Saturday, August 12, 2006

Bernardo



Bernardo tinha muitos amigos, muitos... no entanto, foi no dia em que morreu e foi velado que se verificou que ninguém o conhecia. A uns tinha dito trabalhar com outros e a estes fizera o mesmo em relação aos primeiros. Três mulheres apareceram dizendo-se os únicos amores de Bernardo... mas eram três... e então perceberam que algo não batia certo.

Bernardo nunca tinha confiado em ninguém ao ponto de lhe contar tudo, talvez porque as pessoas que ia conhecendo iam obrigatoriamente, e por inércia, sendo arrastadas por aquele jogo que só Bernardo sabia jogar, pois era ele o inventor do jogo, das regras e das excepções. Nunca encontrou ninguém a quem confiar isto, porque a fazê-lo, teria que ser alguém que ele não conhecesse, e não era minimamente prudente confiar em alguém que não conhecia. Porém, um dia, pensou ter achado a pessoa correcta, a ideal! Resolveu contar-lhe tudo de uma só vez: que era mentiroso e que ninguém, absolutamente ninguém sabia disso... e que ela era a segunda pessoa a saber de tal coisa.

Um pouco comovida mas nada convencida virou-lhe as costas.

Desesperado, Bernardo desatou a correr até uma ponte e atirou-se.

Aquela a quem tudo confiou, confessando, só amou Bernardo quando este já estava dentro de um caixão e rodeado de burburinhos acerca da sua (ir)real personalidade. É que estavam ali todos, e nunca tinha falado entre si antes... foi um desastre.

Catarina, aquela a quem Bernardo julgava como sendo a pessoa ideal para o ajudar a sair do jogo, chegou ao velório e ouviu todas as contradições que se iam descobrindo acerca de Bernardo... e ela sabia tudo. Até ia sabendo o que através de uma conversa se ia descobrir. Sentou-se e chorou.

E enquanto chorava alguém veio ter com ela e perguntou-lhe:

À Sra. quem ele disse que era? Olhe, não fique assim triste, pois está aqui a descobrir-se que ele era um grande aldrabão, e por isso não merece as suas lágrimas.


Catarina nada respondeu.

Foi ao funeral e depois de comprar umas quantas testemunhas, foi-se entregar à polícia dizendo que fora ela quem tinha, voluntariamente, empurrado Bernardo da ponte.

No tribunal deu-se como provado o homicídio e Catarina foi condenada a prisão perpétua. Era o que ela queria: esperar sozinha pelo momento de pedir perdão cara na cara daquele que um dia se tinha confiado totalmente a ela.

Envelheceu na prisão e lá morreu... era a sua vontade.

Nada mais se sabe.

6 comments:

weee said...

Catarina nada respondeu.

(O silêncio vale mais que qualquer palavra que eu possa aqui escrever)

firing said...

talvez isto nos garanta que por muito mais que achemos que a pessoa é a tal, não devemos confiar nela. Pois uma reacção é sempre imprevisivel, é sempre impossível prever qual a resposta que vamos ter da pessoa para quem abrimos o nosso coração, e essa reacção pode-nos matar, por dentro.

abraço

FRQSTR=19210976x246573:1:10080x246573:1:10080x246573:1:10080|19210976|19210976|19210976|19210976 said...

A serio, eu gosto mesmo dos teus textos,,axo k estao Lindos!!
Ainda por cima, transmitem sempre uma grande mensgaem :)

Beijo*

telmyh said...

A serio, eu gosto mesmo dos teus textos,,axo k estao Lindos!!
Ainda por cima, transmitem sempre uma grande mensgaem :)

Beijo*

Catarina N. said...

Olá stor!

É sempre bom poder ler cada um dos seus textos...
Nunca deixe de nos fazer sonhar com eles!

Continuarei uma leitora assidua...

bjs

Benjamim said...

Que raio de texto.
:-)
Entretanto o navegador solitário já anda no meu cérebro dislexico.