olhando o céu por entre as estrelas, exclamou:

- Meu Deus... leva-me daqui... peço-Te... bem vês que já estou contente só de Te saber a ouvires-me. Eu e a minha amada esposa precisamos de Ti agora... Vê a minha vida e saberás que nunca como hoje de Ti precisei... Mas para quê é que estou aqui a dizer estas coisas se Tu tudo sabes?... ...Leva-me Senhor...


Passaram alguns minutos e Vasco Valente Cabral foi levado... Em casa, Teresa, nesse momento, sentiu vontade de sorrir e sorriu...

Anos depois Vasco recebeu e aconchegou a sua Teresa com um abraço tão forte que o próprio Deus sentiu vontade de sorrir e sorriu... Enquanto, os que aqui, choravam a partida de Teresa... sentiram a verdade da saudade: ser apenas o amor requintado de quem espera, na certeza de que nem a própria morte separa quem gosta de se abraçar.







Enquanto escrevi isto, por vezes senti vontade de sorrir e... sorri!









Friday, December 01, 2006

Francisco Gonçalves



Francisco Gonçalves era pobre. Pobre.

Naquela noite decidira ir para a estrada; e ali estava ele, à beira de uma estrada onde sem cessar passavam carros e dentro dos carros gente, gente que não o via porque ele estava na berma.

Era um homem só... solitário... de alguma maneira triste com essa sua condição. Mas apesar do peso da sua solidão, ele tinha dentro de si algo que as vicissitudes do mundo material não lhe tinham conseguido roubar... Francisco guardava dentro de si a força e o brilho de um cometa.

Estava completamente escuro, não havia ali candeeiros e só a luz dos faróis permitia ver aquilo que havia para ver, ou seja, nada! Uns após outros incessantemente passam, os carros, que dentro de si trazem pessoas que dentro de si... pelos vistos, nada trazem!

Francisco está sentado junto à berma, quieto, silencioso... e a pensar no brilho e na força do cometa que vive dentro de si e que nada pode fazer com ele... absolutamente nada, pois o que se pode fazer com tal coisa em tal sítio!?... Nada!

Francisco é confrontado constantemente com o brilho artificial dos faróis dos carros... e fica ainda mais triste quando pensa que aquele brilho que vê na frente dos carros nada tem a ver com quem os conduz mas antes com a artificialidade dos automóveis e do código que os rege...

No meio destes pensamentos Francisco sente frio e fome como ainda não tinha sentido... mas, apesar disso, o sentimento do cometa, que não se consegue exteriorizar, é irracionalmente mais forte do que a fome e o frio. Francisco Gonçalves pensa então na morte e na sua possibilidade real em si... quer morrer mas deixar no mundo algo que traz consigo e de que não é responsável pela sua presença ali, dentro de si. Francisco queria muito emanar o cometa.

As luzes não se cansavam de atingir a cara do pobre... que hoje se sentia ainda mais pobre... tão pobre que não tinha capacidade de deixar no mundo uma riqueza que tinha consigo... ele estava pobre... Francisco Gonçalves era rico mas estava pobre... Francisco Gonçalves sempre foi rico mas sempre esteve pobre.

Levantou-se e começou a caminhar... não sabia onde ia, tão pouco sabia porque se tinha levantado do chão... caminhava na direcção dos carros, agora ele também ia para onde eles iam. Não tinha luzes, mas as artificiais dos outros serviam, agora até serviam para alguma coisa, além de que já não incomodavam. Não sentia fome nem frio.

Ao longe pareceu-lhe ver um homem sentado à beira da estrada, acelerou o passo... e o outro estava mesmo lá... não tinha sido ilusão... Era um homem muito triste e estava muito triste... era e estava... Francisco intui-o de imediato, e interpelou-o:

- Quem és e o que tens?

- Sou o pessimismo e sofro...

- Sofres por seres pessimista?

- Não... sofro somente e daí advém o pessimismo...

- Talvez a razão do teu sofrer seja a de que não tens luz dentro de ti...

- Dentro de mim há como que um buraco negro... toda a luz que sinto, absorvo, dissolvo e desaparece!

- Que fazes aqui?

- O mesmo que tu fazias há pouco ali em baixo... penso e sinto...

- Como sabes?

