Saturday, April 28, 2007

André

Era uma vez... Um grupo de homens que tendo ido passear pelas montanhas resolveram parar no cimo da montanha mais alta, mesmo no cume...

De súbito, um dos homens, o André, perguntou aos outros o que viam, apontando para toda a região que se estendia até ao infinito, os outros deram respostas que ora era um vale, um bocado de terra, uma paisagem bonita, etc. Depois perguntaram ao André qual seria a sua resposta, ao que este respondeu: "Não sei."

Findo o período de descanso, todos se ergueram, menos o André, que permaneceu serenamente a olhar a região que se estendia na sua frente... os outros então disseram-lhe que iriam partir, e que se ele estava tão apaixonado por toda a paisagem, o melhor seria ir visitá-la com eles... mas o André ficou, pois tinha ficado estupefacto quando se apercebeu que não percebia o que era aquilo que se estendia na sua frente.

Na sua cabeça reinava a pergunta: "O que é isto?", e as respostas pairavam descontroladas: "É um vale", "È um bocado de terra", "É uma paisagem", "São árvores e lagos e campos e...". "O que é isto?" não tinha uma resposta, não tinha muitas, não tinha resposta.

Decidiu ir ao encontro dos seus companheiros de viagem... e quando se aproximou deles logo lhe perguntaram: "Então qual é a resposta, já a sabes?". Ao que André permaneceu em silêncio... os companheiros insistiram, mas ele também.

Não passou muito tempo até que o André resolvesse voltar ao cume da montanha... Despediu-se dos outros e caminhou para lá...

Sentou-se confortavelmente e pôs-se a ver "tudo aquilo"...

Algum tempo depois colheu uma flor e viu o "tudo aquilo" na flor... O que era afinal o "tudo aquilo", que estava na paisagem, na flor e depois até num cabelo dos seus???

A resposta a si mesmo foi pronta e esclarecedora:

"- André, não há resposta para perguntas realmente sérias, és um homem e deves conformar-te com estas coisas."

O André aprendeu então a olhar para tudo aquilo, encontrando o "tudo aquilo" em tudo... e sempre a fazer perguntas, com as quais não se preocupava em andar à procura das respostas... Estava feliz... Teve entretanto pena dos seus amigos, pois estavam a perder tudo aquilo que ele vivia, agora tão intensamente.

Alguns dias depois, encontrarem-se todos e começaram a trocar as experiências da viagem... Um amigo começou por dizer ao André o que ele não vira... aquele lago, que do cume da montanha parecia uma simples poça, era na verdade grande e bonito, tinha peixes às riscas, nas margens havia uma plantas curiosas e havia até formigas de uma cor que ninguém soube explicar, etc.

André sorria-lhes, e eles acabaram por ficar tão indignados, que lhe perguntaram porque sorria. E disse:

"- Vocês viram tudo isso, mas precisaram de andar muito, de se cansarem ainda mais, e no entanto, eu, lá de cima, vi tudo isso que vocês não viram... É que quem olha para o chão também consegue ver as estrelas, assim como de noite se pode ver o sol... Conhecer uma pedra é ter a percepção imediata da sua natureza íntima... que é a mesma para tudo, o ser."

Um deles interrompeu-o:

"- Mas responde-me lá à pergunta que a todos fizeste, o que é tudo aquilo???"

O André ficou um tempo em silêncio e por fim disse-lhes:

- A minha resposta é o silêncio...

- O quê? tens de definir.
- ... ... ... É que se eu definir qualquer coisa, já a estou a privar de aspectos que essa mesma coisa possivelmente também é... e como um todo só se deixa definir nas suas partes constituintes, logo se defino algo, também tenho que definir o todo onde se definiu a coisa, e o todo onde está o todo em que está a coisa, e daí por diante..."

Os amigos levantaram-se e foram embora. Alguns deles, dias depois, foram sentar-se no cume da montanha, mas nunca nenhum deles viu o mesmo que o André...

