Saturday, December 08, 2007

A Felicidade e a aparência dela.


O conceito de Felicidade é tomado por quase todos nós como o corolário da existência humana. Rara é a pessoa que não afirma que “quer ser feliz”.

Todavia, a Felicidade acaba por ser definida como um estado alcançável através da realização dos sonhos.

Mas, verdade é que a natureza humana contém na sua essência uma incompletude permanente. O Homem é um sonhador - diz-se. É antiga a teoria do perpétuo, por alguns chamado de Donjuanismo, aquela que afirma uma primazia absoluta da conquista sobre a manutenção do alcançado. Prefere-se sonhar, lutar pelos sonhos, alcançá-los e... Sonhar mais e lutar ainda mais para o alcançar, alcançá-lo e... Sonhar mais e mais...

Como se o alcançado, sem sofrer nenhuma outra mutação senão a de ter sido conquistado de facto, perde-se a aura mágica que o envolvia enquanto o Homem lutava por ele, ficando sem graça.

Ora, tal coisa só pode ser própria de quem realmente não quer mesmo ser feliz.

Há que parar e pensar se estaremos neste ciclo tão infindável quanto frustrante. Pois se o Homem tem consciência deste seu perpétuo desejar, porque não se dará conta de que é, na verdade, um caminho que leva a lado nenhum, menos ainda à felicidade?

Mas haverá outro caminho?

Julgo que sim. Por não mais que uma atitude empenhada em ser feliz, concentrar a atenção no que se é, no que se tem, desvelar-lhe o que de precioso há nele, e amá-lo, quere-lo, usufruir. Afinal, quem se permite a vida de sonhador, será desgraçado quer concretize os seus “sonhos” quer quem não o alcance.

Muitas são as vezes que se busca prazer, poucas aquele que vale de facto o bem que causa. Tomemos a distinção do prazer que se obtém pelo orgasmo daquele outro que se alcança da contemplação de um sorriso sincero de uma criança. Que os distingue? Algo que não o prazer... Será que há quem tenha consciência da tão profunda quanto importante diferença? Certamente que sim. Qual será a razão que justifique que se atribua o mesmo nome a sensações tão díspares? Porque não se busca o profundo e se prefere o superficial?

A existência humana encontra-se desde sempre sob a égide de uma mentir, facilmente desmontável com a aplicação da mínima racionalidade para a desmascarar... Talvez porque a máscara nos é agradável? Ou será que, no fundo, preferimos ser infelizes? - justificando assim na vida algo que nos é evidente como merecido no íntimo.

O sonho comanda a vida por trilhos que não a levam ao seu destino. A felicidade é de quem consegue compreender quem é e se encanta pelo tão simples quanto generoso dom da vida.

Muitos, tantos..., tomam a felicidade como se se tratasse de uma terra longínqua a que interessa, por todos os meios chegar... MAS, e se a felicidade fosse uma forma de viajar nesse planeta onde os outros buscam a terra dos sonhos?

Sim, o contra argumento mais do que expectável para esta tese é a de que o seu autor, no caso - eu, não é alguém feliz. Pois sim, tenho muito da minha vida já vivida entregue às mãos da infelicidade, e nisto não sou nem mais nem menos que todos os demais... No entanto, tenho sido capaz de seguir o que aqui prego e ser feliz. Talvez não tantas as vezes quanto me é possível... Não é fácil lutar contra esta natureza humana que teima em querer o que não se é ou tem. Oh, mas tenho sido feliz, e acredito que muito mais que a multidão com quem me cruzo na vida. No ponto mais íntimo da minha intimidade reside uma luz que faz de mim um ser Feliz. E por ser feliz, mais feliz sou.

É dado a todo o Homem ser feliz, à partida, sem qualquer outra luta senão aquela que se deve ter no momento em que na sua consciência assomam ideias de sonho...

Afinal, cada Homem é o que lhe fica depois da sua morte, tudo o que esta pode afectar é superficial, uma felicidade que não o é de facto...

Se me deu a honra de ter lido este texto até este ponto... Obrigado e Seja Feliz... JÁ.

Saturday, November 17, 2007

MMN


Procuro ser feliz, sou eu. Tento respeitar as pessoas, principalmente os que não têm nada de “respeitável” aos olhos da multidão... também me é reconhecido algum mérito na loucura com que encaro certos momentos da vida... pois... há quem diga que é uma doença qualquer que me leva a ser um desequilibrado para a originalidade, outros simplesmente sorriem sem saber o que pensar nem que dizer... sinceramente, há dias em que eu próprio me apelido de “um bocado parvalhão”! hoje deu-me para publicar aqui a minha ideia de MMN...

