Saturday, February 03, 2007

Prefácio ao Diário do Sedutor de Kierkegaard

O grande filósofo dinamarquês, Sören Aabye Kierkegaard, viveu intensamente a sua obra; cada livro é um pedaço da sua vida, um farrapo da sua alma.

Sobre toda a sua vida, animada de um espírito impregnado de uma filosofia profundamente religiosa, pesa para todo o sempre um anátema. O pai, um dia, simples pastor na Jutlândia, maldisse a sua sorte, amaldiçoou Deus; e ao voltar para Copenhaga, rico, por um acaso, o remorso de ter ofendido o Senhor, influiu poderosamente na sua alma religiosa de pastor.

Daí veio uma imensa melancolia, transmitida ao filho, Sören, que ainda mais se agravou quando este veio a conhecer a tragédia espiritual do pai. E fez-se um triste.

Um dia, porém, um raio de luz veio iluminar-lhe a existência. Sören amou profundamente Regina Olsen, espírito oposto ao seu, toda vida e alegria; esta alegria ainda mais lhe exacerbou o seu fundo de tristeza. Na alma travou-se-lhe uma luta entre o seu amor e a sua melancolia; esta venceu e ele tornado um melancólico cerebral, viu que não tinha o direito de sacrificar para sempre a existência de uma rapariga toda vida, mocidade, saúde.

Por isso, passado um ano de luta desfez o casamento já anunciado a todos. E para se justificar escreveu o livro "Diário do Sedutor". Era um livro para ela, para que o lesse e lhe perdoasse o muito que a tinha feito sofrer. Recalcou no íntimo do peito a veemência do seu amo; e fingiu-se um egoísta, que apenas quis, friamente, por uma questão estética, brincar com a felicidade de uma rapariga. E chegaria a ser revoltante, a sua gélida ironia, se não se adivinhasse através deste livro, quanto ele devia ter sofrido...

Daí em diante a sua actividade literária foi extraordinária; escreveu por necessidade, como que para desabafar. Deixou uma obra colossal, toda repassada da sua originalíssima filosofia. Os seus inúmeros escritos, a maior parte sob pseudónimos, são a ilustração da sua filosofia: cada personagem é uma ideia, cada livro a confirmação prática do seu sistema.

Por isso o mundo dos seus personagens é um mundo estranho, de névoa, misto de verdade e paradoxo. Ao ler-se a sua obra, disseminadíssima, mas obedecendo ao plano geral da sua Ideia, fica-se como que fulminado, pelo arrojo das concepções, pela variedade de pensamentos, pela sua prosa bizarra, ora grandiosa e empolada, ora simples, como prosa para crianças. Umas vezes é obscuro nas suas imagens, pedaços do seu pensamento íntimo que se revelam, incompreensíveis para nós; outras vezes, serve-se de assuntos banalíssimos, quase ridículos, para ilustrar os mais elevados problemas da sua filosofia.

Desta, difícil será dar uma pálida ideia neste lugar; referir-me-ei apenas à parte de que o “Diário do Sedutor” é, por assim dizer, a ilustração.

Entre os vários estádios que ele reconhece no caminho da vida, o primeiro é o estético. O homem deve tirar da vida todo o partido possível, para viver sob um ponto de vista estético; deve tirar dela apenas o que ela encerra de interessante; necessita para isso de moldar os indivíduos e as situações à imagem do seu ideal estético.

A primeira condição para obter este fim é a liberdade absoluta: nada de prisões. É necessário viver a vida fora dela; passar como uma rajada de vento, que tudo envolve, que tudo arrasta e faz girar a seu bel-prazer, e em seguida desaparecer em busca de novas sensações. Conseguido o ideal estético numa determinada situação, o interesse desapareceu. Por isso o "Sedutor" vai pela vida adiante, moldando nas formas requintadas do seu capricho de esteta a feminilidade tornada plástica das suas vítimas.

Não é, pois, um sedutor na acepção vulgar da palavra. É um artista do amor. Busca em cada mulher o que ela lhe pode dar de interessante: nesta um olhar, naquela um sorriso, noutra a forma graciosa de saudar. Não se serve de mentiras, dessas mentiras vulgares com que se seduz normalmente uma alma ingénua de rapariga. Tudo o que faz é por vontade delas. Se promete casamento a Cordélia Whal, a heroína fictícia deste livro, é porque sabe que há-de ser ela própria quem o desligará da sua promessa, porque ele há-de levá-la a querer amá-lo com a máxima liberdade infiltrando-lhe no espírito a única, a verdadeira maneira de amar e de ser amado - na mais absoluta liberdade - fora de qualquer preocupação de ordem ética, fora dos convencionalismos sociais, portanto. "O amor ama o mistério - estar-se noivo é um bando; o amor ama o balbuciar submisso - estar-se noivo é um pregão" - diz ele numa das suas cartas à sua vítima.

Cordélia Whal vê de repente abrir-se-lhe um horizonte novo - assim é que deve ser o amor verdadeiro, livre como o pensamento, e como o pensamento entregue só à criatura amada.

Regina Olsen, por muito que o amasse, nunca poderia ser completamente livre - e o matrimónio é uma prisão. Por isso ele a abandona; por isso o seu amor, ansioso de liberdade, se estiola e morre na perspectiva de uma prisão de carácter ético.

É esta a sua justificação.

Regina não o compreendeu; suplicou-lhe que não a abandonasse; ele ficou mudo, inflexível, cruel para ela, muito mais cruel para si próprio.

E acabou tudo; a maldição herdada de seu pai, tinha-lhe obscurecido a única claridade, que suavemente lhe poderia ter iluminado a vida.

O anátema tinha-se cumprido...

Thursday, January 25, 2007

A Solidão como Abrigo

Da leitura que fiz dos Sermões antonianos, um dos temas que mais me fascinou foi, sem dúvida, o tema da solidão, daí: A Solidão como Abrigo.