Nunca mais ninguém soube que o André se tornara num homem muito feliz, e isso desde o momento em que percebeu que as perguntas realmente sérias não têm resposta, ou melhor, até têm... só que não é para os homens compreenderem...

Morreu anos mais tarde...

Só depois disso compreendeu tudo o que há para compreender...



Monday, April 09, 2007

Sócrates... ser ou não ser (engenheiro)?


já mandei!


Ora, se fez pós-graduação em sanitária...
algo teria que ter feito antes....

Thursday, March 29, 2007

Revolução da Alma


Recebi um texto por e-mail com a indicação de que teria sido obra de Aristóteles...

Em virtude da minha formação, duvidei...

Na realidade, este texto "Revolução da Alma" foi extraído do livro "Decidi ser Feliz", de Paulo Roberto Gaefke , editado em 2002.

Embora a última frase seja realmente de Aristóteles.

Com o maior dos respeitos pelo português do Brasil, tomei a iniciativa de o "traduzir"/adaptar para um português mais perto do português falado em Portugal.


Ninguém é dono da tua felicidade,
por isso não entregues a tua alegria,
a tua paz,
a tua vida nas mãos de ninguém,
absolutamente ninguém.

Somos livres,
não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos,
da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja.

A razão da tua vida és tu mesmo.

A tua paz interior é a meta da tua vida.


Quando sentires um vazio na alma,
quando acreditares que ainda te está a faltar algo,
mesmo tendo tudo,
remete o teu pensamento para os teus desejos mais íntimos
e busca a divindade que existe em ti.

Pára de, a cada dia, colocares a tua felicidade mais distante.

Não coloques objectivos longe demais das tuas mãos;
abraça os que estão hoje ao teu alcance .

Se andas desesperado com problemas financeiros,
amorosos ou de relacionamentos familiares,
busca no teu interior a resposta para te acalmares.

És o reflexo do que pensas diariamente.

Pára de pensar mal de ti,
e sê o teu melhor amigo... sempre.

Sorrir significa aprovar,
aceitar,
felicitar.
Então abre um sorriso e aprova o que o mundo que te quer oferecer de melhor.

Com um sorriso no rosto as pessoas terão de ti as melhores impressões,
e estarás a dizer a ti mesmo,
que estás "pronto" para ser feliz.

Trabalha,
trabalha muito a teu favor.

Pára de esperar a felicidade sem esforços.

Pára de exigir das pessoas aquilo que nem tu conquistaste ainda.

Critica menos,
trabalha mais.

E não te esqueças nunca de agradecer.
Agradece tudo que está na tua vida neste momento,
inclusive a dor .

A nossa compreensão do universo ainda é muito pequena
para julgar o que quer que seja da nossa vida.

Por fim,
acredita que não estaremos sozinhos nas nossas caminhadas,
um instante sequer,

se nossos passos forem dados em busca de justiça e igualdade!!!

"A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las."


Sunday, March 18, 2007

João Pedro


A esposa de João Pedro acabara de ficar grávida e se já viviam com grandes dificuldades, o amanhã do bebé adivinhava-se bem pior.

João Pedro estava desempregado por já longos 4 meses, tinha sido uma falência do escritório. A sua mulher trabalhava 12 horas por dia numa fábrica.

Quando soube da gravidez da sua mulher, o que fez foi começar a procurar emprego com cem vezes mais esforço do que aquilo que já estava a fazer.

Conseguiu ao fim de mil
nãos, um sim. Tinha o problema de ser um pouco sujo, tratava-se de manutenção de esgotos, a pior parte de tal coisa. Ele ficou feliz pois o salário era relativamente bom e assim havia a possibilidade de sustentar com mais segurança aquele que se esperava.

Começou o seu trabalho no dia seguinte. Foi só ao chegar a casa que se apercebeu do estado em que estava, as roupas sujíssimas e o cheiro, um cheiro tão nauseabundo que até lhe deu vontade de rir. Sua mulher, quando chegou, fez uma cara indescritível, olhando-o de forma fria.