Sempre considerei o natal um tempo especial. Ao considerá-lo como um tempo claro que estou a integrar os largos dias que o antecedem. Tenho ideia que é tempo de milagre. Podia chamar-lhe magia de natal, mas parece-me bem mais adequada a designação de milagre(s).

Ora, também não é de hoje que me julgo como alguém de quem Deus espera umas coisas, nomeadamente que ajude os outros homens e mulheres que estão no mundo comigo. É curioso que por vezes sinta que Deus me anda a “chatear” para fazer determinada coisa...

Hoje, estava eu na Igreja – por ter ido levar a minha filha para a catequese, quando dou por mim a desatinar com o já citado Sr. do Andar de Cima (gosto de pensar em Deus assim!!!) sobre a eventualidade de publicar aqui no blog a razão deste texto.

Bem, e sem mais entretantos, no mês de Dezembro sinto que devo fazer uns quantos gestos que – se bem feitos – serão considerados pelos visados como milagres, uma vez que importa não deixar rasto... o que até torna a coisa bem mais engraçada!

Até ao natal tratarei de fazer, pelo menos um, destes milagres.

E o meu desafio é que os leitores do meu blog o façam também...

Algumas pequenas regras:
  1. Deverá ser algo significativo para a pessoa que o recebe.
  2. Devo procurar apurar o sentido de necessidade, i.e. não contam os actos de instinto / momentâneos, é preciso que seja algo minimamente pensado e preparado.
  3. Tentar por todos os meios que haja o mínimo de possibilidades de o acto remeter para a minha identidade, i.e. não devo deixar rasto pelo qual a pessoa possa saber que fui eu...
  4. Não contar a ninguém o que realmente fiz.

Se pensarem bem não é assim tão difícil, nem tão fácil, quanto parece. Nunca fiz nenhum destes MMN (Meus Milagres de Natal) à espera de uma retribuição qualquer, sinceramente nunca cobrei nada a ninguém, nem tão-pouco ao Sr. do Andar de Cima... isto ainda é mais estranho porque sou uma pessoa algo egoísta, e quem me conhece sabe que não sou nada santo, muito menos desprendido de tudo.

Os MMN sempre me deram no momento a sensação de dever cumprido e a felicidade por ter concretizado algo que me diz profundamente respeito. Isto é de tal forma que me chego a questionar se não terei uma qualquer sentido pagão/ateu de encarar este gestos!! Os MMN são de mim para mim.

Claro que para ser algo bem feito deve envolver um certo custo, mormente o da pessoa que o protagoniza sacrificar um pouco o seu umbiguismo inato! Mais, há também que ultrapassar um factor que sinceramente no qual tropeço várias vezes: o acto é isolado, logo, que diferença fará? A esta questão tento sempre dizer que a mais significativa distância a percorrer é o 1º passo, o que nos tira da imobilidade. Mas além deste argumento há um sem número deles que nos tentam desviar do nosso projecto MMN.

Talvez este texto seja apenas motivado pelo meu umbiguismo... com certeza que se ninguém de vós aceitar este meu desafio de fazerem um MMN terá sido em vão... pior, terá sido supremamente umgiguista, na medida em que ficarei bem visto por... sei lá... por isso mesmo.

Era bem engraçado saber que a minha vontade e “experiência” neste campo dos MMN fosse seguida por alguém... mas... estou absolutamente certo que certamente alguém vai acreditar na minha palavra: Vale a pena! Daí até fazer qualquer coisa, pois, isso vai ser uma luta “dos diabos”!!!

Uma certeza: quem o fizer ficará super-feliz consigo mesmo.

Um pedido: que o Sr. do Andar de Cima ajude que resolver entrar na onda do MMN.

Então...

Que acham?

(para esclarecimento de qualquer dúvida, deixe mensagem após o sinal!!)


Sunday, November 11, 2007

Alfredo


Alfredo era adolescente quando ficou em casa sozinho durante um mês... os seus pais e irmão tinham ido passear para o estrangeiro... os seus poucos amigos tinham acompanhado as suas famílias nas férias... a sua namorada tinha-se apaixonado por outro e tinha acabado o namoro... Alfredo estava sozinho.

Cozinhava para si... lavava a loiça, a roupa e todo o resto de coisas que temos de fazer quando estamos sozinhos em casa...

