Saturday, December 08, 2007

A Felicidade e a aparência dela.


O conceito de Felicidade é tomado por quase todos nós como o corolário da existência humana. Rara é a pessoa que não afirma que “quer ser feliz”.

Todavia, a Felicidade acaba por ser definida como um estado alcançável através da realização dos sonhos.

Mas, verdade é que a natureza humana contém na sua essência uma incompletude permanente. O Homem é um sonhador - diz-se. É antiga a teoria do perpétuo, por alguns chamado de Donjuanismo, aquela que afirma uma primazia absoluta da conquista sobre a manutenção do alcançado. Prefere-se sonhar, lutar pelos sonhos, alcançá-los e... Sonhar mais e lutar ainda mais para o alcançar, alcançá-lo e... Sonhar mais e mais...

Como se o alcançado, sem sofrer nenhuma outra mutação senão a de ter sido conquistado de facto, perde-se a aura mágica que o envolvia enquanto o Homem lutava por ele, ficando sem graça.

Ora, tal coisa só pode ser própria de quem realmente não quer mesmo ser feliz.

Há que parar e pensar se estaremos neste ciclo tão infindável quanto frustrante. Pois se o Homem tem consciência deste seu perpétuo desejar, porque não se dará conta de que é, na verdade, um caminho que leva a lado nenhum, menos ainda à felicidade?

Mas haverá outro caminho?

Julgo que sim. Por não mais que uma atitude empenhada em ser feliz, concentrar a atenção no que se é, no que se tem, desvelar-lhe o que de precioso há nele, e amá-lo, quere-lo, usufruir. Afinal, quem se permite a vida de sonhador, será desgraçado quer concretize os seus “sonhos” quer quem não o alcance.

Muitas são as vezes que se busca prazer, poucas aquele que vale de facto o bem que causa. Tomemos a distinção do prazer que se obtém pelo orgasmo daquele outro que se alcança da contemplação de um sorriso sincero de uma criança. Que os distingue? Algo que não o prazer... Será que há quem tenha consciência da tão profunda quanto importante diferença? Certamente que sim. Qual será a razão que justifique que se atribua o mesmo nome a sensações tão díspares? Porque não se busca o profundo e se prefere o superficial?

A existência humana encontra-se desde sempre sob a égide de uma mentir, facilmente desmontável com a aplicação da mínima racionalidade para a desmascarar... Talvez porque a máscara nos é agradável? Ou será que, no fundo, preferimos ser infelizes? - justificando assim na vida algo que nos é evidente como merecido no íntimo.

O sonho comanda a vida por trilhos que não a levam ao seu destino. A felicidade é de quem consegue compreender quem é e se encanta pelo tão simples quanto generoso dom da vida.

Muitos, tantos..., tomam a felicidade como se se tratasse de uma terra longínqua a que interessa, por todos os meios chegar... MAS, e se a felicidade fosse uma forma de viajar nesse planeta onde os outros buscam a terra dos sonhos?

Sim, o contra argumento mais do que expectável para esta tese é a de que o seu autor, no caso - eu, não é alguém feliz. Pois sim, tenho muito da minha vida já vivida entregue às mãos da infelicidade, e nisto não sou nem mais nem menos que todos os demais... No entanto, tenho sido capaz de seguir o que aqui prego e ser feliz. Talvez não tantas as vezes quanto me é possível... Não é fácil lutar contra esta natureza humana que teima em querer o que não se é ou tem. Oh, mas tenho sido feliz, e acredito que muito mais que a multidão com quem me cruzo na vida. No ponto mais íntimo da minha intimidade reside uma luz que faz de mim um ser Feliz. E por ser feliz, mais feliz sou.

É dado a todo o Homem ser feliz, à partida, sem qualquer outra luta senão aquela que se deve ter no momento em que na sua consciência assomam ideias de sonho...

Afinal, cada Homem é o que lhe fica depois da sua morte, tudo o que esta pode afectar é superficial, uma felicidade que não o é de facto...

Se me deu a honra de ter lido este texto até este ponto... Obrigado e Seja Feliz... JÁ.

Saturday, November 17, 2007

MMN


Procuro ser feliz, sou eu. Tento respeitar as pessoas, principalmente os que não têm nada de “respeitável” aos olhos da multidão... também me é reconhecido algum mérito na loucura com que encaro certos momentos da vida... pois... há quem diga que é uma doença qualquer que me leva a ser um desequilibrado para a originalidade, outros simplesmente sorriem sem saber o que pensar nem que dizer... sinceramente, há dias em que eu próprio me apelido de “um bocado parvalhão”! hoje deu-me para publicar aqui a minha ideia de MMN...

Sempre considerei o natal um tempo especial. Ao considerá-lo como um tempo claro que estou a integrar os largos dias que o antecedem. Tenho ideia que é tempo de milagre. Podia chamar-lhe magia de natal, mas parece-me bem mais adequada a designação de milagre(s).

Ora, também não é de hoje que me julgo como alguém de quem Deus espera umas coisas, nomeadamente que ajude os outros homens e mulheres que estão no mundo comigo. É curioso que por vezes sinta que Deus me anda a “chatear” para fazer determinada coisa...

Hoje, estava eu na Igreja – por ter ido levar a minha filha para a catequese, quando dou por mim a desatinar com o já citado Sr. do Andar de Cima (gosto de pensar em Deus assim!!!) sobre a eventualidade de publicar aqui no blog a razão deste texto.

Bem, e sem mais entretantos, no mês de Dezembro sinto que devo fazer uns quantos gestos que – se bem feitos – serão considerados pelos visados como milagres, uma vez que importa não deixar rasto... o que até torna a coisa bem mais engraçada!

Até ao natal tratarei de fazer, pelo menos um, destes milagres.

E o meu desafio é que os leitores do meu blog o façam também...

