Wednesday, August 15, 2007

João



Era um rapaz que um dia resolveu escrever uma carta...

Queria libertar tudo aquilo em que pensava... aquilo que sonhava... aquilo que tanto o fazia sofrer... queria libertar tudo isto e escreveu:




João:

Sei que aquilo que sonhas jamais se concretizará, e por isso tanto sofres... sofres ainda mais pelas tentativas que fazes para te habituares, ou melhor, para tentares contentar-te com o que tens...

Não sei o que te posso dizer, pois no fundo tu és eu, e sei o que se passa contigo, e muito melhor do que ninguém... no entanto, João, luta, não te contentes com o que tens e não te contenta... luta pelos teus sonhos e se tal batalha te for desfavorável... pelo menos tentaste, e isso... isso não sei se vai ser melhor se pior do que o que agora sentes...

Um abraço,

João.




Passaram anos e o João nunca se submeteu totalmente à sua (triste) realidade, assim como nunca lutou com todas as suas forças... e chegou o dia em que se tomou a decisão fracturante... em que chorou e em que fez o que não sabia bem o que era... Fugiu...


Fugiu da realidade e do sonho, correu tão depressa que não se deixou apanhar por aquele que fora outrora...

Não se soube mais nada... nem do João nem daquele que lhe fugiu... a não ser que o que há de mais certo é que todos temos que morrer... morrer no real, morrer nos sonhos e morrer na fuga...

Gostava tanto de saber daquele de que o João fugiu...

-...João!?!... João!?!

- O João morreu e o outro também... mas o Outro não.





Sunday, August 05, 2007


Encontrarás o sentido da tua vida
se fores capaz de a contar
como uma história de amor.


Nuno Tovar de Lemos, O Príncipe e a Lavadeira.

Saturday, July 28, 2007

Do outro lado do oceano




Qual Dom Quixote, também tentou mais tarde, escrevendo, descrevê-la... mas os moinhos eram ainda e sempre moinhos.

Partilhou com um bom amigo e isso aliviou-lhe o fardo... Dizia alguém que a grandeza de carácter se pode medir pelos segredos que a pessoa leva consigo para outro mundo sem que deste lado ficasse rasto. Mas também, de facto, a sua história desse dia não era passível de ser contada, por mais eloquente que um cérebro fosse, por melhor que fosse a ligação entre o pensamento e a linguagem, era impossível. 99% perder-se-ia... Não era um facto de inteligível mas de emoção pura...

Naquela manhã tudo foi frustrante, diferente e original.

O comboio estava já na linha do horizonte e ele na gare... não queria acreditar... não ficou lá nem um minuto mais assim que concretamente compreendeu que nunca o conseguiria.

De coração aos saltos tentou num último esforço alcançar a segunda carruagem, sem sucesso. Já era tarde. Um minuto. Um só, sem metáfora, 60 segundos teriam bastado. Tivesse-lhe o tempo concedido isso e poupavam-se as gotas de sangue que lhes escorriam do coração.

Não, não o queria apanhar... tão só olhar o que estava para lá de determinada janela. Uma das da segunda carruagem. E corria. Tentando alcançá-la. Só podia ser assim. Havia-se cumprido todo um caminho de loucos até ali, faltava tão pouco... Nem que um sortilégio qualquer inesperadamente o fizesse conseguir.

Faltava menos de um minuto até que os carris começassem a puxar o comboio, não conhecia o caminho exacto para encontrar a plataforma certa mas uma pista era suficiente: 3. Encontrou-a sem engano mas era longe e o relógio teimava em não perdoar uma única batida. Muito mais rápido batia aquele coração... era algo sem sentido mas com um tremendo sentimento. Queria olhar. Só olhar. Nada mais que um beijo de olhares.

Minutos antes, dentro do carro fazia-o voar a pique em direcção à estação central porque queria chegar a tempo. Não sabia quanto tempo faltava, mas nunca ousou perder uma migalha apenas.

De súbito tomou uma decisão. Tinha de conseguir. Era como nas histórias, o final só poderia ser feliz ou chegaria a tempo e qualquer palavra seria desnecessária. Ou chegaria tarde e nada e ficaria a história de uma perda de tempo.

Sim. Vou já.

Parada?

Onde estás?

Olá.