Passadas duas semanas, e ainda antes do primeiro salário entrar em casa, a esposa de João Pedro sentou-se diante dele e disse-lhe que aquele emprego era indigno e que aos olhos de outras pessoas até ela ficava mal vista -
O meu marido trabalha nos excrementos! - E afirmou que iria separar-se dele pois a situação tinha atingido tal ponto que já só havia a solução de quebrar a relação. Saiu de casa sem o ouvir sequer, levou tudo... até aquilo que tinha no seu ventre e que não era só seu. Só deixou a morada para onde ia, isto para ele lhe enviar dinheiro (se quiseres!) e a indicação expressa para que ele não tentasse sequer voltar a vê-la.

João Pedro continuou a trabalhar no mesmo sítio... não havia nada melhor. Enviava mensalmente 3/4 do seu ordenado para a morada que ela lhe tinha deixado num bocado de papel pardo.

Completamente só, vivia para o final do mês, para o cheque que se trocava por dinheiro e este por um vale postal, que por sua vez era enviado para a morada.

Foi assim durante muito tempo. A sua (ex-)? mulher teve um filho, foi despedida antes de o ter, pois não houve compreensão para a licença de maternidade, os tempos eram de crise. Nunca mais conseguiu arranjar emprego. Vivia do vale-postal e nem o apelido do pai pôs no nome do menino... Sempre achou indigno trabalhar
nos excrementos.

João Pedro viveu com cerca de 1/4 do seu salário durante muitos anos, quando era aumentado aumentava, também ele, a fatia para o vale-postal. O menino cresceu e fez-se um homem que quando se apercebeu do vale-postal procurou de imediato explicação. Não a obtinha em lado algum, mas persistindo acabou por chegar à morada remetente do papel que valia dinheiro. Era a morada de quem os sustentava a ele há anos. Pensou que era um ricalhaço qualquer, mas mesmo assim resolveu ir até ao fim, havia que ver a cara de quem enviava o crédito mensal.

Era uma barraca, junto dos vizinhos perguntou coisas e esperou para ver a cara do tal Sr. João Pedro.

João Pedro chegou, e ao fim de pouco tempo, aquele velho e o jovem (re)conheciam-se pai e filho...

Depois de horas de diálogo:

- Mas afinal, meu filho, como é que te chamas?

- Acabei de nascer à pouco e chamar-me-ei João Pedro!

O velho João Pedro morreu num acidente de trabalho ao fim de dois dias...

O jovem João Pedro saiu de imediato da casa da mãe para ir viver para a do seu falecido pai, ocupando igualmente o lugar do pai na manutenção dos esgotos. Ao sair de casa da sua mãe nada disse, só prometeu 3/4 do salário.

João Pedro, o pai, chorou... anos e anos pelo filho, por tamanha dignidade.

Chorou até sorrir quando se deu conta dos porquês da sua história.

Saturday, March 03, 2007

Filosofia


Sim, considero-me filósofo (que me desculpem todos quantos têm outros critérios onde não encaixo nessa categoria)... e há dias, enquanto pensava no sentido da existência acabei, de súbito, por me ver confrontado com uma ideia tão forte quanto evidente...

Os dias que se seguirem ao dia da minha morte serão ainda... dias da minha vida.




Wednesday, February 21, 2007

Um poema de Anónimo (um dos meus autores favoritos)

À medida que vamos crescendo
aprendemos que até aquela pessoa que era suposto nunca nos desiludir...
provavelmente o fará mesmo.

Sentirás o coração destroçado
Provavelmente mais do que uma vez
E que de cada vez é sempre mais doloroso.

Também tu destroçarás corações
Pelo que te deves lembrar do que sentiste quando te aconteceu a ti

Discutirás com o teu melhor amigo
E culparás o teu novo amor por coisas que um anterior te fez.