- Fui até lá... mas não tive coragem de te ir falar... porque tenho fome e se tivesses algo que comer irias pensar que te tinha ido falar só por interesseirice...

- Também tenho fome...

- ... não tenho nada para te dar...


Conversaram então acerca do buraco negro de um e do cometa do outro, seguiu-se um silêncio enorme... e Francisco Gonçalves estava prestes a morrer, quando pensou em libertar a luz e a força que existia dentro de si... Beijou o seu companheiro de estrada que dormia e deixou-se morrer, tendo consigo a grande felicidade de um dia ter feito algo por outro alguém, de ter conseguido fazer o seu cometa sair...

Morreu

O outro quando acordou, chamou Francisco mas logo se apercebeu de que ele havia morrido!

Decidiu que, embora as forças o pudessem vir a trair, iria enterrar o seu "amigo". Era madrugada cedo e Francisco Gonçalves foi mandado para uma vala e coberto com a areia possível...

O outro reparou então no Sol, na sua luz, que tão alto estava, que calor emanava, sentiu uma coisa muito estranha... já não sentia o buraco negro... não sabia viver assim, era algo completamente novo... que fazer?!

A fome tomou-o, tornando-o exausto... completamente exausto. Sentou-se na beira da estrada e, algum tempo, depois empregando todas as forças que lhe restavam atirou-se para o meio da estrada... Morreu quando um camião enorme o projectou muitos metros...

O que sentiu não foi um choque mas um beijo carregado de luz...
...

- ...

- Olá Francisco Gonçalves!

- Olá... come, come... há aqui comida que vai chegar para todos os pobres do mundo!!!

Saturday, November 11, 2006

Tomás



Tomás era idoso... velho... vivia numa aldeia que já não o era... só lá vivia ele... os outros... ou tinham ido para as cidades, ou tinham morrido.

Tomás era o último, vivia a vida de um homem só, completamente só...

Em tempos tinha sido famoso pela maneira como escrevia e falava... Foi casado com uma mulher... mas ela estava longe... longe demais.

Agora falava sozinho e escrevia para si mesmo... sentia-se diferente quando se ouvia ou lia o que tinha escrito... Era a única maneira de se sentir acompanhado... Precisava muito de comunicar e como estava só, fazia-o em duas fases: na primeira escrevia ou falava; na segunda lia ou escutava...

Começou a perceber uma coisa muito importante... quando falava e queria ouvir-se como se tratasse de um outro Tomás, só conseguia ser ou o que falava ou o que ouvia... não conseguia fazer ambas as coisas simultaneamente com igual rigor...

Quando escrevia era diferente... sentia-se ainda mais só... pois o diálogo que ele pretendia instituir não resultava... no fundo era uma ilusão enorme. Quando falava, ou falava ou ouvia... quando escrevia não lia e quando lia não podia escrever.

Tomás estava convicto de que precisava falar, ouvir, escrever e ler... pois à falta de melhor para combater a solidão que o ia pisando, restava-lhe isto... Por isso escondia-se atrás da pretensão de se conhecer a si mesmo...

No momento em que percebeu, lendo uma das suas coisas, que estava a ser o maior aliado do inimigo, daquele inimigo que pretendia abater... parou... não mais falou, ouviu, escreveu ou leu alguma coisa.

Compreendeu que o medo de estar só é tremendamente pior que a própria solidão...

Queimou todos os papéis e esqueceu todas as suas palavras, depois lembrou-se que tinha alguns livros em casa e também os queimou. Era uma fogueira alta.

Pensou em como podia lutar contra a solidão e entendeu por bem esperar... só esperar... esperar...

A sua espera durou uns três anos... mas Tomás nunca desesperou... pois a sua esperança era suficientemente grande para superar qualquer desespero...

Quando fechava os olhos via... via uma pessoa, uma outra pessoa... via-se a falar consigo, não a ouvia, apenas via...

Morreu...





Hoje, quando alguém que está só, fecha os olhos e ouve-o, ouve Tomás... não o vê... apenas o ouve... ouve as cinzas dos papéis de Tomás caírem no chão depois de voarem muito tempo e ouve palavras esquecidas:
Espera... não tentes combater... espera... amanhã virá alguém, talvez uma princesa lindíssima, ou simplesmente a morte... Esperei e veio a segunda levar-me para perto da primeira... Confesso que apesar de não saber como é... é ainda mais belo se a princesa chegar primeiro do que a morte... Olha... espera... lembra-te que não tens em ti a tua razão de ser... de seres assim... Espera pois, e pede, sonhando outro alguém... e como um mendigo que estende a mão a quem passa... como ele, não esperes que de cada pessoa que passe venha uma esmola... Pede... pede sempre... não te bastes a ti... se te tentares saciar contigo mesmo... morrerás só... e a princesa não estará no fim da morte.!!!