Um pedaço, farrapo de tempo que tantos desperdiçam e o horizonte não engoliria aquela caravana de metal sem que na estação tivesse cumprido a sua missão.

Uma evidente e irónica forma metafórica de espelhar o que viria a acontecer depois?

A vida é assim! Uma maravilha de incertezas. Um universo de possibilidades que a cada segundo se determinam, ao mesmo tempo que outras tantas surgem na linha do horizonte... De nada nos vale prever o futuro, por muito que se sonhe somos feitos para viver. Não há saída. É viver. Estar vivo e querer estar.

Os melhores e os piores momentos da nossa existência, vistos ao longe não são sequer oscilações... apenas pontos de uma linha recta que nasce no céu e ao céu torna.

Podemos sim sorrir ao contemplar a nossa vida. Ficar feliz por ela e por nós. Agradecer a Deus a possibilidade, o Dom.

Mas há sempre vida depois. A vida não se perde. A morte nada é senão uma porta para onde tudo faz sentido.

Cada um de nós é uma séria esperança. Um não-acaso absoluto.

Nestes hojes, só consigo sorrir perante TUDO quanto a vida é.

Monday, July 16, 2007


Sinto-me fugir, a cada dia, de tudo o que faço.

Recordo com angústia o ontem que me sorriu.

Lamento o que era e já não sou.


Quero o passado com todos os que me rodeavam...


Anseio o futuro com todas as suas boas possibilidades.


Sinto falta de viver de outra forma,


e tendo o amanhã para isso, não abro mão de sonhar.


Hoje, hoje sinto-me muito triste...


Com uma paz de derrotado,


Com a certeza profunda de que sou um injustiçado,

por um qualquer tribunal que desconheço.


Sou totalmente responsável por mim,


talvez seja isso aquilo com que não sei lidar,


a condução de meu ser.


Preciso de ter algo diferente de mim


e que sirva para eu culpar de tudo


De tudo o que de triste se me manifesta no coração.


Queria ser outro, mas sou eu.


Assim sendo, estou triste.


Só que eu sonho


e ansiosamente espero por aquilo que ouso sonhar,


Este sou eu, hoje.


Eu,

Tuesday, July 10, 2007

sem título





Acredito que no final tudo acaba bem,

se não acabar é porque não chegou ao fim !





Saturday, June 16, 2007

Miguel Castro




Miguel Castro era viúvo e sentia tristeza pela sua vida cheia de solidão. Sentia saudades da sua esposa e sentia ainda mais fortemente o arrependimento pelo que lhe havia feito e dito durante tantos anos de um casamento pouco feliz... que acabara quando conscientemente Miguel Castro assassinou a sua companheira.

Tinham passado muitos anos sobre o assassinato e Miguel tinha acabado de sair da prisão... Levava a vida de um verdadeiro solitário, não precisava de trabalhar pois tinha dinheiro que chegava... precisava do perdão dela, da sua mulher, daquela com quem ele mesmo um dia se comprometeu a amar e um outro dia matou...

Não foi precisa a reclusão do estabelecimento prisional para lhe fazer ver que agira mal... foi no segundo seguinte ao da morte da sua esposa que se arrependeu... é que acaso ela não tivesse sucumbido naquele segundo, ele amá-la-ia para o resto da sua vida... tal a força do sentimento que o encheu.

A prisão foi voluntária e Miguel passou por ela como quem passa por alguém que não conhece numa rua cheia de movimento... quase não deu por nada... esteve absorvido no e pelo amor de alguém que assassinara... pensava calmamente no que tinha feito e no que sentia, passava metade do tempo a dormir e a sonhar com ela, sonhava a realidade que existiria acaso a morte esperasse apenas um segundo... Vivia triste, dormia alegremente... e por isso a prisão foi até o melhor sítio para ele... Agora ele era "livre", podia passear, ir onde queria... foi ao cemitério vê-la... mas o corpo já não estava lá... afinal já tinham passado 20 anos... no seu lugar estava outro qualquer alguém...foi para casa...

Marcava o calendário 16 de Junho de 77, deitou-se e disse:
O meu coração está ansioso por ti... quero ir para junto de ti... sei que me perdoas-te mas tenho medo de me suicidar, por isso gostava que me viesses buscar enquanto durmo... Por favor!!


Depois adormeceu...