Chorarás por que o tempo passa demasiado depressa
E certamente perderás alguém que amas

Por isso, tira muitas e muitas fotografias
ri-te muito e muito

e ama como se nunca tivesses sido magoado

Porque cada sessenta segundos que desperdiças aborrecido

é um minuto de felicidade que nunca te será devolvido

Não temas por teres que morrer, teme por poderes nunca chegar a viver

Anónimo




A minha amiga Anne Morrison enviou-mo...

Com o meu amigo Wilson traduzi-o...



versão original:
As we grow up, we learn that even the one person that wasn't supposed to ever let you down probably will. You will have your heart broken probably more than once and it's harder every time. You'll break hearts too, so remember how it felt when yours was broken. You'll fight with your best friend. You'll blame a new love for things an old one did. You'll cry because time is passing too fast, and you'll eventually lose someone you love. So take too many pictures, laugh too much, and love like you've never been hurt because every sixty seconds you spend upset is a minute of happiness you'll never get back.
Don't be afraid that your life will end, be afraid that it will never begin.


Wednesday, February 14, 2007

Despedida de Heitor à sua mulher Andrómaca

Pois isto eu bem sei no espírito e no coração:

Virá o dia em que será destruída a sacra Ílion

assim como Príamo e o povo de Príamo da lança de freixo.

Mas não é tanto o sofrimento futuro dos Troianos que me importa,

nem da própria Hécuba, nem do rei Príamo,

nem dos meus irmãos, que muitos e valentes tombarão

na poeira devido à violência de homens inimigos -

muito mais me importa o teu sofrimento, quando em lágrimas

fores levada por um dos Aqueus vestidos de bronze,

privada da liberdade que vives no dia a dia:

em Argos tecerás ao tear, às ordens de outra mulher;

ou então, contrariada, levarás água da Messeida ou da Hipereia,

pois uma forte necessidade se terá abatido sobre ti.

E alguém assim falará, ao ver as tuas lágrimas:

Esta é a mulher de Heitor, que dos Troianos domadores de cavalos

era o melhor guerreiro, quando se combatia em torno de Ílion.

Assim falará alguém. E a ti sobrevirá outra vez uma dor renovada,

pela falta que te fará um marido como eu para afastar a escravatura.


Mas que a terra amontoada em cima do meu cadáver me esconda

antes que oiça os teus gritos quando te arrastarem para o cativeiro.


Homero, Ilíada, Canto VI, vv.447-465, Tradução de F. Lourenço, Edições Cotovia.

Thursday, February 08, 2007

A minha filha e a questão do Aborto


Ontem, resolvi explicar à minha filha Vitória (5 anos) a razão de tanta gente a falar sobre o Aborto na TV...

Sendo que a minha posição é a de um NÃO claro, decidi enfrentar o desafio da explicação com um objectivo: ser imparcial, chegando mesmo a pensar que se ela me viesse a dizer que estaria de acordo seria um objectivo concretizado!

Comecei a explicação pela questão da concepção...

o pai põe a sementinha na barriga da mãe...

claro que veio a pergunta óbvia: “Como?

e mais uma vez lhe expliquei que – resumidamente: o que os homens têm a mais no corpo têm as mulheres a menos e, quando se unem, há uma completude e a semente liberta-se – e lá se lembrou e quis passar à frente...

bem, sementinha a crescer (tentei desvanecer a ideia do “nascer” a favor de um “crescer”), ainda não é um bebé-bebé-mesmo, que tamanho vai tendo etc. E eu ia oscilando entre os termos de “bebé” e a “semente-a-crescer”... depois a questão de certas senhoras não quererem ter um filho, etc... e que vão “tirar”... mais uma vez: “Como?” – injecção, tesoura, aspirador (estranhamente, gostou desta opção!!!!), etc.

O assunto estava preparado... agora, - essas senhoras se quiserem podem abortar nos hospitais? Esse é o assunto que se discute...

- Vitória, que achas?

- Acho que vocês são bonzinhos porque me terem deixado crescer!
(quase me vieram as lágrimas aos olhos)

Cerca de 20 minutos depois veio ter comigo e disse:

- Pai, acho que as senhoras devem poder ir aos hospitais abortar!

- Por quê, filha?

