Tuesday, May 11, 2010

Onde mais sou



Surge-me por vezes a necessidade de fazer uma viagem um pouco mais longa, uma peregrinação pelo interior do meu eu. Começo por progressivamente me ir largando de amarras aos pormenores quotidianos... quase sempre de súbito, sinto-me mergulhar numa espécie de poço do que sou. Sem vertigem mas a uma velocidade limite, são apenas uns segundos até que... até que atinja o fundo. O fundo de mim. O fundo do tal poço que afinal, descubro logo de seguida, é o topo de uma torre que se ergue numa planície imensa. Não é um deserto, mas também não é uma cidade... A torre altíssima permite-me sentir a minha cara ser tocada pelos 4 ventos... o Sol está-me mais próximo e consigo escutar o seu labor de luz... Estou completamente só, sem saída, nem ideia de como ali cheguei, mas... não sinto qualquer temor... há ali a paz pela qual todos rezamos. É precisamente ali que se sente o que nos faz transbordar de alegria, o que em nós nasce para nos preencher, o que torna real o sonho de completude...

Depois como que começo a escutar uma tempestade ao longe, sempre primeiro os relâmpagos e depois, a princípio muito depois, os trovões. A sua força faz adivinhar a sua missão... devolver-me ao mundo do dia-a-dia... assim, e sem sobressalto apesar da forte tempestade que se aproxima, despeço-me com olhar generoso de todos aqueles meus horizontes... sinto-me elevar da torre – de súbito tenho os pés no fundo de um poço que me é tão familiar... sem grande esforço dou-me um impulso que me faz voar até à superfície de onde havia partido há poucos minutos.

São sempre longas estas minhas incursões... não no tempo nem no espaço – duram poucos minutos e, de facto, nem chego a mexer-me... mas consigo chegar lá onde sou mais eu mesmo... onde sou o que sou. Sem máscaras, sem medos e sem pressas...

Saturday, April 17, 2010

Do eu


Nos tempos “livres” leio Filosofia, leio filosofias, faço-o com gosto. Textos de referência que ainda não tinha lido e novas obras... tento acrescentar algo ao que sei, ora com textos antigos ora mais moda-rnos...

A Filosofia é um caminho em espiral em busca dos contornos. Aproximação sucessiva, prudente e sólida que visa uma melhoria constante da capacidade de ser. Até ao ser autêntico. Ao Ser.

Está a Filosofia cada vez mais analítica. Hoje há uma grande corrente de gente que segue as linhas de Wittgenstein e B. Russel... onde perseguem um ideal de objectividade para a Filosofia ao nível das Engenharias.

Prefiro textos que me falem dos problemas que me tocam. Afinal, a diferença da Filosofia em relação aos outros saberes é a sua capacidade de falar ao e do eu (sim, por vezes dói). Efectivamente, alguém mo disse, a Filosofia ajudar-te-á na tua vida concreta. A tua vida será melhor – prometeu-me.

A Filosofia será pois a raiz e o fruto de todos os saberes, desde os dos zeros e uns aos dos espíritos religiosos. É o lugar onde se devem procurar causas primeiras e efeitos últimos. Não se deve ocupar do que é, mas sim do que deve ser. Um misto de sonho sério e arquitectura íntima.

Mas há já muito poucos que estão à altura da herança filosófica milenar. Podem dividir-se os seus trabalhos entre manuais de linguagem de vanguardista programação informática aplicada ao pensamento e alguns, muito menos – mas igualmente perigosíssimos, livros de, assim se convencionou chamar-lhes (até me custa a escrever:) “auto-ajuda”. Confesso que experimentei ler um e me bastou. Festival de banalidades, como se se pegasse numa herdada peça de ouro e a derretessem para colorar milhares de peças de pechisbeque.

Sempre preferi linhas de pensamento mais verdadeiro por mais íntimo e subjectivo, numa ideia simples: no fundo, somos todos iguais – a mais profunda subjectividade é um caminho objectivo para A Verdade.

Tenho preferido escritores, criadores que contam as suas histórias, que serão sempre e só auto-biográficas... porque me parece que escrever é descrever-se... e por aí se caminha para mais perto do essencial... e ao abrigo de escorregadelas para os escaparates dos hipermercados.

De vez em quando gosto de me (d)escrever.

Sunday, January 10, 2010

João Manuel


João Manuel, o homem que fez chover.

Ele sonhou, acordou e decidiu-se.

Lançado por si mesmo para o aquele empreendimento, dispôs-se a tudo.