Santo António apresenta o tema da solidão a par de outros temas ou conceitos como: nudez, desnuamento, pobreza, simplicidade, silêncio ou vazio, mas o título desta comunicação apenas pretende explicitar a aparente paradoxalidade do pensamento antoniano em relação à tarefa essencial do homem rumo a Deus: a de se aproximar d'Ele pelo esvaziamento da alma, a de estar no mundo estando abrigado do que nele existe.

O homem deve libertar-se de cogitações e afeições mundanas afim de alcançar uma solidão que não é senão a pureza de espírito necessária à concretização daquilo porque suspira: a contemplação de Deus. Este esvaziamento é a única forma que a alma dispõe para que Deus nela habite, dado que Ele só entra quando tudo está vazio, quando, fruto da nossa fé, de tudo prescindimos.

A solidão antoniana é um estado que pressupõe o abandono das coisas e em que resta apenas um movimento, uma devoção: o amor a Deus. Sentimento este que leva, se for aceite até ao fim, a uma paz desértica, pois tendo sido aniquilados os elementos mundanos e temporais como apetites, preocupações e paixões, nada mais resta que não a pureza/pobreza de quem nada tem a não ser a vontade de ser com Deus.

Santo António alerta para a necessidade de radicalidade no acto da entrega. Assim, devemos não só abdicar dos deleites/imperfeições humanas, como também devemos oferecer a Deus tudo quanto de bom tenhamos acumulado. O esvaziamento é total, mas a opção é clara: ou optamos pelo ter e nada somos; ou queremos ser verdadeiramente, e então despojamo-nos de tudo o que encontrámos neste mundo.

A região da dissemelhança não é algo de novo em Santo António, mas ele usa esta expressão várias vezes, afim de, caracterizar o mundo em que o pecado faz com que o homem perca a original semelhança com o seu Criador. Ora, o homem virtuoso é bom e, por isso, semelhante a Deus. A virtude de que aqui se trata é a norma de vida dos que são humildes, dos pobres de espírito, daqueles que até o pó deste mundo, que se lhes fica pegado aos pés, sacodem (Lc. 10, 11). Deste mundo de ter e poder, os humildes, abrigam-se na solidão de quem visa entregar-se, só e totalmente, a Deus.

Só despido de vícios se pode ser puro, bem como, só o reconhecimento das próprias faltas pode levar ao conhecimento profundo do nosso ser e à reconciliação com Deus. Só abrigado na solidão se pode estar imune aos maus e mundanos pensamentos e assim, estar em paz. Não se considere a solidão como um esconderijo ou uma fuga, mas antes, como um abrigo onde pela pureza da sua alma o homem pode ambicionar ser feliz. Ser feliz, é estar-se plenamente preenchido, e isto sucede quando, depois de esvaziada a alma, Deus nela fala e descansa. Só a alma do humilde pode ser este lugar que Jesus Cristo, na sua vida, não teve para recostar a cabeça.

O solitário é bom mas pensa-se completamente inútil e inferior a todos os outros. Abdicou de tudo, lavou a sua alma, apagando o próprio espírito em favor da luz de Deus, que em lugar dele pode brilhar, e nada mais tem senão a vontade profunda de não ter outra vontade que não a de Deus.

A quietude que se encontra nesta solidão é fruto de uma concentração da alma, de um recolhimento em si mesma, onde, longe do pecado ela se pode tornar pura, e pura, porque vazia e apta a ser recompensada pela contemplação de Deus, prémio da fé que a levou a ousar tanto.

O desprezo pelo mundo tem sentido se for por amor a Deus. Sigamos pois Jesus Cristo. Entreguemos tudo, tudo, até o nosso próprio espírito nas mãos d'Aquele que, por amor a nós, entregou o seu, preterindo-se a si mesmo em nosso favor.

Esta simples perfeição, de se ser só, nu e vazio, é o apelo de Santo António, que nos prega a capacidade deificadora da solidão, da nudez e do esvaziamento da alma.

Cumpre-me, muito pessoalmente, prestar aqui uma homenagem ao trabalho do Professor Gama Caeiro em torno de Santo António. Foram os seus estudos que me introduziram no pensamento antoniano, é a sua obra Santo António de Lisboa (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2 vol.) que subjaz a tudo quanto acima foi dito. Dele só conheço aquilo que já tive oportunidade de ler (dado que nunca conheci pessoalmente o Professor Gama Caeiro) mas, e talvez por isso mesmo, deva aqui partilhar aquilo com que me deparei durante o meu estudo: Gama Caeiro é capaz de fazer passar não só as ideias, os conceitos abstractos, como também o testemunho; não só o pensamento de Santo António como também a própria presença deste que aqui estamos a homenagear. E tudo isto com o simples, ou talvez muito complexo, recurso que é a linguagem escrita. Talvez esta comunicação, resultado do meu estudo, nada vos tenha trazido de novo, mas que então fique assente que este aluno, ou melhor, este leitor é que de nada vale.

Antes do adeus, resta-me agradecer o convite à organização deste congresso, é para mim, como deveis calcular, uma das maiores honras que já tive oportunidade de ser alvo. É que o facto de daqui estar a falar-vos (mais de duas mil pessoas versadas em Filosofia), significa possuir o estatuto de filósofo. A Deus o agradeço. A-Deus.

Comunicação ao Congresso Internacional Pensamento e Testemunho
Porto, Outubro de 1996


Sunday, January 21, 2007

O Silêncio da Morte


No lugar da Morte a palavra falha, o silêncio ataca com uma invulgar intensidade. A morte é uma ausência que o silêncio preenche... O silêncio de um cadáver enche subitamente o mundo... O silêncio de quem assiste à morte é a marca da reticência em acreditar na imobilidade de mármore daquele de quem ainda se busca o olhar e cuja fala e escuta acabou há pouco.