- Porque se as mães são más, é melhor os filhos não as terem.

Tentei explorar a questão e a ideia era a de que se a mãe estava disposta a matar, seria por ser má, sendo má, mais vale não ser filho dela.

Toda a minha carreira académica se curvou perante tal argumento... mas não desisti da minha isenção, e expliquei-lhe que poderia não ser um matar-matar-mesmo, mas fui aniquilado com uma pergunta retórica:

- Mas não é com uma tesoura e já não tem este tamanho (mostrando-me a mão em concha)?


Fiquei tão orgulhoso quanto perturbado por ter estado tão próximo da Verdade!


Saturday, February 03, 2007

Prefácio ao Diário do Sedutor de Kierkegaard

O grande filósofo dinamarquês, Sören Aabye Kierkegaard, viveu intensamente a sua obra; cada livro é um pedaço da sua vida, um farrapo da sua alma.

Sobre toda a sua vida, animada de um espírito impregnado de uma filosofia profundamente religiosa, pesa para todo o sempre um anátema. O pai, um dia, simples pastor na Jutlândia, maldisse a sua sorte, amaldiçoou Deus; e ao voltar para Copenhaga, rico, por um acaso, o remorso de ter ofendido o Senhor, influiu poderosamente na sua alma religiosa de pastor.

Daí veio uma imensa melancolia, transmitida ao filho, Sören, que ainda mais se agravou quando este veio a conhecer a tragédia espiritual do pai. E fez-se um triste.

Um dia, porém, um raio de luz veio iluminar-lhe a existência. Sören amou profundamente Regina Olsen, espírito oposto ao seu, toda vida e alegria; esta alegria ainda mais lhe exacerbou o seu fundo de tristeza. Na alma travou-se-lhe uma luta entre o seu amor e a sua melancolia; esta venceu e ele tornado um melancólico cerebral, viu que não tinha o direito de sacrificar para sempre a existência de uma rapariga toda vida, mocidade, saúde.

Por isso, passado um ano de luta desfez o casamento já anunciado a todos. E para se justificar escreveu o livro "Diário do Sedutor". Era um livro para ela, para que o lesse e lhe perdoasse o muito que a tinha feito sofrer. Recalcou no íntimo do peito a veemência do seu amo; e fingiu-se um egoísta, que apenas quis, friamente, por uma questão estética, brincar com a felicidade de uma rapariga. E chegaria a ser revoltante, a sua gélida ironia, se não se adivinhasse através deste livro, quanto ele devia ter sofrido...

Daí em diante a sua actividade literária foi extraordinária; escreveu por necessidade, como que para desabafar. Deixou uma obra colossal, toda repassada da sua originalíssima filosofia. Os seus inúmeros escritos, a maior parte sob pseudónimos, são a ilustração da sua filosofia: cada personagem é uma ideia, cada livro a confirmação prática do seu sistema.

Por isso o mundo dos seus personagens é um mundo estranho, de névoa, misto de verdade e paradoxo. Ao ler-se a sua obra, disseminadíssima, mas obedecendo ao plano geral da sua Ideia, fica-se como que fulminado, pelo arrojo das concepções, pela variedade de pensamentos, pela sua prosa bizarra, ora grandiosa e empolada, ora simples, como prosa para crianças. Umas vezes é obscuro nas suas imagens, pedaços do seu pensamento íntimo que se revelam, incompreensíveis para nós; outras vezes, serve-se de assuntos banalíssimos, quase ridículos, para ilustrar os mais elevados problemas da sua filosofia.

Desta, difícil será dar uma pálida ideia neste lugar; referir-me-ei apenas à parte de que o “Diário do Sedutor” é, por assim dizer, a ilustração.

Entre os vários estádios que ele reconhece no caminho da vida, o primeiro é o estético. O homem deve tirar da vida todo o partido possível, para viver sob um ponto de vista estético; deve tirar dela apenas o que ela encerra de interessante; necessita para isso de moldar os indivíduos e as situações à imagem do seu ideal estético.