Nos primeiros dias começou por usufruir de certas vantagens de estar sozinho... ouvia música no volume mais alto possível... via filmes até de madrugada... por vezes saía e ia até uma discoteca onde bebia álcool, muito álcool... etc....

Ao fim de 15 dias parou um pouco... desligou tudo e ficou em silêncio de frente para um espelho... olhou-se e começou a pensar que estava triste e que essa tristeza era, talvez, muito mais profunda do que aquilo que ele julgava antes... A ideia que lhe subiu à cabeça foi a de que a solidão é inimiga do coração, e que o profundo chorar que lhe ecoava do íntimo era fruto dos diferentes condicionalismos externos... estava só... e isso provocava nele tristeza...

Olhando-se sempre no espelho continuava a pensar na miséria do mundo, na tristeza de tantos homens sem pão, sem casa, sem família... sem nada... pensou nas guerras e nas catástrofes naturais... pensou na morte... a morte assustava-o só de ele a pensar...

Parou um pouco, olhou em redor de si e com um sorriso olhou-se no espelho e disse para consigo mesmo:

- Alfredo... estás vivo, tens o que comer, tens pais, nada te falta a não ser um pouco de companhia, de alguém com quem conversar aqui e agora... uma rapariga talvez... ou se calhar bastava-te um amigo... ou até mesmo o teu pai ou a tua mãe... se só te falta isso, não achas que deves estar feliz, pois afinal... afinal até tens com quem conversar: contigo mesmo... e como precisavas de falar contigo, com esse teu amigo tão grande e que sempre esqueceste!!!

E ficou a olhar durante muito tempo para aquele espelho que lhe mostrava aquele que ele sabia ser o seu melhor amigo e que só agora o descobrira...

Pensou depois na vida... e na morte, chegou à conclusão que ele não detinha a sua própria razão de ser... não era responsável pela sua existência... Pensou em Deus, e logo Lhe agradeceu o que segundo Alfredo era a Ele devido... ou seja... a vida, o pão, a casa... e o mais importante... este amigo que ele descobrira ter e ser esse o alguém que sempre procurou... Agradeceu a Deus o ter-se encontrado...

Não mais teve medo da morte, pois tinha como seus melhores amigos duas pessoas importantíssimas para ele... Deus e ele mesmo.

Acabou por deixar o espelho... e não sabendo muito bem o que fazer, pois o que acabara de descobrir era demasiado importante e não tinha aplicação prática ali e naquele momento... O que é que o Alfredo ia fazer?

Foi fazendo as tarefas que quem está sozinho em casa tem que fazer... mas não precisava mais de televisão nem de álcool pois os seus dois amigos mais importantes e curiosamente mais recentes chegavam-lhe... E foi assim que passou os 15 dias... conversando consigo mesmo... com Deus... e como eram afinal três, era muito engraçado o que acontecia quando havia um diálogo a dois e o terceiro escutava... era engraçado pois o terceiro era o mais importante... ouvia a discussão dos outros dois e aprendia a julgar, pois acaso houvesse um empasse no diálogo era chamado a intervir...

Mais engraçado ainda era quando o diálogo era a três... Era preciso uma ginástica de campeão olímpico para se ser sério e conversar de facto...


No último dia de férias dos seus pais, e por conseguinte, o seu último dia a sós... levantou-se e pensou o que iria acontecer no dia seguinte... Lá conversou com os seus dois amigos e ficou resolvido que o que de melhor havia a fazer ali e naquele momento era limpar a casa toda muito bem... preparar um grande bolo para festejar as boas-vindas dos pais e irmão... e com o dinheiro que conseguiu poupar, dado a sua descoberta a meio das férias, comprar alguns presentes para todos...

Assim fez...

Todos ficaram radiantes...

A partir desse dia viveu sempre em conformidade com a decisão democrática do conselho dos três amigos... Ele, ele e Deus.

Teve uma vida esplêndida... e quando já estava muito velho declarou aquela que viria a ser a sua última comunicação no conselho dos três amigos...

O que aprendi com a vida é que nas decisões tomadas por unanimidade tudo correu bem na prática... ou pelo menos a intenção era a melhor independentemente da concretização material do que se queria...

Quando um dos Alfredos perdia e a outra parte ganhava, as coisas corriam bem mas podiam correr melhor...

Quando era Deus que ficava a perder na votação...sempre foi trágico.