Acordou a meio da noite dessa mesma noite e disse:

Oh meu Deus, quero tanto a companhia da minha esposa como a Tua, mas não matarei segunda vez, pois penso que o suicídio é ainda mais imperdoável que o assassinato... pois como Te havia de explicar que infringira a Tua lei para colmatar uma anterior infracção... não! Meu Deus, eu quero ir ter com ela, e Contigo... mas não matarei... Vem buscar-me, se vires que estou certo... ou então ajuda-me a fazer qualquer coisa na vida, qualquer coisa que Tu penses ser melhor...
e adormeceu calmamente...





Miguel Castro acabou por morrer muitos anos depois em terra longínqua... e o tempo que passou entre aquela noite de 1977 e a hora da sua morte foi vivido intensamente, dando... recebendo em troca sorrisos e alguma dor... não voltou a pedir a Deus que o viesse buscar, pedia apenas que o ajudasse a continuar vivo... Na esposa pensava sempre que via algum cadáver por aquelas terras... nessas alturas não evocava o seu nome mas somente rezava a Deus.

Morreu e acordou um segundo depois...





Feliz.

Monday, May 28, 2007

Filipe



Filipe Fernandes vivia numa boa vivenda, tinha mulher e dois filhos pequenos. Queria mudar de vida, recomeçar tudo de novo. Desejava ter coisas melhores, queria muito ser mais feliz.

Sentia a angústia de não poder decidir tudo novamente, mas restavam-lhe ainda forças para se revoltar e, Filipe ia emprega-las todas de uma só vez... Filipe iria procurar no futuro aquilo que no passado lhe tinha falhado.

Fez uma pequena mala com o essencial, despediu-se dos filhos com um beijo, enquanto dormiam, e bateu com a porta.

Pegou no carro e acelerou, acelerou muito. Sentia-se calmo e cheio de paz, mas inquieto com o que iria encontrar.

Filipe decidiu voltar atrás para retornar a casa. Não era definitivamente, mas apenas para explicar àquela com quem casara o porquê do seu adeus. Teve medo e duvidou, quer da verdade, quer da validade, do que ia fazer, mas já tinha feito inversão de marcha e pensou que apesar das hesitações... tinha que ser. Era o que estava certo.

Demorou ainda algumas horas até chegar à casa que o conhecia haviam já mais de 10 anos.

Tocou à porta e passados alguns minutos já estava sentado no sofá descrevendo o seu coração à esposa. Ela chorava...lágrimas de um sofrimento profundo cujo porquê era profundo. Eram gritos do coração e tinham a sua razão.

Filipe partiu depois de tudo ter dito.

Doze meses depois estava já bem instalado num quarto de um bom hotel de um país que sempre desejara conhecer. Tinha arranjado emprego facilmente devido à riqueza do seu currículo.

Conhecera muitas caras e pessoas, mas já sentia que era tempo de arriscar tudo, mesmo TUDO. Uma vida realmente nova.

Procurou então alguém disposto a partilhar consigo tudo o que se pode partilhar. Quase por coincidência viu-a no dia seguinte. Era uma mulher baixa, cabelo ruivo e muito bonita, alguns anos mais nova do que ele.

Duas horas (repartidas por três dias) depois de ter falado com ela, beijou-a. E que maravilhosa felicidade!

Quando chegou o tempo de morrer sentiu um não sei o quê de indiferença perante a vida. Fechou os olhos e com um murro na cama despediu-se deste mundo.

Mundo que ansiará sempre por saber se Filipe morreu feliz...

Mundo que quer, sempre e a todo o custo, encontrar Filipe e perguntar-lhe o que lhe disse Deus quando chegou perto d'Ele.



Sunday, May 20, 2007

mais uma amiga...

digo de mim para mim:

todos vão...

uns ficam, outros, na outra margem esperam... no lugar onde somos pesados de acordo com o peso dos nossos corações...

para os que, por enquanto, cá ficam...
é bom que pensemos que os que passaram para lá, fazem parte do nosso passado.

Que não se deve desperdiçar energias com o que não se pode controlar,

há que olhar em frente,

pensar com clareza...

a fim de que se possa sobreviver...

com qualidade...

poesia de vida a tua.
tragédia de vida a nossa.

ajuda-nos daí...

obrigado Sofia.

Saturday, April 28, 2007

André

Era uma vez... Um grupo de homens que tendo ido passear pelas montanhas resolveram parar no cimo da montanha mais alta, mesmo no cume...