A primeira condição para obter este fim é a liberdade absoluta: nada de prisões. É necessário viver a vida fora dela; passar como uma rajada de vento, que tudo envolve, que tudo arrasta e faz girar a seu bel-prazer, e em seguida desaparecer em busca de novas sensações. Conseguido o ideal estético numa determinada situação, o interesse desapareceu. Por isso o "Sedutor" vai pela vida adiante, moldando nas formas requintadas do seu capricho de esteta a feminilidade tornada plástica das suas vítimas.

Não é, pois, um sedutor na acepção vulgar da palavra. É um artista do amor. Busca em cada mulher o que ela lhe pode dar de interessante: nesta um olhar, naquela um sorriso, noutra a forma graciosa de saudar. Não se serve de mentiras, dessas mentiras vulgares com que se seduz normalmente uma alma ingénua de rapariga. Tudo o que faz é por vontade delas. Se promete casamento a Cordélia Whal, a heroína fictícia deste livro, é porque sabe que há-de ser ela própria quem o desligará da sua promessa, porque ele há-de levá-la a querer amá-lo com a máxima liberdade infiltrando-lhe no espírito a única, a verdadeira maneira de amar e de ser amado - na mais absoluta liberdade - fora de qualquer preocupação de ordem ética, fora dos convencionalismos sociais, portanto. "O amor ama o mistério - estar-se noivo é um bando; o amor ama o balbuciar submisso - estar-se noivo é um pregão" - diz ele numa das suas cartas à sua vítima.

Cordélia Whal vê de repente abrir-se-lhe um horizonte novo - assim é que deve ser o amor verdadeiro, livre como o pensamento, e como o pensamento entregue só à criatura amada.

Regina Olsen, por muito que o amasse, nunca poderia ser completamente livre - e o matrimónio é uma prisão. Por isso ele a abandona; por isso o seu amor, ansioso de liberdade, se estiola e morre na perspectiva de uma prisão de carácter ético.

É esta a sua justificação.

Regina não o compreendeu; suplicou-lhe que não a abandonasse; ele ficou mudo, inflexível, cruel para ela, muito mais cruel para si próprio.

E acabou tudo; a maldição herdada de seu pai, tinha-lhe obscurecido a única claridade, que suavemente lhe poderia ter iluminado a vida.

O anátema tinha-se cumprido...

Thursday, January 25, 2007

A Solidão como Abrigo

Da leitura que fiz dos Sermões antonianos, um dos temas que mais me fascinou foi, sem dúvida, o tema da solidão, daí: A Solidão como Abrigo.

Santo António apresenta o tema da solidão a par de outros temas ou conceitos como: nudez, desnuamento, pobreza, simplicidade, silêncio ou vazio, mas o título desta comunicação apenas pretende explicitar a aparente paradoxalidade do pensamento antoniano em relação à tarefa essencial do homem rumo a Deus: a de se aproximar d'Ele pelo esvaziamento da alma, a de estar no mundo estando abrigado do que nele existe.

O homem deve libertar-se de cogitações e afeições mundanas afim de alcançar uma solidão que não é senão a pureza de espírito necessária à concretização daquilo porque suspira: a contemplação de Deus. Este esvaziamento é a única forma que a alma dispõe para que Deus nela habite, dado que Ele só entra quando tudo está vazio, quando, fruto da nossa fé, de tudo prescindimos.

A solidão antoniana é um estado que pressupõe o abandono das coisas e em que resta apenas um movimento, uma devoção: o amor a Deus. Sentimento este que leva, se for aceite até ao fim, a uma paz desértica, pois tendo sido aniquilados os elementos mundanos e temporais como apetites, preocupações e paixões, nada mais resta que não a pureza/pobreza de quem nada tem a não ser a vontade de ser com Deus.

Santo António alerta para a necessidade de radicalidade no acto da entrega. Assim, devemos não só abdicar dos deleites/imperfeições humanas, como também devemos oferecer a Deus tudo quanto de bom tenhamos acumulado. O esvaziamento é total, mas a opção é clara: ou optamos pelo ter e nada somos; ou queremos ser verdadeiramente, e então despojamo-nos de tudo o que encontrámos neste mundo.