Algumas pequenas regras:
  1. Deverá ser algo significativo para a pessoa que o recebe.
  2. Devo procurar apurar o sentido de necessidade, i.e. não contam os actos de instinto / momentâneos, é preciso que seja algo minimamente pensado e preparado.
  3. Tentar por todos os meios que haja o mínimo de possibilidades de o acto remeter para a minha identidade, i.e. não devo deixar rasto pelo qual a pessoa possa saber que fui eu...
  4. Não contar a ninguém o que realmente fiz.

Se pensarem bem não é assim tão difícil, nem tão fácil, quanto parece. Nunca fiz nenhum destes MMN (Meus Milagres de Natal) à espera de uma retribuição qualquer, sinceramente nunca cobrei nada a ninguém, nem tão-pouco ao Sr. do Andar de Cima... isto ainda é mais estranho porque sou uma pessoa algo egoísta, e quem me conhece sabe que não sou nada santo, muito menos desprendido de tudo.

Os MMN sempre me deram no momento a sensação de dever cumprido e a felicidade por ter concretizado algo que me diz profundamente respeito. Isto é de tal forma que me chego a questionar se não terei uma qualquer sentido pagão/ateu de encarar este gestos!! Os MMN são de mim para mim.

Claro que para ser algo bem feito deve envolver um certo custo, mormente o da pessoa que o protagoniza sacrificar um pouco o seu umbiguismo inato! Mais, há também que ultrapassar um factor que sinceramente no qual tropeço várias vezes: o acto é isolado, logo, que diferença fará? A esta questão tento sempre dizer que a mais significativa distância a percorrer é o 1º passo, o que nos tira da imobilidade. Mas além deste argumento há um sem número deles que nos tentam desviar do nosso projecto MMN.

Talvez este texto seja apenas motivado pelo meu umbiguismo... com certeza que se ninguém de vós aceitar este meu desafio de fazerem um MMN terá sido em vão... pior, terá sido supremamente umgiguista, na medida em que ficarei bem visto por... sei lá... por isso mesmo.

Era bem engraçado saber que a minha vontade e “experiência” neste campo dos MMN fosse seguida por alguém... mas... estou absolutamente certo que certamente alguém vai acreditar na minha palavra: Vale a pena! Daí até fazer qualquer coisa, pois, isso vai ser uma luta “dos diabos”!!!

Uma certeza: quem o fizer ficará super-feliz consigo mesmo.

Um pedido: que o Sr. do Andar de Cima ajude que resolver entrar na onda do MMN.

Então...

Que acham?

(para esclarecimento de qualquer dúvida, deixe mensagem após o sinal!!)


Sunday, November 11, 2007

Alfredo


Alfredo era adolescente quando ficou em casa sozinho durante um mês... os seus pais e irmão tinham ido passear para o estrangeiro... os seus poucos amigos tinham acompanhado as suas famílias nas férias... a sua namorada tinha-se apaixonado por outro e tinha acabado o namoro... Alfredo estava sozinho.

Cozinhava para si... lavava a loiça, a roupa e todo o resto de coisas que temos de fazer quando estamos sozinhos em casa...

Nos primeiros dias começou por usufruir de certas vantagens de estar sozinho... ouvia música no volume mais alto possível... via filmes até de madrugada... por vezes saía e ia até uma discoteca onde bebia álcool, muito álcool... etc....

Ao fim de 15 dias parou um pouco... desligou tudo e ficou em silêncio de frente para um espelho... olhou-se e começou a pensar que estava triste e que essa tristeza era, talvez, muito mais profunda do que aquilo que ele julgava antes... A ideia que lhe subiu à cabeça foi a de que a solidão é inimiga do coração, e que o profundo chorar que lhe ecoava do íntimo era fruto dos diferentes condicionalismos externos... estava só... e isso provocava nele tristeza...

Olhando-se sempre no espelho continuava a pensar na miséria do mundo, na tristeza de tantos homens sem pão, sem casa, sem família... sem nada... pensou nas guerras e nas catástrofes naturais... pensou na morte... a morte assustava-o só de ele a pensar...

Parou um pouco, olhou em redor de si e com um sorriso olhou-se no espelho e disse para consigo mesmo:

- Alfredo... estás vivo, tens o que comer, tens pais, nada te falta a não ser um pouco de companhia, de alguém com quem conversar aqui e agora... uma rapariga talvez... ou se calhar bastava-te um amigo... ou até mesmo o teu pai ou a tua mãe... se só te falta isso, não achas que deves estar feliz, pois afinal... afinal até tens com quem conversar: contigo mesmo... e como precisavas de falar contigo, com esse teu amigo tão grande e que sempre esqueceste!!!

E ficou a olhar durante muito tempo para aquele espelho que lhe mostrava aquele que ele sabia ser o seu melhor amigo e que só agora o descobrira...

Pensou depois na vida... e na morte, chegou à conclusão que ele não detinha a sua própria razão de ser... não era responsável pela sua existência... Pensou em Deus, e logo Lhe agradeceu o que segundo Alfredo era a Ele devido... ou seja... a vida, o pão, a casa... e o mais importante... este amigo que ele descobrira ter e ser esse o alguém que sempre procurou... Agradeceu a Deus o ter-se encontrado...

Não mais teve medo da morte, pois tinha como seus melhores amigos duas pessoas importantíssimas para ele... Deus e ele mesmo.

Acabou por deixar o espelho... e não sabendo muito bem o que fazer, pois o que acabara de descobrir era demasiado importante e não tinha aplicação prática ali e naquele momento... O que é que o Alfredo ia fazer?