Ao aproximar-se da morte a palavra torna-se ridícula. Os restos mortais de um homem são uma amálgama de silêncio, algo que se encontra no centro de uma série de círculos concêntricos que, à medida que se vão afastando, restituem à fala e ao murmúrio do mundo a sua soberania.

O minuto de silêncio visa simbolicamente uma suspensão dos acontecimentos do mundo. O recolhimento dos presentes é um mergulho na memória da sua relação com o defunto ou com a tragédia que se recorda. O fluxo de existência é provisoriamente parado em testemunho da dor sentida. O ritual é uma obrigação social em relação à lembrança, mantendo os corpos e as palavras na mesma postura. A comunidade como que imita a ausência para reviver mentalmente a presença do desaparecido, para o celebrar, para lhes dedicar uma oração...

Mas há sempre um diálogo com o defunto, fala-se com ele, interiormente ou em voz baixa, recorda-se com ele momentos especiais, lamentam-se os mal-entendidos, as ocasiões perdidas, os momentos em que se esteve esquecido de que um dia só lhe restaria recordar.

Uma incansável fala interior mantém viva a memória do outro, com o diálogo a prosseguir, no segredo de uma deliberação íntima. E o defunto pode ser sentido e pensado qual anjo que agora nos acompanhará e ajudará... continua a ser uma presença ligeira, que acompanha os acontecimentos do dia, a quem se pede um conselho, por quem se chama nos momentos em que a dor se torna mais difícil de suportar. Mas ainda nesta perspectiva paira sempre a dúvida acerca de se o outro nos ouve...

Qual feto em perpétua gestação, o outro jaz em nós... mas sempre em silêncio.

Monday, January 08, 2007

Ainda Sobre o Aborto – O Esquecimento dos Pais!


Gonçalo Pistacchini Moita é um dos meus melhores amigos, aqui segue um texto desse meu bom e admirável amigo acerca de uma das questões do momento, a saber, o referendo sobre o Aborto:


AINDA SOBRE O ABORTO – O ESQUECIMENTO DOS PAIS!

Muito se tem discutido sobre o aborto – e muito mal se tem discutido sobre o aborto. Não pretendo aqui resolver a questão. Parece-me, aliás, uma atitude de bom senso. O aborto, de facto, quando não é determinado pela natureza, é fundamentalmente uma questão familiar. É por isso que gostaria de chamar a atenção para um pequeno ponto que a ninguém tem preocupado durante todo este tempo em que o aborto tem sido revoltadamente discutido no nosso País: os direitos dos pais – entenda-se dos progenitores masculinos.

Na raiz deste esquecimento – e da má discussão que tem sido feita – está uma ideia errada e já antiga, com base na qual se tem formado a moderna sociedade ocidental: a ideia de que o indivíduo humano nasce como um ser já moralmente constituído, a partir do qual, por meio das associações que fatal ou felizmente realiza com os outros indivíduos humanos, se produz a sociedade dos homens. É o princípio do absolutismo e do totalitarismo, que não vêem no outro senão uma contrariedade ou uma mais valia com as quais o eu se depara na sua caminhada para a realização do espírito.

Ao contrário, como bem mostraram, aqui, na Península Ibérica, Vitoria, Cano, Fonseca, Molina, Suárez e outros, o indivíduo e a sociedade são realidades distintas, mas simultâneas e interdependentes. A moralidade, de facto, é algo que nasce do compromisso que livremente se estabelece entre duas ou mais pessoas, as quais somente nessa altura se constituem como seres morais, isto é, humanos.

Ao arrepio da proposta ibérica do início da modernidade, porém, filosoficamente mais rica e mais fecunda do que aquela que vingou, o eu absoluto de Descartes, de Hobbes, de Voltaire, de Rousseau, de Kant, de Hegel, de Marx, de Nietzche, exaltou o ser humano até à náusea com que foi depois absurdamente cantado por Camus e por Sartre. É aí que nos encontramos.

Ora, daqui advêm três problemas muito graves: em primeiro lugar, o esquecimento da realidade moral, considerada como mera construção humana; em segundo lugar, a inultrapassável luta entre as classes, as quais, não tendo um princípio comum, não podem verdadeiramente ser uma comunidade; em terceiro lugar, a imposição absoluta e arbitrária de um desses indivíduos, ou grupos, sobre os outros indivíduos, ou grupos, a qual pode ir desde a usurpação dos meios de produção até à aniquilação da própria vida.

É o que se passa, hoje, em Portugal, onde, relativamente à questão do aborto, foram absoluta e arbitrariamente afastados os pais – entenda-se: os progenitores masculinos. Se não vejamos: Em primeiro lugar, a discussão que temos observado não se apresenta como moral, tendo-se antes pretendido científica. Se fosse moral, aliás, teria necessariamente em consideração essa realidade óbvia da qual nasce, por vezes, uma criança, isto é, o casal, neste caso composto por um pai e por uma mãe.

Em segundo lugar, esquecida a realidade moral, instaura-se a luta de classes. Foi assim que esta questão se tornou numa guerra entre a esquerda e a direita, na qual se supõe que as pessoas de direita defendem os direitos da criança, atacando os da mulher, e as pessoas de esquerda lutam pelos direitos da mulher, aniquilando os da criança; discussão na qual, não só os pais não existem, como as mães e as crianças são resumidas numa questão ideológica.

Por último, ante o natural embaraço, perguntam-se honestamente as partes como hão-de sair desta luta? Mas, justamente, não há saída! Daí o lavar das mãos do referendo, no qual ambas esperam conseguir impor à outra a sua razão.