Por tudo isto, e que não é nada pouco, quero que aqui fique assente que o Alfredo é um bom amigo mas que nós os dois sem Deus somos demasiado pequenos e estúpidos... pois julgamo-nos detentores da verdade e grandes pois podemos decidir o que queremos... mesmo contra a vontade de Deus...

Quero pedir desculpas a Deus, pois o que sei hoje é que a riqueza da vida se obtém quando há diálogo Contigo... e que somos estúpidos quando Te achamos errado...

Estava quase a sucumbir quando disse as suas últimas palavras:

Deus... em verdade e com clareza vejo... agora mais do que nunca... que Eu sou um pouco de Ti... um outro eu... Teu... Um deus pequeno que és Tu e que pode falar sozinho... Era tão bom que todos os homens percebessem que são o reflexo no espelho... e o que é um reflexo no espelho... nada é, se nada estiver virado para ele...

Muitos são aqueles que se procuram no reflexo do seu reflexo... a esses peço-Te, oh Deus, que lhes dês um espelho como fizesTe comigo...


Morreu tremendamente feliz... pois tinha em si a sua razão de ser, Deus... e... missão cumprida... voou até Ele...

Sunday, November 04, 2007

Belarmino


Belarmino era casado e tinha dois filhos, eram emigrantes num país qualquer...

Haviam-se estabelecido há vários anos, e tudo corria mais ou menos bem, quando rebentou uma revolução e o poder se tornou despótico, tendo como linha de força a exploração dos estrangeiros...

Belarmino e a sua família suportaram a submissão própria de uma escravatura até que um dia ele resolve comunicar aos seus o seu desejo de fugir... Todos sabiam que a fuga lhes podia valer ou a liberdade ou nada... e isto invadiu-lhes o espírito durante dias: ou a liberdade ou nada... até que um dia... o dia marcado, tudo estava pronto, ou melhor, todos estavam prontos, dado que não pensavam levar consigo mais do que a vontade da liberdade e a roupa... O plano era simples: tentar passar a fronteira a pé, correndo, fugindo aos mais do que prováveis tiros das tropas daquele país...


Chegaram ao fim da rua, a fronteira estava a cerca de 200 metros... tão perto e tão longe... O filho mais novo disse então:

- Vamos! Ou a liberdade ou nada!

A mulher de Belarmino chorava... O filho mais velho cerrava os lábios... tudo estava pronto...

Belarmino dá então a ordem de que seria daí a um minuto que correriam tanto quanto as suas pernas o permitissem... E que minuto tão grande... o maior que já tinham vivido...

30 segundos... nem lágrimas nem mais nada a não ser a vontade de ferro de ou liberdade ou nada...

5... 4...3... 2...1... JÁ!

E toda a família começou aquela corrida para a liberdade... começaram-se a ouvir tiros e tiros, e a família começou por perder a mãe que tinha sido o primeiro alvo bem sucedido duma qualquer espingarda, depois o filho mais novo... o mais velho e Belarmino corria sozinho, faltavam poucos metros... 3 ou 4 ... parou, levantando os braços em sinal de rendição... Os outros morriam e Belarmino de braços no ar... Rapidamente os tropas mataram toda a família à excepção de Belarmino que se havia rendido... Algemaram-no e bateram-lhe... muito!

Já no calabouço partilhado com ratazanas Belarmino chorou, chorou tanto, que não podia mais...

Não era pela sua família ter morrido... era por ele a ter desiludido... pois tendo sido o único a ter a possibilidade de liberdade não o tinha tentado até ao fim... e não sabia porquê... Agora e alí, nem liberdade nem nada... a sua família tinha alcançado o nada, ele nem uma coisa nem outra...

Remorso, arrependimento... não era nada disso, era a aterradora sensação de ter sido sentimentalmente cobarde, de estar perto e desistir...

Quando dormia sonhava sempre com o mesmo:... o filho mais novo a dizer: - Vamos! Ou a liberdade ou nada! e acordava sempre sentindo que o facto de se ter rendido, o facto de levantar os braços no momento em que o fez... o fizera perder toda a dignidade e razão de ser pai e marido... pois ele traiu os seus nesse preciso momento.

Anos mais tarde foi condenado por razões irracionais a ser fuzilado... e o seu último pedido foi o de poder ser abatido de costas e de braços ao alto... os únicos momentos em que viveu feliz foram os que se seguiram ao seu pedido ser aceite e que terminaram quando todas as balas lhe entraram dentro...