Foi fazendo as tarefas que quem está sozinho em casa tem que fazer... mas não precisava mais de televisão nem de álcool pois os seus dois amigos mais importantes e curiosamente mais recentes chegavam-lhe... E foi assim que passou os 15 dias... conversando consigo mesmo... com Deus... e como eram afinal três, era muito engraçado o que acontecia quando havia um diálogo a dois e o terceiro escutava... era engraçado pois o terceiro era o mais importante... ouvia a discussão dos outros dois e aprendia a julgar, pois acaso houvesse um empasse no diálogo era chamado a intervir...

Mais engraçado ainda era quando o diálogo era a três... Era preciso uma ginástica de campeão olímpico para se ser sério e conversar de facto...


No último dia de férias dos seus pais, e por conseguinte, o seu último dia a sós... levantou-se e pensou o que iria acontecer no dia seguinte... Lá conversou com os seus dois amigos e ficou resolvido que o que de melhor havia a fazer ali e naquele momento era limpar a casa toda muito bem... preparar um grande bolo para festejar as boas-vindas dos pais e irmão... e com o dinheiro que conseguiu poupar, dado a sua descoberta a meio das férias, comprar alguns presentes para todos...

Assim fez...

Todos ficaram radiantes...

A partir desse dia viveu sempre em conformidade com a decisão democrática do conselho dos três amigos... Ele, ele e Deus.

Teve uma vida esplêndida... e quando já estava muito velho declarou aquela que viria a ser a sua última comunicação no conselho dos três amigos...

O que aprendi com a vida é que nas decisões tomadas por unanimidade tudo correu bem na prática... ou pelo menos a intenção era a melhor independentemente da concretização material do que se queria...

Quando um dos Alfredos perdia e a outra parte ganhava, as coisas corriam bem mas podiam correr melhor...

Quando era Deus que ficava a perder na votação...sempre foi trágico.

Por tudo isto, e que não é nada pouco, quero que aqui fique assente que o Alfredo é um bom amigo mas que nós os dois sem Deus somos demasiado pequenos e estúpidos... pois julgamo-nos detentores da verdade e grandes pois podemos decidir o que queremos... mesmo contra a vontade de Deus...

Quero pedir desculpas a Deus, pois o que sei hoje é que a riqueza da vida se obtém quando há diálogo Contigo... e que somos estúpidos quando Te achamos errado...

Estava quase a sucumbir quando disse as suas últimas palavras:

Deus... em verdade e com clareza vejo... agora mais do que nunca... que Eu sou um pouco de Ti... um outro eu... Teu... Um deus pequeno que és Tu e que pode falar sozinho... Era tão bom que todos os homens percebessem que são o reflexo no espelho... e o que é um reflexo no espelho... nada é, se nada estiver virado para ele...

Muitos são aqueles que se procuram no reflexo do seu reflexo... a esses peço-Te, oh Deus, que lhes dês um espelho como fizesTe comigo...


Morreu tremendamente feliz... pois tinha em si a sua razão de ser, Deus... e... missão cumprida... voou até Ele...

Sunday, November 04, 2007

Belarmino


Belarmino era casado e tinha dois filhos, eram emigrantes num país qualquer...

Haviam-se estabelecido há vários anos, e tudo corria mais ou menos bem, quando rebentou uma revolução e o poder se tornou despótico, tendo como linha de força a exploração dos estrangeiros...

Belarmino e a sua família suportaram a submissão própria de uma escravatura até que um dia ele resolve comunicar aos seus o seu desejo de fugir... Todos sabiam que a fuga lhes podia valer ou a liberdade ou nada... e isto invadiu-lhes o espírito durante dias: ou a liberdade ou nada... até que um dia... o dia marcado, tudo estava pronto, ou melhor, todos estavam prontos, dado que não pensavam levar consigo mais do que a vontade da liberdade e a roupa... O plano era simples: tentar passar a fronteira a pé, correndo, fugindo aos mais do que prováveis tiros das tropas daquele país...


Chegaram ao fim da rua, a fronteira estava a cerca de 200 metros... tão perto e tão longe... O filho mais novo disse então:

- Vamos! Ou a liberdade ou nada!

A mulher de Belarmino chorava... O filho mais velho cerrava os lábios... tudo estava pronto...

Belarmino dá então a ordem de que seria daí a um minuto que correriam tanto quanto as suas pernas o permitissem... E que minuto tão grande... o maior que já tinham vivido...

30 segundos... nem lágrimas nem mais nada a não ser a vontade de ferro de ou liberdade ou nada...

5... 4...3... 2...1... JÁ!

E toda a família começou aquela corrida para a liberdade... começaram-se a ouvir tiros e tiros, e a família começou por perder a mãe que tinha sido o primeiro alvo bem sucedido duma qualquer espingarda, depois o filho mais novo... o mais velho e Belarmino corria sozinho, faltavam poucos metros... 3 ou 4 ... parou, levantando os braços em sinal de rendição... Os outros morriam e Belarmino de braços no ar... Rapidamente os tropas mataram toda a família à excepção de Belarmino que se havia rendido... Algemaram-no e bateram-lhe... muito!

Já no calabouço partilhado com ratazanas Belarmino chorou, chorou tanto, que não podia mais...

Não era pela sua família ter morrido... era por ele a ter desiludido... pois tendo sido o único a ter a possibilidade de liberdade não o tinha tentado até ao fim... e não sabia porquê... Agora e alí, nem liberdade nem nada... a sua família tinha alcançado o nada, ele nem uma coisa nem outra...

Remorso, arrependimento... não era nada disso, era a aterradora sensação de ter sido sentimentalmente cobarde, de estar perto e desistir...

Quando dormia sonhava sempre com o mesmo:... o filho mais novo a dizer: - Vamos! Ou a liberdade ou nada! e acordava sempre sentindo que o facto de se ter rendido, o facto de levantar os braços no momento em que o fez... o fizera perder toda a dignidade e razão de ser pai e marido... pois ele traiu os seus nesse preciso momento.