É estranho, porém, que, sendo esta uma questão há tanto tempo discutida, ninguém defenda algo que me parece tão absolutamente evidente, a saber: havendo ocasião para a realização de um aborto, a decisão, não sendo natural, deve caber, sempre que possível, aos pais – entenda-se: ao homem e à mulher que geraram um filho. É aí, com efeito, no seio familiar, que deve resolver-se o problema, sendo que só quando tal não for possível poderá a decisão recair sobre um só. E é nesse sentido que deve intervir o Estado, coagindo para que a decisão seja dos dois.

De outra forma, pergunto, que alternativa caberá aos pais – digo, aos progenitores masculinos –, para além do anormal silêncio ao qual se têm remetido, senão entrar também na guerra que se vai travando entre as partes, daí procurando tirar não mais do que vantagens próprias?

Então, perante os gritos das hostes de esquerda que afirmam que o corpo é da mulher, pelo que a decisão só a ela diz respeito, obriguemos o legislador a tirar as devidas conclusões. Para já, indicamos três:


Em primeiro lugar, que neste referendo só votem as mulheres, a quem unicamente diz respeito a decisão. Mais: que dessa decisão sejam excluídas as mulheres cujos corpos, por natureza ou por voto, não possam gerar filhos.

Em segundo lugar, que, a partir de agora, e independentemente dos resultados do referendo, os pais, ou melhor, os procriadores masculinos, não tenham quaisquer dos direitos e deveres que tradicionalmente lhes eram atribuídos sobre as crianças, não podendo, por isso, em caso de separação do casal, ser-lhes imputado o pagamento de uma pensão para o sustento daquelas, cuja existência, de facto, é da exclusiva responsabilidade das mães.

Por último, e ainda que acessoriamente, que seja imediatamente erradicado o dia do pai; que, consequentemente, se extinga também o do avô; e que, formalmente, se eleve à dignidade jurídica a conhecida expressão vai chamar pai a outro!


Gonçalo Pistacchini Moita



Saturday, December 23, 2006

Tadeu Antunes

Tadeu resolveu rumar para um país diferente onde, talvez aí, sua vida tomasse, também ela, um novo rumo.

Começou por arranjar um emprego daqueles onde só há vaga porque mais ninguém o quer fazer. Ganhava bem, relativamente ao que estava habituado. Todos os meses, e cada vez mais exausto, escrevia para os seus parentes,... sempre recebeu resposta.

Passado algum tempo, e devido à sua entrega total ao que fazia, foi promovido, para um daqueles cargos que ninguém mais quer ocupar porque dá demasiado trabalho... mas recebia mais e mais, e cada vez menos e menos escrevia para os seus. Tanto era o esforço que fazia que a sua casa só tinha uma cama... só trabalhava e dormia, também poupava.

Quase já só escrevia de 6 em 6 meses e na sua terra, não punha o pé haviam já 4 anos...

Foi mais uma vez promovido, agora sim, para um serviço daqueles em que já há concorrência, e trabalhou em favor da sua função com tal empenho que os seus superiores depois de terem começado a tratá-lo por Sr. Antunes, chegaram mesmo a agraciá-lo, não só monetariamente, como também em afecto... superficial, mas.... sempre foi alguma coisa!

Por esta altura já não escrevia aos seus parentes havia um ano. E nunca mais escreveu... arranjou uma namorada, pobre como ele o fora outrora na sua terra, e resolveu partilhar com ela o que tinha poupado: o carinho, o amor e também as suas notas e moedas...

Ela era boa rapariga, gostava dele, amava-o e respeitava-o. Resolveram casar-se porque o sentimento era recíproco. A lua-de-mel seria na terra de Tadeu... comprou-se um carro e fizeram-se as malas e aí estavam eles de alianças no dedo e na estrada rumo à pátria de Tadeu...

Inadvertidamente, aconteceu um acidente, um carro embatera num segundo, e este foi chocar com o carro dos recém-casados. Foi fatal para a esposa do Tadeu, a ele... nem um arranhão... que angústia, que tristeza profunda!

Tadeu foi enterrar a sua esposa à terra natal dela, vindo a saber, mais tarde, que a sua esposa guardava uma criança que lhe germinava dentro.


Depois resolveu voltar e fê-lo de imediato, regressou de avião, depois o comboio e eis que se encontra na sua terra, naquele sítio que o vira nascer, a sua terra...

Os montes ainda eram como os que tinha guardado na memória. Aqueles de quem ele se esquecera é que já não estavam lá, tinham morrido e... que angústia, que profunda tristeza! Que remorso e arrependimento enormes...

Tinha trabalhado tanto e, agora, no momento de partilhar... nada, nem esposa nem pais, nada... a sua família já não existia... o seu suor de nada tinha valido! Tinha sido tudo em vão!

Sentou-se, depois deitou-se... olhou para o nada e sentiu ali a solidão de ninguém se ter.

Partilhou, ou melhor, doou o que tinha poupado (o dinheiro) às crianças da terra, pagou uma escola e um jardim, ambos muito bonitos...

Mas, apesar de tudo isso, jamais deixou de ser só, extremamente só...

Os anos passavam devagar, tal como as lágrimas que dos olhos de Tadeu saiam todos os dias... devagar.

Viu partir jovens para o estrangeiro.

Viu-os voltar, por vezes casados...

Viu-se chorar por nunca ter sido membro de uma família, e não era só por isso que ele chorava, as lágrimas de Tadeu eram fruto de algo que não podia ser dito, pois tal sentimento não tem palavras que o agarrem. No entanto, Tadeu respondia sempre que chorava de saudade... não dizia era de quê...