Monday, October 08, 2007

A História de um Detalhe



Como devem saber sou cristão...

Ou melhor, tento sê-lo...

Melhor ainda: Gostava de o ser de facto.

Bem, o que importa aqui é que quero partilhar convosco a história de um detalhe.

Lembro-me de estar na Catequese e que a minha catequista nos leu e analisámos todos esta parábola. Recordo-me bem de lhe ter dito que eu não pensava da mesma maneira que todos os meus colegas e com ela, disse-lhe: "o próximo é o outro!"

Muitos anos mais tarde tive a honra de receber lições (assistir às aulas) do Padre Peter Stilwell, onde me dei conta de que na minha infância havia dito algo que ainda hoje estou por compreender, uma vez que o meu Professor de Cristologia colocou a questão de tal forma que fiquei absolutamente estupefacto...

Queiram ler a passagem a fim de que depois me explique melhor...

Parábola do bom samaritano

(Lc 10,29-34)


«Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: “Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?”

26Disse-lhe Jesus: “Que está escrito na Lei? Como lês?”

27O outro respondeu:

“Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.”

28Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.»

29Mas o doutor da Lei, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”

30Tomando a palavra, Jesus respondeu:

«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto.

31Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo.

32Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

33Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão.

34Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.

35No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’

36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?

37Respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele.” Jesus retorquiu: “Vai e faz tu também o mesmo”.»


Aparentemente quem devemos amar são todos aquele que é desprezado pelos outros, esse é o nosso próximo.

MAS, na verdade, reparemos no versículo 36... a pergunta de Jesus é mais do que uma inocente questão pedagógica. É um ensinamento. Pois conduz o seu interlocutor (e todos nós) para a realidade inversa. Qual dos 3 foi o próximo? (o tal que devemos amar) e é só entre estes 3!

Jesus tira das hipóteses de resposta o homem que caiu nas mãos dos salteadores...

Será que devemos amar quem nos amou em 1º lugar... retribuir os dons recebidos... não sei. Será Deus o nosso Samaritano... quando era criança parece que entendi isto muito bem... hoje não.

É que no versículo seguinte há algo que até hoje não compreendo: Parece-me que o doutor da Lei responde que é o homem que foi socorrido... e Parece-me que Jesus concorda com ele.

E tal como Jesus, também o Professor Stilwell não me ajudou a concluir... concordou com a 1ª parte (v.36) mas não me deu pistas em relação à segunda (v.37).

Estranho, muito estranho...

Recebo diariamente as leituras do dia via email (se quiserem é aqui) , e o evangelho de hoje era este...

Sunday, October 07, 2007

Tuesday, September 25, 2007

...


Pedaço de Mim
Chico Buarque

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus


Saturday, September 15, 2007

Avô Manfred


Andava em arrumações e fiquei espantado com uma foto do meu avô, Manfred von Richthofen, e como me achei parecido com ele resolvi publicar a foto!!!

Wednesday, September 05, 2007


Mais ou menos por alturas do reino de Tibério, ninguém sabe exactamente onde nem quando, um personagem de que se ignora o nome, abriu uma brecha no horizonte dos homens. Não era, certamente, nem filósofo nem tribuno, mas deve ter vivido de tal maneira, que a sua vida se tornou sinal de um anúncio revolucionário: cada um de nós pode, em cada instante, começar um futuro novo.

Dezenas, para não dizer centenas, de narradores populares cantaram essa Boa Nova. Ficaram-nos três ou quatro dessas narrativas. Para exprimir o choque que tinham recebido, os seus autores serviram-se de imagens de gente simples – os pobres, os ofendidos, os humilhados – quando se põem a imaginar que tudo se tornou possível: o cego começa a ver, o paralítico que anda, os esfomeados do deserto que recebem pão, a prostituta que se ergue para uma vida de mulher, a criança morta que recomeça a viver.

O amor desse homem deve ter sido um amor militante, subversivo. Sem isso, não teria sido crucificado. E para que a sua Boa Nova fosse anunciada até ao fim, foi preciso que, pela sua ressurreição, ele vencesse todos os limites, mesmo o limite supremo que é a morte.

Os eruditos podem contestar um ou outro facto desta existência, mas isso nada muda esta certeza fundamental que transforma a vida. Foi acesa uma fogueira. Se ela arde, é porque houve uma chama inicial que lhe deu origem.