Anos mais tarde foi condenado por razões irracionais a ser fuzilado... e o seu último pedido foi o de poder ser abatido de costas e de braços ao alto... os únicos momentos em que viveu feliz foram os que se seguiram ao seu pedido ser aceite e que terminaram quando todas as balas lhe entraram dentro...

Monday, October 08, 2007

A História de um Detalhe



Como devem saber sou cristão...

Ou melhor, tento sê-lo...

Melhor ainda: Gostava de o ser de facto.

Bem, o que importa aqui é que quero partilhar convosco a história de um detalhe.

Lembro-me de estar na Catequese e que a minha catequista nos leu e analisámos todos esta parábola. Recordo-me bem de lhe ter dito que eu não pensava da mesma maneira que todos os meus colegas e com ela, disse-lhe: "o próximo é o outro!"

Muitos anos mais tarde tive a honra de receber lições (assistir às aulas) do Padre Peter Stilwell, onde me dei conta de que na minha infância havia dito algo que ainda hoje estou por compreender, uma vez que o meu Professor de Cristologia colocou a questão de tal forma que fiquei absolutamente estupefacto...

Queiram ler a passagem a fim de que depois me explique melhor...

Parábola do bom samaritano

(Lc 10,29-34)


«Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: “Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?”

26Disse-lhe Jesus: “Que está escrito na Lei? Como lês?”

27O outro respondeu:

“Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.”

28Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.»

29Mas o doutor da Lei, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”

30Tomando a palavra, Jesus respondeu:

«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto.

31Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo.

32Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

33Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão.

34Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.

35No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’

36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?

37Respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele.” Jesus retorquiu: “Vai e faz tu também o mesmo”.»


Aparentemente quem devemos amar são todos aquele que é desprezado pelos outros, esse é o nosso próximo.

MAS, na verdade, reparemos no versículo 36... a pergunta de Jesus é mais do que uma inocente questão pedagógica. É um ensinamento. Pois conduz o seu interlocutor (e todos nós) para a realidade inversa. Qual dos 3 foi o próximo? (o tal que devemos amar) e é só entre estes 3!

Jesus tira das hipóteses de resposta o homem que caiu nas mãos dos salteadores...

Será que devemos amar quem nos amou em 1º lugar... retribuir os dons recebidos... não sei. Será Deus o nosso Samaritano... quando era criança parece que entendi isto muito bem... hoje não.

É que no versículo seguinte há algo que até hoje não compreendo: Parece-me que o doutor da Lei responde que é o homem que foi socorrido... e Parece-me que Jesus concorda com ele.

E tal como Jesus, também o Professor Stilwell não me ajudou a concluir... concordou com a 1ª parte (v.36) mas não me deu pistas em relação à segunda (v.37).

Estranho, muito estranho...

Recebo diariamente as leituras do dia via email (se quiserem é aqui) , e o evangelho de hoje era este...

Sunday, October 07, 2007

Tuesday, September 25, 2007

...


Pedaço de Mim
Chico Buarque

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus


Saturday, September 15, 2007

Avô Manfred


Andava em arrumações e fiquei espantado com uma foto do meu avô, Manfred von Richthofen, e como me achei parecido com ele resolvi publicar a foto!!!

Wednesday, September 05, 2007


Mais ou menos por alturas do reino de Tibério, ninguém sabe exactamente onde nem quando, um personagem de que se ignora o nome, abriu uma brecha no horizonte dos homens. Não era, certamente, nem filósofo nem tribuno, mas deve ter vivido de tal maneira, que a sua vida se tornou sinal de um anúncio revolucionário: cada um de nós pode, em cada instante, começar um futuro novo.

Dezenas, para não dizer centenas, de narradores populares cantaram essa Boa Nova. Ficaram-nos três ou quatro dessas narrativas. Para exprimir o choque que tinham recebido, os seus autores serviram-se de imagens de gente simples – os pobres, os ofendidos, os humilhados – quando se põem a imaginar que tudo se tornou possível: o cego começa a ver, o paralítico que anda, os esfomeados do deserto que recebem pão, a prostituta que se ergue para uma vida de mulher, a criança morta que recomeça a viver.

O amor desse homem deve ter sido um amor militante, subversivo. Sem isso, não teria sido crucificado. E para que a sua Boa Nova fosse anunciada até ao fim, foi preciso que, pela sua ressurreição, ele vencesse todos os limites, mesmo o limite supremo que é a morte.

Os eruditos podem contestar um ou outro facto desta existência, mas isso nada muda esta certeza fundamental que transforma a vida. Foi acesa uma fogueira. Se ela arde, é porque houve uma chama inicial que lhe deu origem.

Todas as certezas, até então, meditavam sobre o destino, sobre a necessidade metafísica dos acontecimentos. Esse homem mostrou a loucura desses raciocínios. Ele, o contrário do destino. Ele, a liberdade, a criação, a vida. Ele, desfatilizou a história.

Nele se realizaram as promessas dos heróis e mártires que anunciaram o despertar da liberdade do homem. Não veio cumprir apenas as esperanças de Isaías ou as cóleras de Ezequiel. Veio também quebrar as cadeias de Prometeu e os muros de Antígona, imagens míticas do destino. Nele morriam os deuses e despertava o homem. Era como se o homem nascesse de novo.

Contemplo hoje a cruz que se tornou o seu símbolo e penso em todos os homens que alargaram a brecha por ele deixada: de João da Cruz, que à força de contemplar o nada, nos ensina a descobrir o tudo; a Karl Marx, que nos mostrou como se pode transformar o mundo; a Van Gogh e a todos os que nos fizeram tomar consciência de que o homem é demasiado grande para se satisfazer a si mesmo.

Vós todos, que vos dizeis guardiães dessa grande esperança que Constantino nos roubou, devolvei-no-la. A sua vida e a sua morte pertencem-nos também, a todos aqueles para quem elas têm um sentido. A todos nós que aprendemos dele que o homem nasce criador.