Com a luz do sol ou da vela trabalhava montando as peças que tinha percorrido longos caminhos para encontrar. Montava aquela enorme e confusa máquina... - sem um esboço de papel.

Tinha-a completado!

Colocou-a em cima de uma carroça que dois fortes cavalos puxaram até ao cimo do monte.

No cume verificou que o sol já estava a desaparecer e que era imperioso esperar pela manhã... - o sol era fulcral.

Já noite e sem porquê trouxe cavalos e carroça para o vale de sua casa, depois despiu-se, e nu... subiu o monte até junto da sua máquina.

Esperava pelo sol, com um sorriso nos lábios, quando lhe veio à ideia que a máquina não tinha qualquer interruptor... não tinha feito nenhum mecanismo que pudesse controlar a máquina e nem sequer se tinha lembrado de como poderia ligá-la... desesperou!

Lembrou-se de que no seu sonho também não havia qualquer botão... sorriu!

Com o sol veio a chuva e o João Manuel morreu feliz... agarrado à máquina.

Nunca ninguém mais viu o João Manuel ou a máquina.

Ele levou-a consigo.

Sunday, November 15, 2009

Tenho andado nos últimos tempos mais longe deste meu blog.

Tenho consciência de que não publicar assiduamente (qualquer que seja a periodicidade) é meio caminho para deixar de ter leitores...

Desculpar-me-ão os que nunca se esquecem de ir passando...

Ora aqui vai:

Há pouco mais de um mês conheci e estabeleci amizade com um grande amigo daquele que foi o meu melhor amigo e que morreu há já vários anos...

Há menos de 3 semanas dei-me conta de uma 4 ou 5 factos que vieram esclarecer cabalmente dois ou três problemas que tinha por resolver há alguns anos!

Também recentemente, e por sugestão de um bom amigo, descobri que uma prancha de surf e eu nos poderíamos dar melhor do que alguma vez julguei ser possível; que o mar não estival é ainda mais acolhedor; que despertar com o corpo dorido durante dias seguidos pode ser uma sensação fantástica...

Num dia da semana passada, ao final da tarde e do dia de trabalho... naquilo que começou por ser uma simples conversa informal entre colegas acabei por me dar conta que estava a chorar de tanto rir, o que, felizmente durou bem mais do que 3 ou 4 minutos...

Penso que estou a começar a aprender a viver de uma forma diferente.

Friday, September 04, 2009

Presentida Tempestade


Poucas vezes na minha vida senti, como agora, com um tão elevado grau de certeza, que se adivinham tempos de mudança.

Sinto a vertigem da necessidade de deixar o presente e me largar num futuro incerto. Desagrada-me desconhecer se o para onde estou lançado é tempo de paz ou de tormenta.

Por um traço do que sou, num pessimismo prudente, julgo o que vem como sendo momento de crise... e preparo-me, demoradamente, para uma tragédia que parece consentir pressagiar-se.

Devo o que sou mais às desventuras que aos dias de Sol que vivi. Mas, estou longe de me sentir confortável com esta desditosa intuição de um difícil amanhã que sempre ganha ainda mais força por cada crepúsculo de dia que passa.

Nestas províncias do aquém-dor há já notícia de pequenas batalhas de uma guerra que, se, de facto, ainda não começou, já deixa as suas marcas...


(Obrigado ao Paulo por me puxar para a escrita... Cf. comentário ao post anterior)

Sunday, April 26, 2009

Nun'Álvares Pereira

Eis o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, santo monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge.

“Não tenhais medo por serem muitos, nem pelas ameaças que fazem com os seus gestos e alaridos, pois tudo não passa de um pouco de vento, que dentro em breves momentos terminará. Deveis ser fortes e esforçados, recebendo a grande ajuda de Deus, por cujo serviço ali estavam, defendendo a justa causa do Reino de Portugal”

- in Crónicas de Fernão Lopes




Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
faz que o ar alto perca
seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu.

'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada
para a estrada se ver!

Fernando Pessoa - Mensagem

Tuesday, January 06, 2009

A Foto Fantástica


Recebi, do meu amigo Jacintho, esta foto inserida numa apresentação de várias fotografias com pequenas/grandes curiosidades...

Gosto de fotografia... aliás, por dom certamente divino sou amigo de um dos melhores fotógrafos de Portugal, o Benjamim...