Inadvertidamente aconteceu um acidente. Num dia de chuva, o telhado da casa onde Tadeu vivia ruiu, caindo-lhe em cima, mas ele... não morreu, o seu coração parava, o sangue saia-lhe do corpo, todo o seu organismo deixava de funcionar... e Tadeu, no seu último acto, disse:

-Trabalhei, sofri e chorei, agora vou morrer... tenho muito medo mas não há outra saída... ... Sinto em mim a saudade do tempo que nunca vivi. Saudade de mim, daquele eu que nunca fui e que sempre quis ser! Quero morrer mesmo assim!


Faleceu depois de uma última lágrima lhe percorrer o rosto... muito devagar e dolorosamente, como a vida.

Foi com muita alegria e surpresa que descobriu que a Morte abre a porta para outra vida e.... (como nas histórias infantis) Viveu. Finalmente viveu!

e Viveu feliz para Sempre.


Friday, December 22, 2006

Wissenschaftslehre nova methodo

Fichte
Wissenschaftslehre nova methodo


§3

[A actividade ideal e a actividade real]

[A44] A acção de auto-posição do eu é uma passagem do indeterminado ao determinado; devemos reflectir agora sobre a forma pela qual o eu procede para efectuar esta passagem.

1) Não se pode indicar aqui qualquer fundamento [para essa passagem]; estamos no limite de todos os fundamentos. Basta observar o que se vê aí. Qualquer um verá que não há qualquer mediação. O eu efectua essa passagem porque a efectua. Determina-se porque se determina.; Essa passagem tem lugar por um acto de liberdade absoluta que se funda a si mesmo; é uma criação ex-nihilo, a produção de alguma coisa que não existia, um começo absoluto. O indeterminado não contém o fundamento da determinação ulterior, porquanto [indeterminado e determinado] se suprimem mutuamente. No momento A, estou indeterminado, a minha essência está inteiramente suprimida na indeterminação. No momento B, sou determinado; há pois algo de novo; que provém de mim mesmo; a passagem efectua-se por um acto de liberdade fundado em si mesmo.

2) A actividade que se exterioriza [nesse acto de liberdade] deve ser chamada “actividade real”; o acto pela qual ela se exterioriza “acto prático”; o campo no qual ela se exterioriza “campo prático” . Já observámos esse acto e continuamos a observá-lo. A actividade pela qual o observamos deve ser denominada “actividade ideal”.

Eu, o que intuiciona, o que é activo idealizante, encontro agora esse acto de liberdade absoluta; mas não posso nem encontrá-lo, nem descrevê-lo, sem lhe opor alguma coisa. “Determino-me a mim mesmo” significa que elevo uma possibilidade à realidade, um poder ao acto. Eu determino o acto de auto-determinação por liberdade absoluta graças ao poder de me determinar por liberdade absoluta. “Poder” deve significar possibilidade de actividade, mas não se pode compreendê-lo sem estabelecer a lei de reflexão pela qual o conceito desse poder ganha forma. O poder não passa de actividade, intuicionada segundo uma outra perspectiva. Nenhum acto particular é intuicionado se não for explicado por um poder; o mesmo acontece com o acto da liberdade absoluta. Não há poder sem actividade, nem actividade sem poder: os dois formam uma unidade; simplesmente são considerados segundo diferentes perspectivas. Considerado como intuição, é actividade, enquanto considerado como conceito, é poder.

3) [B 48] A diferença clara entre actividade ideal e actividade real é fácil de indicar. A actividade ideal é uma actividade de repouso, um acto de pôr em repouso, consiste em perder-se no objecto, é uma intuição fixada no objecto.
A actividade real é uma actividade verdadeira, é um agir. [contém em si mesma o fundamento do seu ser-assim-determinado.] A actividade ideal pode igualmente estar em movimento, pode igualmente ser uma passagem, e, quando intuiciona a liberdade, ela é efectivamente essa passagem: de facto, a intuição não é essa passagem por ser intuição deve-o sim ao objecto que é intuicionado, no presente caso, à liberdade. No que intuiciona só há uma reprodução, uma cópia. A actividade ideal não tem em si mesma, como a actividade real, o fundamento do seu ser-determinado; por isso está em repouso. O fundamento da actividade ideal reside no real que tem diante de si.

As duas actividades não se deixam conceber senão por oposição [de uma à outra].

4) A actividade ideal e a actividade real devem, neste caso, ser determinadas ainda mais claramente uma em relação à outra.
A) [A 45] Não há actividade real do eu sem actividade ideal; de facto, a essência do eu consiste no acto de auto-posição; se a actividade do eu tem de ser real, ela deve existir pelo eu, mas é posta pela actividade ideal.

Atribuímos força ao objecto natural, mas não força em si, dado que o objecto natural não tem consciência. Só o eu tem força em si.
B) Inversamente, não há actividade ideal do eu sem actividade real. Uma actividade ideal é uma actividade posta pelo eu, apreendida de novo como objecto da reflexão e representada novamente pela actividade ideal; sem o que o eu se assemelharia a um espelho que por certo representa, mas que não se representa a si próprio. – Este ser-uma-vez-mais-objecto-da-actividade-ideal é postulado com o eu. Mas esta objectivação é produto da actividade real. Sem actividade real, nenhuma auto-intuição da actividade ideal é possível. Sem actividade real, a actividade ideal não teria nada, e se a actividade real não lhe desse alguma coisa, ela nada seria.

C) [B 49] Imperceptivelmente [preenchemos a lacuna] acima indicada: a consciência imediata não é de todo uma consciência, é um obscuro acto de auto-posição do qual nada resulta, uma intuição sem haver intuicionado. A questão de saber como é que o eu consegue sair da consciência imediata e formar em si a consciência encontra aqui a resposta. Se o eu é tomado como ser, a consciência imediata deve ser posta uma vez mais por liberdade absoluta. Este acto de se pôr diante de si por liberdade é livre, mas, com a condição do eu ser tomado como ser, é necessário.