Saturday, November 04, 2006

Tributo a um Amigo



A morte não é o fim.

Eu só fui para o quarto ao lado.

Eu sou eu, vós sois vós.

O que nós éramos, uns pelos outros, seremos para sempre.

Dêem-me o nome que sempre me deram.

Falem-me como sempre o fizeram.

Não empreguem um tom de voz diferente, nem tenham um ar solene ou triste.

Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim, rezem por mim.

Que o meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de qualquer tipo, sem sombra de escuridão.

A vida continua a significar tudo aquilo que sempre significou.

Ela é o que sempre foi. O fio não foi cortado.

Por que motivo ficaria eu de fora dos vossos pensamentos, lá por estar fora da vossa vida?

Eu guardo-vos e fico por perto: ali do outro lado do caminho.

Estão a ver, Está tudo bem.


Charles Péguy

Tuesday, October 24, 2006

Filosofia Sensível


Eis a Filosofia Sensível:

Eu sou muito importante. Vivendo e pensando só consigo sentir-me a mim próprio. Sou importante porque estas mãos que agora escrevem neste papel são preciosas... para além de serem únicas e insubstituíveis obedecem-me na perfeição, são um óptimo meio que possuo. Como as minhas mãos, todo o meu corpo é, para mim, a minha casa, o meu lar. O proprietário, o eu, é, ou melhor, sou alguém que eu próprio desconheço. Cada dia que passa observo-o(-me) em busca de algo que dissipe o mistério que para mim sou.

O outro é importante. Há outros, como eu e a minha casa. Consigo gostar deles, e das suas casas. Procuro até um outro que me ame e que eu o consiga amar a ele também...Sonho envelhecer com ele numa só casa.

Deus é o mais importante. Ele sabe quem sou. Ama-me, apesar de me conhecer perfeitamente. O PAI-NOSSO criou-me e ficou dentro de mim, fez esta minha casa. Há quem não acredite em Deus mas, para esses eu juro que Ele existe, em mim e fora de mim. Tal como na aparência de um fio de telefone não se vislumbram os milhões de palavras que passam a cada segundo por ele...e palavras que têm milhões de sentimentos por detrás de si, também é preciso saber qualquer coisa, para conseguir encontrar o Pai-Nosso.

O pensamento anda virgem de relações sentimentais. Estou farto de filósofos, de Tales a Ricouer, são quase todos uma espécie de semideuses, que expulsam da Filosofia o coração que bate na lareira de nossas casas. Possuem vãs filosofias, são bonecos de barro sem sopro.

Em mim, a razão ama o sentimento, outros há cuja razão se chama Narciso. A Filosofia difere dos filósofos como a Música dos músicos.

A Filosofia é uma festa para todos, apesar de alguns insistirem em reclamá-la só para si.

Friday, October 06, 2006

Há Quem Sofra...



foi um telefonema a meio da tarde...

de muito muito longe,

de alguém que se lembrava de mim
apesar de tudo...

de uma gentileza absolutamente incomum...


talvez nunca como hoje tenha sentido isto.

Já o pensei, sem o ter sentido.


Hoje, por este nosso mundo
há quem prefira viver noutro,
sem dores
nem fome
nem tendo a morte como sua enfermeira.


Hoje compreendo que os heróis
são os que sofrendo,
sorriem…
e não os outros,
que sorriem por se terem furtado à dor.


Há mais herói na dor profunda.


O mais implacável dos meus inimigos
é a carne que me suporta.

E, há quem não escreva mas tenha muito para ensinar.
Que Deus dê força a todos estes fortes que,

hoje,

lutam contra a fraqueza do homem que são,
a sua corporeidade,

circunstância,

enfim, o ser de que são feitos.

Que hoje e sempre o Divino fortaleça os que neste mundo
não têm o mundo que merecem.


um grande abraço a quem nunca lerá isto que para si escrevi.