A foto aqui publicada é diferente, aliás leva o termo diferença a um expoente que nunca antes havia alcançado... esta foto é, num superlativo hebraico aplicado com rigor: a mãe de todas as fotos (de família...).

Reenviei a apresentação aos meus amigos, e a todos pedi que me ajudassem a compreender todo o potencial interpretativo desta tão singular imagem...

O meu bom amigo FCS, solicito e de rara inteligência logo me ofereceu o seguinte comentário:
"É tão óbvio que nem parece teu.
A família Adams num estágio de coveiros na Moldávia num momento de descontracção do trabalho de enterrar os defuntos do dia anterior."

Mas nem toda a generosidade do mundo seria capaz de me oferecer numa frase só tudo o que nesta imagem há de... belo, pois que seja... belo, pois que atrai o olhar... belo, porque desperta o prazer a quem a olha... belo, porque absolutamente fantástica...

Queria partilhar com todas esta imensa emoção de descobrir mais um pormenor a cada vez que a revejo... mas são tantos... prefiro lançar o desafio a cada um dos que passam por aqui... que a contemplem (clicando nela podem vê-la ainda maior!!!!) e que deixem aqui a todos os demais o seu comentário...

Quem já conhecia esta foto?

Quem a admira?

O que nela se pode ver de especial?

Friday, December 26, 2008

É tempo do Cirque du Soleil!!!!



No 20º aniversário uma actuação fantástica...





Hula Hoops - ALEGRIA



A Roda da Morte - KA



Malabaristas - CORTEO



Barras Russas - ALEGRIA



Palhaço e Cordas - QUIDAM




Trapézio - ALEGRIA




A Escada - CORTEO


Monday, December 01, 2008

Os Pensamentos dos Postais

Deambulava pela net e encontrei este concurso magnífico do Pedro Aniceto para
"O Pior Postal do Verão"
Vale a pena ir lá para ver o riquíssimo espólio..

Lá estavam as seguintes MAS inadjectiváveis composições, que me permito comentar...

têm em comum o facto de serem fruto de sistemas de pensamento que hoje são quase irreconhecíveis...

I)
É a modéstia, ou prudência que choca... mas que, curiosamente, parece bem mais adequado do que qualquer certeza ao pior estilo de um "será eterno e invencível"...

II)Este confesso que, possivelmente por falta de inteligência (minha), não consigo discernir o que estará na raiz do pensamento apresentado... são apenas e só teorias que se me afiguram: a) contra a violência doméstica (?); b) Quem decide passar frio pode esperar por flores e frutos (?); c) Apologia da Fecundidade através da Virgindade (?)...

III)
Esqueça-se a possível ilustração da frase pela imagem... esqueça-se a possibilidade de se sofrer a horas nocturnas, aqui, segundo julgo, há um desejo de sofrimento, uma espécie de antípodas de uns quaiquer votos de boas festas, com a ressalva de que o Sol brilhará sempre... seja, que soframos mas que saibamos que o Sol brilha SEMPRE por cima de qualquer dor...


IV)

Ora, se o postal I pontuava pela prudência, este deixará qualquer Schopenhauer de vão de escada a cantar as janeiras (vêem como já consigo entrar no espírito!!)... Aqui, apela-se à união incondicional sob pena de qualquer falha ter resultado fatal... Não! Será a própria união (suponho que de 2 pessoas) que se pode perder irreversívelmente se abandonar o seu caminho... Calculo que haja aqui o mesmo puritanismo que aconselha a não perder a cabeça sob pena de jamais voltar a ser digno do abrigo do amor (e não é que lhe estou mesmo a apanhar o jeito!!)... Credo, mas tamanho fatalismo só pode ser oriundo de uma mente tão desejosa da desgraça como de lágrimas no rosto amado (e não é que já me começam a sair de forma involuntária!!). Uma última consideração sobre este postal: não há mapa nem GPS que nos safe... nada. Se nos perdermos, perdemo-nos...

Friday, November 07, 2008

Deus e o Homem no Poço

Um homem tropeça num poço fundo e cai trinta metros antes de conseguir agarrar-se a uma fina raiz, que lhe trava a queda. O homem vai perdendo as forças e, desesperadamente, grita:
- Está alguém aí em cima?
Levanta a cabeça e só consegue ver um círculo de céu. De súbito, as nuvens separam-se e um raio de luz forte brilha sobre ele. Uma voz forte diz:
- Eu, O Senhor, estou aqui. Solta a raiz e eu salvar-te-ei!
O homem pensa durante um momento e depois grita:
- mais alguém aí em cima?