A actividade ideal seria por consequência produto do poder prático, e este o fundamento existencial da actividade ideal. Mas é preciso ter cuidado para não os considerar como separados. O ideal é o subjectivo no prático, o que observa o prático, e como apenas existem coisas para o eu na medida em que ele as observa, só existe alguma coisa para o eu pela actividade ideal.

Eu que sou activo idealizante, eu afecto-me a mim mesmo. Eu sou indeterminado, torno-me determinado, eu faço-me tal, persigo-me e prendo-me a mim mesmo realizante. Visto que é um eu que se afecta a si mesmo, esta afecção é acompanhada da actividade ideal, da intuição, em suma, da consciência. Esta consciência, pelo facto de se tornar precisamente uma consciência, torna-se uma intuição de si mesma.

“A auto intuição é produto do poder prático” significa que no momento que eu [me] afecto “realiter”, eu observo-me; esta observação é auto-intuição.

5) Admite-se como estabelecido que nada há que não seja na consciência. Ora, vimos que não há consciência sem actividade real, sem liberdade absoluta. Tudo o que pode ser não o é senão com ela e por ela; sem ela, nada há.

Assim, a liberdade é o fundamento de todo o acto de filosofar, de todo o ser. Confia em a ti próprio, escolhe a liberdade, terás então uma base sólida.

[A 46] A consciência liga-se imediatamente à liberdade, e não há outra coisa à qual ela possa estar ligada; a liberdade é o objecto primeiro e imediato da consciência. Toda a consciência é qualquer coisa que recai sobre si. O senso comum reconhece-o [B 49] na expressão: estou consciente em mim mesmo de qualquer coisa. Se o eu fosse pensado apenas como sujeito, isso nada explicaria, seria necessário procurar um novo sujeito para este sujeito, e assim seguindo até ao infinito; o eu tem pois necessariamente de ser pensado como sujeito-objecto.

Mas de novo, um tal sujeito-objecto ideal nada explica, é necessário acrescentar-lhe algo que seja unicamente objecto em relação a esse sujeito e de que eu esteja consciente. Donde é que esse objecto é suposto provir? O dogmático afirma que ele é dado, ou, se se pretende ligar o criticismo ao dogmatismo, que a matéria é dada, mas isso nada explica, é um simples termo vazio, em vez do conceito.

O idealista diz que o objecto é feito; mas, assim formulada, esta resposta nada resolve igualmente; pois, ainda que o objecto seja um produto do eu enquanto ser realmente activo, o eu enquanto ser realmente activo não é um ser ideal, [por consequência] o produto do eu dotado de um agir causal seria, para aquilo [ele] que representa, dado, trazendo-nos de volta à posição dogmática. – O problema pode ser resolvido assim: o que intuiciona e o que faz são um e o mesmo. o que intuiciona observa o seu fazer. Não há objecto enquanto tal que seja imediatamente objecto da consciência, mas somente o fazer, a liberdade. A proposição: “O eu põe-se a si mesmo” tem dois sentidos inseparáveis, um sentido ideal e um sentido real, que estão ambos absolutamente reunidos no eu. Não há acto de pôr ideal sem auto-início real, e inversamente; não há auto-intuição sem liberdade, e vice-versa; de igual forma, sem auto-intuição, não há consciência.

Antes do acto da liberdade, não há nada; é com ele que tem origem tudo o que existe; mas não podemos pensar este acto senão como uma passagem de um estado anterior de determinabilidade à determinação. – Por conseguinte para diante ou para trás [que se desça para o determinado ou se suba para o determinável] obtemos a mesma coisa, simplesmente em dois aspectos [diferentes] e é este acto da liberdade que constitui o eixo. No entanto, o acto [da liberdade] não é ele próprio possível se não encontrar à sua direita a determinabilidade; a consciência imediata, e à sua esquerda o que deve ser produzido: o eu intuicionado; [a consciência imediata e o eu intuicionado] são inseparáveis, dependem ambos da liberdade absoluta.

[B51] Nenhum homem pode indicar o acto primeiro da sua consciência, pois cada momento é uma passagem da indeterminação à determinação e pressupõe por isso sempre um outro momento.

O que é propriamente primeiro realizante é a liberdade, mas, no pensamento, isto não pode ser estabelecido logo à primeira vista, por isso tivemos que primeiramente lançar nas pesquisas que aí nos levaram.

§3
Pensar-se-á que a passagem [do determinável ao determinado] (§2) tem o seu fundamento absoluto em si mesma; a acção [pela qual o eu efectua] esta passagem é denominada por essa razão “actividade real”; ela é oposta à actividade ideal que apenas reproduz a actividade real; por isso, [a actividade] do eu em geral é dividida em dois modos. Segundo o princípio da determinabilidade, não é possível pôr um agir real sem um poder real ou prático. Actividade real e actividade ideal são condicionadas e determinadas uma pela outra, uma não é sem a outra, e o que uma é não se deixa compreender sem a outra. Neste acto da liberdade, o eu torna-se objecto para si mesmo. Nasce uma consciência efectiva e esta constitui o ponto de partida ao qual se deve unir desde logo tudo o que, duma forma geral, deve ser objecto dessa consciência. Por conseguinte, a liberdade é o fundamento supremo e a condição primeira de todo o ser e de toda a consciência.



Thursday, December 14, 2006

Vasco Valente Cabral



Vasco era casado, estava doente e já era idoso há muito tempo. Eram pessoas humildes, mas a sua mulher estava sempre junto dele.

Houve um dia em que Vasco se sentiu muito pior, a sua mulher foi a correr à sua vizinha para que pelo telefone o médico fosse chamado... e lá veio...

Depois de fazer o seu diagnóstico o médico chamou D. Teresa e disse-lhe:

"- Dona Teresa, o senhor Vasco Valente está muito mal e não sei por quanto tempo vai ele aguentar... Desculpe-me esta dureza de palavras, mas a verdade é, por vezes, tremendamente áspera."