A região da dissemelhança não é algo de novo em Santo António, mas ele usa esta expressão várias vezes, afim de, caracterizar o mundo em que o pecado faz com que o homem perca a original semelhança com o seu Criador. Ora, o homem virtuoso é bom e, por isso, semelhante a Deus. A virtude de que aqui se trata é a norma de vida dos que são humildes, dos pobres de espírito, daqueles que até o pó deste mundo, que se lhes fica pegado aos pés, sacodem (Lc. 10, 11). Deste mundo de ter e poder, os humildes, abrigam-se na solidão de quem visa entregar-se, só e totalmente, a Deus.

Só despido de vícios se pode ser puro, bem como, só o reconhecimento das próprias faltas pode levar ao conhecimento profundo do nosso ser e à reconciliação com Deus. Só abrigado na solidão se pode estar imune aos maus e mundanos pensamentos e assim, estar em paz. Não se considere a solidão como um esconderijo ou uma fuga, mas antes, como um abrigo onde pela pureza da sua alma o homem pode ambicionar ser feliz. Ser feliz, é estar-se plenamente preenchido, e isto sucede quando, depois de esvaziada a alma, Deus nela fala e descansa. Só a alma do humilde pode ser este lugar que Jesus Cristo, na sua vida, não teve para recostar a cabeça.

O solitário é bom mas pensa-se completamente inútil e inferior a todos os outros. Abdicou de tudo, lavou a sua alma, apagando o próprio espírito em favor da luz de Deus, que em lugar dele pode brilhar, e nada mais tem senão a vontade profunda de não ter outra vontade que não a de Deus.

A quietude que se encontra nesta solidão é fruto de uma concentração da alma, de um recolhimento em si mesma, onde, longe do pecado ela se pode tornar pura, e pura, porque vazia e apta a ser recompensada pela contemplação de Deus, prémio da fé que a levou a ousar tanto.

O desprezo pelo mundo tem sentido se for por amor a Deus. Sigamos pois Jesus Cristo. Entreguemos tudo, tudo, até o nosso próprio espírito nas mãos d'Aquele que, por amor a nós, entregou o seu, preterindo-se a si mesmo em nosso favor.

Esta simples perfeição, de se ser só, nu e vazio, é o apelo de Santo António, que nos prega a capacidade deificadora da solidão, da nudez e do esvaziamento da alma.

Cumpre-me, muito pessoalmente, prestar aqui uma homenagem ao trabalho do Professor Gama Caeiro em torno de Santo António. Foram os seus estudos que me introduziram no pensamento antoniano, é a sua obra Santo António de Lisboa (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2 vol.) que subjaz a tudo quanto acima foi dito. Dele só conheço aquilo que já tive oportunidade de ler (dado que nunca conheci pessoalmente o Professor Gama Caeiro) mas, e talvez por isso mesmo, deva aqui partilhar aquilo com que me deparei durante o meu estudo: Gama Caeiro é capaz de fazer passar não só as ideias, os conceitos abstractos, como também o testemunho; não só o pensamento de Santo António como também a própria presença deste que aqui estamos a homenagear. E tudo isto com o simples, ou talvez muito complexo, recurso que é a linguagem escrita. Talvez esta comunicação, resultado do meu estudo, nada vos tenha trazido de novo, mas que então fique assente que este aluno, ou melhor, este leitor é que de nada vale.

Antes do adeus, resta-me agradecer o convite à organização deste congresso, é para mim, como deveis calcular, uma das maiores honras que já tive oportunidade de ser alvo. É que o facto de daqui estar a falar-vos (mais de duas mil pessoas versadas em Filosofia), significa possuir o estatuto de filósofo. A Deus o agradeço. A-Deus.

Comunicação ao Congresso Internacional Pensamento e Testemunho
Porto, Outubro de 1996