Todas as certezas, até então, meditavam sobre o destino, sobre a necessidade metafísica dos acontecimentos. Esse homem mostrou a loucura desses raciocínios. Ele, o contrário do destino. Ele, a liberdade, a criação, a vida. Ele, desfatilizou a história.

Nele se realizaram as promessas dos heróis e mártires que anunciaram o despertar da liberdade do homem. Não veio cumprir apenas as esperanças de Isaías ou as cóleras de Ezequiel. Veio também quebrar as cadeias de Prometeu e os muros de Antígona, imagens míticas do destino. Nele morriam os deuses e despertava o homem. Era como se o homem nascesse de novo.

Contemplo hoje a cruz que se tornou o seu símbolo e penso em todos os homens que alargaram a brecha por ele deixada: de João da Cruz, que à força de contemplar o nada, nos ensina a descobrir o tudo; a Karl Marx, que nos mostrou como se pode transformar o mundo; a Van Gogh e a todos os que nos fizeram tomar consciência de que o homem é demasiado grande para se satisfazer a si mesmo.

Vós todos, que vos dizeis guardiães dessa grande esperança que Constantino nos roubou, devolvei-no-la. A sua vida e a sua morte pertencem-nos também, a todos aqueles para quem elas têm um sentido. A todos nós que aprendemos dele que o homem nasce criador.

É nesse poder criar, atributo divino do homem, que a minha oferta de presença se torna real. Ela está aqui, cada vez que nasce qualquer coisa de novo, que vem engrandecer o homem: no mais louco amor ou na descoberta científica, no poema simples ou na revolução criadora.

Roger Garaudy
(humanista marxista – Ex-dirigente do Partido Comunista Francês)

Sunday, September 02, 2007

A eternidade num segundo só.


Faz o bem
É o que buscam os homens bons.
Procura no mundo apenas dores para sarar.
Onde há uma dor, aí vai haver remédio.
Onde há pobreza, aí vai a ajuda.

Nunca busques água;
Mostra apenas que está sedento,
E a água jorrará em teu redor.


Era uma vez há já uma eternidade de tempo:

Estava de lá a voltar, quando me apercebi que havia conhecido o Coração do Mundo Mais Fundo.

Podia o mundo do quotidiano teimar em não querer que lá fosse. A própria racionalidade não encontrava um argumento só a favor de um “tal disparate”... mas o coração reclamava para que fosse... e deixei-me ir...

E quando as distâncias se estreitaram e os longes se tornaram íntimos, foi altura de mistérios e suspeitas darem lugar a tremendas certezas e dúvidas mais fundas.

Nessa altura, contemplei o silêncio e pude escutar a beleza das formas. Brilhos no pormenor, tons que se entregavam em suaves modulações de cor. Fechei-me ainda mais dentro de mim... deixando para traz tudo o que tenho por comum ser eu.

Como se se tratasse de seguir em sentido contrário à corrente do meu ser para lhe buscar a nascente... segui em devota peregrinação rumo ao mais íntimo da minha intimidade, onde, para lá do infinito caos que blinda o acesso à pura fonte, encontrei. Encontrei-me. Um outro eu... um tu.

Cruzámos palavras, trocámos olhares, retribuímos expressões e desvelámo-nos mutuamente. E eis que finalmente os braços, fartos de se abraçarem a si mesmos, encontraram outros braços para abraçar.

Revolvemo-nos, envolvemo-nos, e permitimo-nos ir de um ao outro... num regime de quase insana generosidade. Acto simultaneamente heróico e cobarde esse de se dar por inteiro. Depuração do desprendimento.

Encontro de um no outro, fazendo brotar todo um mar de vida e amor o que ultrapassa as partes que o compõem... implosão do infinito no finito.

Tranquilo, senti que havia mais sentido em toda a minha vida do que aquele que alguma vez poderei entender... mas vislumbrei um caminho a fazer e a percorrer, por onde só anda quem confia por inteiro na sabedoria que afirma que as dores são o preço do que lhe sucede.

Existem momentos em que um simples pedaço de tempo nos oferece toda uma ampla compreensão de nós próprios, do mundo que nos rodeia e do futuro pelo qual devemos lutar...

Estava de lá a voltar, quando me apercebi que havia conhecido o Coração do Mundo Mais Fundo.

Teu amor chegou e partiu feliz.

Depois retornou, envolveu-se mas preparava-se para se retirar novamente.

Timidamente te pedi: “Permanece dois ou três dias!”

Então, sentaste-te junto a mim e... esqueceste-te de partir.