O médico saiu e ela chorou uma lágrima no caminho até ao quarto, antes de entrar limpou-a e, sorrindo, perguntou a Vasco se ele precisava de alguma coisa,

- Sim, ajuda-me a vestir o fato.


Era o seu único fato, o fato do casamento, o fato da missa, ... o fato da dignidade exterior.

Teresa, solicitamente, acedeu sem hesitar... com uma dor no coração vestiu-o a Vasco que, apesar das dores que o atormentavam, não se queixou nem com um só som de agonia.

Já com o fato completo vestido – colete e gravata incluídos - Vasco pediu-lhe para que Teresa o levasse à rua... ...mais uma vez respeitou e cumpriu o pedido do seu marido.

Era noite de lua nova e estava muito escuro... Vasco estava de pé, encostado a uma árvore e abraçou calmamente Teresa e murmurou-lhe:

"- Teresinha, foste uma companheira maravilhosa, quero muito agradecer-te do fundo do meu coração tudo o que por mim fizeste, mas agora... é tempo para um último pedido: entra em casa e reza por mim que vou morrer...

- Mas Vasco...

- Não faças mais nada... entra em casa e sem chorares pede a Deus que me aceite... que aceite o teu marido... vai e reza!!!"


Sem mais palavras nem trocas de olhares, ela entrou e cumpriu o que Vasco lhe pedira.

Ele desencostou-se da árvore e começou a caminhar... devagar, torto mas decidido... Lá ia, Vasco Valente com o seu fato, o único, o digno... continuou a caminhar até que sentiu que morreria dentro de poucos segundos... ergueu então os braços e, olhando o céu por entre as estrelas, exclamou:

- Meu Deus... leva-me daqui... peço-Te... bem vês que já estou contente só de Te saber a ouvires-me. Eu e a minha amada esposa precisamos de Ti agora... Vê a minha vida e saberás que nunca como hoje de Ti precisei... Mas para quê é que estou aqui a dizer estas coisas se Tu tudo sabes?... ...Leva-me Senhor...


Passaram alguns minutos e Vasco Valente Cabral foi levado... Em casa, Teresa, nesse momento, sentiu vontade de sorrir e sorriu...

Anos depois Vasco recebeu e aconchegou a sua Teresa com um abraço tão forte que o próprio Deus sentiu vontade de sorrir e sorriu... Enquanto, os que aqui, choravam a partida de Teresa... sentiram a verdade da saudade: ser apenas o amor requintado de quem espera, na certeza de que nem a própria morte separa quem gosta de se abraçar.







Enquanto escrevi isto, por vezes senti vontade de sorrir e... sorri!









Friday, December 01, 2006

Francisco Gonçalves



Francisco Gonçalves era pobre. Pobre.

Naquela noite decidira ir para a estrada; e ali estava ele, à beira de uma estrada onde sem cessar passavam carros e dentro dos carros gente, gente que não o via porque ele estava na berma.

Era um homem só... solitário... de alguma maneira triste com essa sua condição. Mas apesar do peso da sua solidão, ele tinha dentro de si algo que as vicissitudes do mundo material não lhe tinham conseguido roubar... Francisco guardava dentro de si a força e o brilho de um cometa.

Estava completamente escuro, não havia ali candeeiros e só a luz dos faróis permitia ver aquilo que havia para ver, ou seja, nada! Uns após outros incessantemente passam, os carros, que dentro de si trazem pessoas que dentro de si... pelos vistos, nada trazem!

Francisco está sentado junto à berma, quieto, silencioso... e a pensar no brilho e na força do cometa que vive dentro de si e que nada pode fazer com ele... absolutamente nada, pois o que se pode fazer com tal coisa em tal sítio!?... Nada!

Francisco é confrontado constantemente com o brilho artificial dos faróis dos carros... e fica ainda mais triste quando pensa que aquele brilho que vê na frente dos carros nada tem a ver com quem os conduz mas antes com a artificialidade dos automóveis e do código que os rege...

No meio destes pensamentos Francisco sente frio e fome como ainda não tinha sentido... mas, apesar disso, o sentimento do cometa, que não se consegue exteriorizar, é irracionalmente mais forte do que a fome e o frio. Francisco Gonçalves pensa então na morte e na sua possibilidade real em si... quer morrer mas deixar no mundo algo que traz consigo e de que não é responsável pela sua presença ali, dentro de si. Francisco queria muito emanar o cometa.

As luzes não se cansavam de atingir a cara do pobre... que hoje se sentia ainda mais pobre... tão pobre que não tinha capacidade de deixar no mundo uma riqueza que tinha consigo... ele estava pobre... Francisco Gonçalves era rico mas estava pobre... Francisco Gonçalves sempre foi rico mas sempre esteve pobre.

Levantou-se e começou a caminhar... não sabia onde ia, tão pouco sabia porque se tinha levantado do chão... caminhava na direcção dos carros, agora ele também ia para onde eles iam. Não tinha luzes, mas as artificiais dos outros serviam, agora até serviam para alguma coisa, além de que já não incomodavam. Não sentia fome nem frio.

Ao longe pareceu-lhe ver um homem sentado à beira da estrada, acelerou o passo... e o outro estava mesmo lá... não tinha sido ilusão... Era um homem muito triste e estava muito triste... era e estava... Francisco intui-o de imediato, e interpelou-o:

- Quem és e o que tens?

- Sou o pessimismo e sofro...

- Sofres por seres pessimista?

- Não... sofro somente e daí advém o pessimismo...

- Talvez a razão do teu sofrer seja a de que não tens luz dentro de ti...

- Dentro de mim há como que um buraco negro... toda a luz que sinto, absorvo, dissolvo e desaparece!