É nesse poder criar, atributo divino do homem, que a minha oferta de presença se torna real. Ela está aqui, cada vez que nasce qualquer coisa de novo, que vem engrandecer o homem: no mais louco amor ou na descoberta científica, no poema simples ou na revolução criadora.

Roger Garaudy
(humanista marxista – Ex-dirigente do Partido Comunista Francês)

Sunday, September 02, 2007

A eternidade num segundo só.


Faz o bem
É o que buscam os homens bons.
Procura no mundo apenas dores para sarar.
Onde há uma dor, aí vai haver remédio.
Onde há pobreza, aí vai a ajuda.

Nunca busques água;
Mostra apenas que está sedento,
E a água jorrará em teu redor.


Era uma vez há já uma eternidade de tempo:

Estava de lá a voltar, quando me apercebi que havia conhecido o Coração do Mundo Mais Fundo.

Podia o mundo do quotidiano teimar em não querer que lá fosse. A própria racionalidade não encontrava um argumento só a favor de um “tal disparate”... mas o coração reclamava para que fosse... e deixei-me ir...

E quando as distâncias se estreitaram e os longes se tornaram íntimos, foi altura de mistérios e suspeitas darem lugar a tremendas certezas e dúvidas mais fundas.

Nessa altura, contemplei o silêncio e pude escutar a beleza das formas. Brilhos no pormenor, tons que se entregavam em suaves modulações de cor. Fechei-me ainda mais dentro de mim... deixando para traz tudo o que tenho por comum ser eu.

Como se se tratasse de seguir em sentido contrário à corrente do meu ser para lhe buscar a nascente... segui em devota peregrinação rumo ao mais íntimo da minha intimidade, onde, para lá do infinito caos que blinda o acesso à pura fonte, encontrei. Encontrei-me. Um outro eu... um tu.

Cruzámos palavras, trocámos olhares, retribuímos expressões e desvelámo-nos mutuamente. E eis que finalmente os braços, fartos de se abraçarem a si mesmos, encontraram outros braços para abraçar.

Revolvemo-nos, envolvemo-nos, e permitimo-nos ir de um ao outro... num regime de quase insana generosidade. Acto simultaneamente heróico e cobarde esse de se dar por inteiro. Depuração do desprendimento.

Encontro de um no outro, fazendo brotar todo um mar de vida e amor o que ultrapassa as partes que o compõem... implosão do infinito no finito.

Tranquilo, senti que havia mais sentido em toda a minha vida do que aquele que alguma vez poderei entender... mas vislumbrei um caminho a fazer e a percorrer, por onde só anda quem confia por inteiro na sabedoria que afirma que as dores são o preço do que lhe sucede.

Existem momentos em que um simples pedaço de tempo nos oferece toda uma ampla compreensão de nós próprios, do mundo que nos rodeia e do futuro pelo qual devemos lutar...

Estava de lá a voltar, quando me apercebi que havia conhecido o Coração do Mundo Mais Fundo.

Teu amor chegou e partiu feliz.

Depois retornou, envolveu-se mas preparava-se para se retirar novamente.

Timidamente te pedi: “Permanece dois ou três dias!”

Então, sentaste-te junto a mim e... esqueceste-te de partir.



Tuesday, August 28, 2007

Um outro olhar sobre a alma




As mãos. São a nossa forma de mexer no mundo, sendo que a forma como o fazemos acaba por nelas se reflectir... assim, umas mãos de guerreiro encerram em si marcas disso, ou uma mão de princesa generosa tem em si o carinho que semeia em seu redor. Não há nelas marca de actividade própria.... são a extensão que submetida a emoções e pensamentos faz mundo do mundo que há.

Em termos antropológicos salienta-se a libertação/contraposição do polegar como responsável pela capacidade manipulatória.

Em termos de cirurgia estética as mãos são um impossível... querem saber a idade de alguém reparem nas mãos...

Em termos estéticos, permitam que as apresente como passíveis de uma tal harmonia que muito dificilmente pode ser ultrapassada. Não são só cinco dedos, mas cinco unhas, e catorze articulações com 2 perspectivas, interior e exterior... na palma há linhas, pequenos montes e enrugados. Se uma impressão digital nos distingue de qualquer outro ser humano... e se forem cinco? Dez? E a conjunção de todos os elementos? Um composto capaz de funcionar como marca divina, ao mesmo tempo que, basta um pequeno pormenor em divergência com o conjunto para que se perca toda a beleza. Uma simples dissonância e toda a melodia celestial passa a ser ruído, barulho, desconforto.

Não, não... as mãos da minha mãe, por exemplo são belíssimas... sublimes. São calejadas mas nos seus calos são marcas do seu trabalho honesto e dedicado; tem dedos tortos mas as linhas do desvio são esplêndidas na sua delicadeza. Quando acarinha a aspereza do seu toque é deliciosa.

Não, não... só queria que ficasse evidente que umas mãos excelentes (chamemos-lhe “mãos-de-mãe”) estão longe de ser as de um qualquer anúncio a um qualquer creme... se se reparar de perto há ali futilidade, vaidade e um cuidado em mascarar algo.

Não, não... já vi muitas mãos, foi o meu pai que me ensinou a olhar para elas... sondo-lhes, quando possível, cada detalhe... perscruto as de quem quero avaliar o valor enquanto pessoa... e a sorte que eu tenho tido com isso!!!!!

Ah! Depois há as segundas... os pés. Sim também são umas mãos... podem andar escondidos mas estão lá... podem ser bonitos mas não belos... Acredito que anunciam de forma quase mágica o interior de quem suportam... é a própria Terra que treme por debaixo da alma que segura os meus dois pés quando me é permitido contemplar pés... mas pés-de-mãe.
Não, não... jamais substituem ou sequer desobrigam de uma investigação às mãos... pois nos pés há todo um lado de indizível... só uma sensibilidade apurada ao requinte poderia dar-se ao luxo de o fazer... sobre estas outras mãos, confesso que tento analisar e avaliar mas os critérios que utilizo são-me estranhos a mim próprio...