De súbito, um dos homens, o André, perguntou aos outros o que viam, apontando para toda a região que se estendia até ao infinito, os outros deram respostas que ora era um vale, um bocado de terra, uma paisagem bonita, etc. Depois perguntaram ao André qual seria a sua resposta, ao que este respondeu: "Não sei."

Findo o período de descanso, todos se ergueram, menos o André, que permaneceu serenamente a olhar a região que se estendia na sua frente... os outros então disseram-lhe que iriam partir, e que se ele estava tão apaixonado por toda a paisagem, o melhor seria ir visitá-la com eles... mas o André ficou, pois tinha ficado estupefacto quando se apercebeu que não percebia o que era aquilo que se estendia na sua frente.

Na sua cabeça reinava a pergunta: "O que é isto?", e as respostas pairavam descontroladas: "É um vale", "È um bocado de terra", "É uma paisagem", "São árvores e lagos e campos e...". "O que é isto?" não tinha uma resposta, não tinha muitas, não tinha resposta.

Decidiu ir ao encontro dos seus companheiros de viagem... e quando se aproximou deles logo lhe perguntaram: "Então qual é a resposta, já a sabes?". Ao que André permaneceu em silêncio... os companheiros insistiram, mas ele também.

Não passou muito tempo até que o André resolvesse voltar ao cume da montanha... Despediu-se dos outros e caminhou para lá...

Sentou-se confortavelmente e pôs-se a ver "tudo aquilo"...

Algum tempo depois colheu uma flor e viu o "tudo aquilo" na flor... O que era afinal o "tudo aquilo", que estava na paisagem, na flor e depois até num cabelo dos seus???

A resposta a si mesmo foi pronta e esclarecedora:

"- André, não há resposta para perguntas realmente sérias, és um homem e deves conformar-te com estas coisas."

O André aprendeu então a olhar para tudo aquilo, encontrando o "tudo aquilo" em tudo... e sempre a fazer perguntas, com as quais não se preocupava em andar à procura das respostas... Estava feliz... Teve entretanto pena dos seus amigos, pois estavam a perder tudo aquilo que ele vivia, agora tão intensamente.

Alguns dias depois, encontrarem-se todos e começaram a trocar as experiências da viagem... Um amigo começou por dizer ao André o que ele não vira... aquele lago, que do cume da montanha parecia uma simples poça, era na verdade grande e bonito, tinha peixes às riscas, nas margens havia uma plantas curiosas e havia até formigas de uma cor que ninguém soube explicar, etc.

André sorria-lhes, e eles acabaram por ficar tão indignados, que lhe perguntaram porque sorria. E disse:

"- Vocês viram tudo isso, mas precisaram de andar muito, de se cansarem ainda mais, e no entanto, eu, lá de cima, vi tudo isso que vocês não viram... É que quem olha para o chão também consegue ver as estrelas, assim como de noite se pode ver o sol... Conhecer uma pedra é ter a percepção imediata da sua natureza íntima... que é a mesma para tudo, o ser."

Um deles interrompeu-o:

"- Mas responde-me lá à pergunta que a todos fizeste, o que é tudo aquilo???"

O André ficou um tempo em silêncio e por fim disse-lhes:

- A minha resposta é o silêncio...

- O quê? tens de definir.
- ... ... ... É que se eu definir qualquer coisa, já a estou a privar de aspectos que essa mesma coisa possivelmente também é... e como um todo só se deixa definir nas suas partes constituintes, logo se defino algo, também tenho que definir o todo onde se definiu a coisa, e o todo onde está o todo em que está a coisa, e daí por diante..."

Os amigos levantaram-se e foram embora. Alguns deles, dias depois, foram sentar-se no cume da montanha, mas nunca nenhum deles viu o mesmo que o André...

Nunca mais ninguém soube que o André se tornara num homem muito feliz, e isso desde o momento em que percebeu que as perguntas realmente sérias não têm resposta, ou melhor, até têm... só que não é para os homens compreenderem...

Morreu anos mais tarde...

Só depois disso compreendeu tudo o que há para compreender...



Monday, April 09, 2007

Sócrates... ser ou não ser (engenheiro)?


já mandei!


Ora, se fez pós-graduação em sanitária...
algo teria que ter feito antes....