- Que fazes aqui?

- O mesmo que tu fazias há pouco ali em baixo... penso e sinto...

- Como sabes?

- Fui até lá... mas não tive coragem de te ir falar... porque tenho fome e se tivesses algo que comer irias pensar que te tinha ido falar só por interesseirice...

- Também tenho fome...

- ... não tenho nada para te dar...


Conversaram então acerca do buraco negro de um e do cometa do outro, seguiu-se um silêncio enorme... e Francisco Gonçalves estava prestes a morrer, quando pensou em libertar a luz e a força que existia dentro de si... Beijou o seu companheiro de estrada que dormia e deixou-se morrer, tendo consigo a grande felicidade de um dia ter feito algo por outro alguém, de ter conseguido fazer o seu cometa sair...

Morreu

O outro quando acordou, chamou Francisco mas logo se apercebeu de que ele havia morrido!

Decidiu que, embora as forças o pudessem vir a trair, iria enterrar o seu "amigo". Era madrugada cedo e Francisco Gonçalves foi mandado para uma vala e coberto com a areia possível...

O outro reparou então no Sol, na sua luz, que tão alto estava, que calor emanava, sentiu uma coisa muito estranha... já não sentia o buraco negro... não sabia viver assim, era algo completamente novo... que fazer?!

A fome tomou-o, tornando-o exausto... completamente exausto. Sentou-se na beira da estrada e, algum tempo, depois empregando todas as forças que lhe restavam atirou-se para o meio da estrada... Morreu quando um camião enorme o projectou muitos metros...

O que sentiu não foi um choque mas um beijo carregado de luz...
...

- ...

- Olá Francisco Gonçalves!

- Olá... come, come... há aqui comida que vai chegar para todos os pobres do mundo!!!

Saturday, November 11, 2006

Tomás



Tomás era idoso... velho... vivia numa aldeia que já não o era... só lá vivia ele... os outros... ou tinham ido para as cidades, ou tinham morrido.

Tomás era o último, vivia a vida de um homem só, completamente só...

Em tempos tinha sido famoso pela maneira como escrevia e falava... Foi casado com uma mulher... mas ela estava longe... longe demais.

Agora falava sozinho e escrevia para si mesmo... sentia-se diferente quando se ouvia ou lia o que tinha escrito... Era a única maneira de se sentir acompanhado... Precisava muito de comunicar e como estava só, fazia-o em duas fases: na primeira escrevia ou falava; na segunda lia ou escutava...

Começou a perceber uma coisa muito importante... quando falava e queria ouvir-se como se tratasse de um outro Tomás, só conseguia ser ou o que falava ou o que ouvia... não conseguia fazer ambas as coisas simultaneamente com igual rigor...

Quando escrevia era diferente... sentia-se ainda mais só... pois o diálogo que ele pretendia instituir não resultava... no fundo era uma ilusão enorme. Quando falava, ou falava ou ouvia... quando escrevia não lia e quando lia não podia escrever.

Tomás estava convicto de que precisava falar, ouvir, escrever e ler... pois à falta de melhor para combater a solidão que o ia pisando, restava-lhe isto... Por isso escondia-se atrás da pretensão de se conhecer a si mesmo...

No momento em que percebeu, lendo uma das suas coisas, que estava a ser o maior aliado do inimigo, daquele inimigo que pretendia abater... parou... não mais falou, ouviu, escreveu ou leu alguma coisa.

Compreendeu que o medo de estar só é tremendamente pior que a própria solidão...

Queimou todos os papéis e esqueceu todas as suas palavras, depois lembrou-se que tinha alguns livros em casa e também os queimou. Era uma fogueira alta.

Pensou em como podia lutar contra a solidão e entendeu por bem esperar... só esperar... esperar...

A sua espera durou uns três anos... mas Tomás nunca desesperou... pois a sua esperança era suficientemente grande para superar qualquer desespero...

Quando fechava os olhos via... via uma pessoa, uma outra pessoa... via-se a falar consigo, não a ouvia, apenas via...

Morreu...





Hoje, quando alguém que está só, fecha os olhos e ouve-o, ouve Tomás... não o vê... apenas o ouve... ouve as cinzas dos papéis de Tomás caírem no chão depois de voarem muito tempo e ouve palavras esquecidas:
Espera... não tentes combater... espera... amanhã virá alguém, talvez uma princesa lindíssima, ou simplesmente a morte... Esperei e veio a segunda levar-me para perto da primeira... Confesso que apesar de não saber como é... é ainda mais belo se a princesa chegar primeiro do que a morte... Olha... espera... lembra-te que não tens em ti a tua razão de ser... de seres assim... Espera pois, e pede, sonhando outro alguém... e como um mendigo que estende a mão a quem passa... como ele, não esperes que de cada pessoa que passe venha uma esmola... Pede... pede sempre... não te bastes a ti... se te tentares saciar contigo mesmo... morrerás só... e a princesa não estará no fim da morte.!!!

Saturday, November 04, 2006

Tributo a um Amigo



A morte não é o fim.

Eu só fui para o quarto ao lado.

Eu sou eu, vós sois vós.

O que nós éramos, uns pelos outros, seremos para sempre.

Dêem-me o nome que sempre me deram.

Falem-me como sempre o fizeram.

Não empreguem um tom de voz diferente, nem tenham um ar solene ou triste.

Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim, rezem por mim.

Que o meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de qualquer tipo, sem sombra de escuridão.

A vida continua a significar tudo aquilo que sempre significou.

Ela é o que sempre foi. O fio não foi cortado.

Por que motivo ficaria eu de fora dos vossos pensamentos, lá por estar fora da vossa vida?

Eu guardo-vos e fico por perto: ali do outro lado do caminho.

Estão a ver, Está tudo bem.


Charles Péguy