Conheço quem adore praia pois que à beira mar (onde não se enterram) sondar pés de gente... claro que não se trata de um desvio de comportamento, uma parafilia qualquer... é apenas uma forma diferente de ver as pessoas. Uma perspectiva diferente sobre o coração. Sempre tomei os conselhos deste meu amigo por bons... curioso é que me procura quando quer opinião sobre determinadas mãos. Disse-me que também os meus pareceres são válidos...

Talvez sejamos os doidos tontos... talvez apenas atentos a aspectos essenciais que de forma mais transparente revelam os fundos e profundos de alguém.

Wednesday, August 15, 2007

João



Era um rapaz que um dia resolveu escrever uma carta...

Queria libertar tudo aquilo em que pensava... aquilo que sonhava... aquilo que tanto o fazia sofrer... queria libertar tudo isto e escreveu:




João:

Sei que aquilo que sonhas jamais se concretizará, e por isso tanto sofres... sofres ainda mais pelas tentativas que fazes para te habituares, ou melhor, para tentares contentar-te com o que tens...

Não sei o que te posso dizer, pois no fundo tu és eu, e sei o que se passa contigo, e muito melhor do que ninguém... no entanto, João, luta, não te contentes com o que tens e não te contenta... luta pelos teus sonhos e se tal batalha te for desfavorável... pelo menos tentaste, e isso... isso não sei se vai ser melhor se pior do que o que agora sentes...

Um abraço,

João.




Passaram anos e o João nunca se submeteu totalmente à sua (triste) realidade, assim como nunca lutou com todas as suas forças... e chegou o dia em que se tomou a decisão fracturante... em que chorou e em que fez o que não sabia bem o que era... Fugiu...


Fugiu da realidade e do sonho, correu tão depressa que não se deixou apanhar por aquele que fora outrora...

Não se soube mais nada... nem do João nem daquele que lhe fugiu... a não ser que o que há de mais certo é que todos temos que morrer... morrer no real, morrer nos sonhos e morrer na fuga...

Gostava tanto de saber daquele de que o João fugiu...

-...João!?!... João!?!

- O João morreu e o outro também... mas o Outro não.





Sunday, August 05, 2007


Encontrarás o sentido da tua vida
se fores capaz de a contar
como uma história de amor.


Nuno Tovar de Lemos, O Príncipe e a Lavadeira.

Saturday, July 28, 2007

Do outro lado do oceano




Qual Dom Quixote, também tentou mais tarde, escrevendo, descrevê-la... mas os moinhos eram ainda e sempre moinhos.

Partilhou com um bom amigo e isso aliviou-lhe o fardo... Dizia alguém que a grandeza de carácter se pode medir pelos segredos que a pessoa leva consigo para outro mundo sem que deste lado ficasse rasto. Mas também, de facto, a sua história desse dia não era passível de ser contada, por mais eloquente que um cérebro fosse, por melhor que fosse a ligação entre o pensamento e a linguagem, era impossível. 99% perder-se-ia... Não era um facto de inteligível mas de emoção pura...

Naquela manhã tudo foi frustrante, diferente e original.

O comboio estava já na linha do horizonte e ele na gare... não queria acreditar... não ficou lá nem um minuto mais assim que concretamente compreendeu que nunca o conseguiria.

De coração aos saltos tentou num último esforço alcançar a segunda carruagem, sem sucesso. Já era tarde. Um minuto. Um só, sem metáfora, 60 segundos teriam bastado. Tivesse-lhe o tempo concedido isso e poupavam-se as gotas de sangue que lhes escorriam do coração.

Não, não o queria apanhar... tão só olhar o que estava para lá de determinada janela. Uma das da segunda carruagem. E corria. Tentando alcançá-la. Só podia ser assim. Havia-se cumprido todo um caminho de loucos até ali, faltava tão pouco... Nem que um sortilégio qualquer inesperadamente o fizesse conseguir.

Faltava menos de um minuto até que os carris começassem a puxar o comboio, não conhecia o caminho exacto para encontrar a plataforma certa mas uma pista era suficiente: 3. Encontrou-a sem engano mas era longe e o relógio teimava em não perdoar uma única batida. Muito mais rápido batia aquele coração... era algo sem sentido mas com um tremendo sentimento. Queria olhar. Só olhar. Nada mais que um beijo de olhares.

Minutos antes, dentro do carro fazia-o voar a pique em direcção à estação central porque queria chegar a tempo. Não sabia quanto tempo faltava, mas nunca ousou perder uma migalha apenas.

De súbito tomou uma decisão. Tinha de conseguir. Era como nas histórias, o final só poderia ser feliz ou chegaria a tempo e qualquer palavra seria desnecessária. Ou chegaria tarde e nada e ficaria a história de uma perda de tempo.

Sim. Vou já.

Parada?

Onde estás?

Olá.


Um pedaço, farrapo de tempo que tantos desperdiçam e o horizonte não engoliria aquela caravana de metal sem que na estação tivesse cumprido a sua missão.

Uma evidente e irónica forma metafórica de espelhar o que viria a acontecer depois?

A vida é assim! Uma maravilha de incertezas. Um universo de possibilidades que a cada segundo se determinam, ao mesmo tempo que outras tantas surgem na linha do horizonte... De nada nos vale prever o futuro, por muito que se sonhe somos feitos para viver. Não há saída. É viver. Estar vivo e querer estar.

Os melhores e os piores momentos da nossa existência, vistos ao longe não são sequer oscilações... apenas pontos de uma linha recta que nasce no céu e ao céu torna.

Podemos sim sorrir ao contemplar a nossa vida. Ficar feliz por ela e por nós. Agradecer a Deus a possibilidade, o Dom.

Mas há sempre vida depois. A vida não se perde. A morte nada é senão uma porta para onde tudo faz sentido.

Cada um de nós é uma séria esperança. Um não-acaso absoluto.

Nestes hojes, só consigo sorrir perante TUDO quanto a vida é.

Monday, July 16, 2007


Sinto-me fugir, a cada dia, de tudo o que faço.

Recordo com angústia o ontem que me sorriu.

Lamento o que era e já não sou.


Quero o passado com todos os que me rodeavam...


Anseio o futuro com todas as suas boas possibilidades.


Sinto falta de viver de outra forma,


e tendo o amanhã para isso, não abro mão de sonhar.


Hoje, hoje sinto-me muito triste...


Com uma paz de derrotado,


Com a certeza profunda de que sou um injustiçado,

por um qualquer tribunal que desconheço.


Sou totalmente responsável por mim,


talvez seja isso aquilo com que não sei lidar,


a condução de meu ser.


Preciso de ter algo diferente de mim


e que sirva para eu culpar de tudo


De tudo o que de triste se me manifesta no coração.


Queria ser outro, mas sou eu.


Assim sendo, estou triste.


Só que eu sonho


e ansiosamente espero por aquilo que ouso sonhar,


Este sou eu, hoje.


Eu,

Tuesday, July 10, 2007

sem título





Acredito que no final tudo acaba bem,

se não acabar é porque não chegou ao fim !





Saturday, June 16, 2007

Miguel Castro




Miguel Castro era viúvo e sentia tristeza pela sua vida cheia de solidão. Sentia saudades da sua esposa e sentia ainda mais fortemente o arrependimento pelo que lhe havia feito e dito durante tantos anos de um casamento pouco feliz... que acabara quando conscientemente Miguel Castro assassinou a sua companheira.

Tinham passado muitos anos sobre o assassinato e Miguel tinha acabado de sair da prisão... Levava a vida de um verdadeiro solitário, não precisava de trabalhar pois tinha dinheiro que chegava... precisava do perdão dela, da sua mulher, daquela com quem ele mesmo um dia se comprometeu a amar e um outro dia matou...

Não foi precisa a reclusão do estabelecimento prisional para lhe fazer ver que agira mal... foi no segundo seguinte ao da morte da sua esposa que se arrependeu... é que acaso ela não tivesse sucumbido naquele segundo, ele amá-la-ia para o resto da sua vida... tal a força do sentimento que o encheu.

A prisão foi voluntária e Miguel passou por ela como quem passa por alguém que não conhece numa rua cheia de movimento... quase não deu por nada... esteve absorvido no e pelo amor de alguém que assassinara... pensava calmamente no que tinha feito e no que sentia, passava metade do tempo a dormir e a sonhar com ela, sonhava a realidade que existiria acaso a morte esperasse apenas um segundo... Vivia triste, dormia alegremente... e por isso a prisão foi até o melhor sítio para ele... Agora ele era "livre", podia passear, ir onde queria... foi ao cemitério vê-la... mas o corpo já não estava lá... afinal já tinham passado 20 anos... no seu lugar estava outro qualquer alguém...foi para casa...

Marcava o calendário 16 de Junho de 77, deitou-se e disse:
O meu coração está ansioso por ti... quero ir para junto de ti... sei que me perdoas-te mas tenho medo de me suicidar, por isso gostava que me viesses buscar enquanto durmo... Por favor!!


Depois adormeceu...



Acordou a meio da noite dessa mesma noite e disse:

Oh meu Deus, quero tanto a companhia da minha esposa como a Tua, mas não matarei segunda vez, pois penso que o suicídio é ainda mais imperdoável que o assassinato... pois como Te havia de explicar que infringira a Tua lei para colmatar uma anterior infracção... não! Meu Deus, eu quero ir ter com ela, e Contigo... mas não matarei... Vem buscar-me, se vires que estou certo... ou então ajuda-me a fazer qualquer coisa na vida, qualquer coisa que Tu penses ser melhor...
e adormeceu calmamente...





Miguel Castro acabou por morrer muitos anos depois em terra longínqua... e o tempo que passou entre aquela noite de 1977 e a hora da sua morte foi vivido intensamente, dando... recebendo em troca sorrisos e alguma dor... não voltou a pedir a Deus que o viesse buscar, pedia apenas que o ajudasse a continuar vivo... Na esposa pensava sempre que via algum cadáver por aquelas terras... nessas alturas não evocava o seu nome mas somente rezava a Deus.

Morreu e acordou um segundo depois...





Feliz.

Monday, May 28, 2007

Filipe



Filipe Fernandes vivia numa boa vivenda, tinha mulher e dois filhos pequenos. Queria mudar de vida, recomeçar tudo de novo. Desejava ter coisas melhores, queria muito ser mais feliz.

Sentia a angústia de não poder decidir tudo novamente, mas restavam-lhe ainda forças para se revoltar e, Filipe ia emprega-las todas de uma só vez... Filipe iria procurar no futuro aquilo que no passado lhe tinha falhado.

Fez uma pequena mala com o essencial, despediu-se dos filhos com um beijo, enquanto dormiam, e bateu com a porta.

Pegou no carro e acelerou, acelerou muito. Sentia-se calmo e cheio de paz, mas inquieto com o que iria encontrar.

Filipe decidiu voltar atrás para retornar a casa. Não era definitivamente, mas apenas para explicar àquela com quem casara o porquê do seu adeus. Teve medo e duvidou, quer da verdade, quer da validade, do que ia fazer, mas já tinha feito inversão de marcha e pensou que apesar das hesitações... tinha que ser. Era o que estava certo.

Demorou ainda algumas horas até chegar à casa que o conhecia haviam já mais de 10 anos.

Tocou à porta e passados alguns minutos já estava sentado no sofá descrevendo o seu coração à esposa. Ela chorava...lágrimas de um sofrimento profundo cujo porquê era profundo. Eram gritos do coração e tinham a sua razão.

Filipe partiu depois de tudo ter dito.

Doze meses depois estava já bem instalado num quarto de um bom hotel de um país que sempre desejara conhecer. Tinha arranjado emprego facilmente devido à riqueza do seu currículo.

Conhecera muitas caras e pessoas, mas já sentia que era tempo de arriscar tudo, mesmo TUDO. Uma vida realmente nova.

Procurou então alguém disposto a partilhar consigo tudo o que se pode partilhar. Quase por coincidência viu-a no dia seguinte. Era uma mulher baixa, cabelo ruivo e muito bonita, alguns anos mais nova do que ele.

Duas horas (repartidas por três dias) depois de ter falado com ela, beijou-a. E que maravilhosa felicidade!

Quando chegou o tempo de morrer sentiu um não sei o quê de indiferença perante a vida. Fechou os olhos e com um murro na cama despediu-se deste mundo.

Mundo que ansiará sempre por saber se Filipe morreu feliz...

Mundo que quer, sempre e a todo o custo, encontrar Filipe e perguntar-lhe o que lhe disse Deus quando chegou perto d'Ele.



Sunday, May 20, 2007

mais uma amiga...

digo de mim para mim:

todos vão...

uns ficam, outros, na outra margem esperam... no lugar onde somos pesados de acordo com o peso dos nossos corações...

para os que, por enquanto, cá ficam...
é bom que pensemos que os que passaram para lá, fazem parte do nosso passado.

Que não se deve desperdiçar energias com o que não se pode controlar,

há que olhar em frente,

pensar com clareza...

a fim de que se possa sobreviver...

com qualidade...

poesia de vida a tua.
tragédia de vida a nossa.

ajuda-nos daí...

obrigado Sofia.

Saturday, April 28, 2007

André

Era uma vez... Um grupo de homens que tendo ido passear pelas montanhas resolveram parar no cimo da montanha mais alta, mesmo no cume...

De súbito, um dos homens, o André, perguntou aos outros o que viam, apontando para toda a região que se estendia até ao infinito, os outros deram respostas que ora era um vale, um bocado de terra, uma paisagem bonita, etc. Depois perguntaram ao André qual seria a sua resposta, ao que este respondeu: "Não sei."

Findo o período de descanso, todos se ergueram, menos o André, que permaneceu serenamente a olhar a região que se estendia na sua frente... os outros então disseram-lhe que iriam partir, e que se ele estava tão apaixonado por toda a paisagem, o melhor seria ir visitá-la com eles... mas o André ficou, pois tinha ficado estupefacto quando se apercebeu que não percebia o que era aquilo que se estendia na sua frente.

Na sua cabeça reinava a pergunta: "O que é isto?", e as respostas pairavam descontroladas: "É um vale", "È um bocado de terra", "É uma paisagem", "São árvores e lagos e campos e...". "O que é isto?" não tinha uma resposta, não tinha muitas, não tinha resposta.

Decidiu ir ao encontro dos seus companheiros de viagem... e quando se aproximou deles logo lhe perguntaram: "Então qual é a resposta, já a sabes?". Ao que André permaneceu em silêncio... os companheiros insistiram, mas ele também.

Não passou muito tempo até que o André resolvesse voltar ao cume da montanha... Despediu-se dos outros e caminhou para lá...

Sentou-se confortavelmente e pôs-se a ver "tudo aquilo"...

Algum tempo depois colheu uma flor e viu o "tudo aquilo" na flor... O que era afinal o "tudo aquilo", que estava na paisagem, na flor e depois até num cabelo dos seus???

A resposta a si mesmo foi pronta e esclarecedora:

"- André, não há resposta para perguntas realmente sérias, és um homem e deves conformar-te com estas coisas."

O André aprendeu então a olhar para tudo aquilo, encontrando o "tudo aquilo" em tudo... e sempre a fazer perguntas, com as quais não se preocupava em andar à procura das respostas... Estava feliz... Teve entretanto pena dos seus amigos, pois estavam a perder tudo aquilo que ele vivia, agora tão intensamente.

Alguns dias depois, encontrarem-se todos e começaram a trocar as experiências da viagem... Um amigo começou por dizer ao André o que ele não vira... aquele lago, que do cume da montanha parecia uma simples poça, era na verdade grande e bonito, tinha peixes às riscas, nas margens havia uma plantas curiosas e havia até formigas de uma cor que ninguém soube explicar, etc.

André sorria-lhes, e eles acabaram por ficar tão indignados, que lhe perguntaram porque sorria. E disse:

"- Vocês viram tudo isso, mas precisaram de andar muito, de se cansarem ainda mais, e no entanto, eu, lá de cima, vi tudo isso que vocês não viram... É que quem olha para o chão também consegue ver as estrelas, assim como de noite se pode ver o sol... Conhecer uma pedra é ter a percepção imediata da sua natureza íntima... que é a mesma para tudo, o ser."

Um deles interrompeu-o:

"- Mas responde-me lá à pergunta que a todos fizeste, o que é tudo aquilo???"

O André ficou um tempo em silêncio e por fim disse-lhes:

- A minha resposta é o silêncio...

- O quê? tens de definir.
- ... ... ... É que se eu definir qualquer coisa, já a estou a privar de aspectos que essa mesma coisa possivelmente também é... e como um todo só se deixa definir nas suas partes constituintes, logo se defino algo, também tenho que definir o todo onde se definiu a coisa, e o todo onde está o todo em que está a coisa, e daí por diante..."

Os amigos levantaram-se e foram embora. Alguns deles, dias depois, foram sentar-se no cume da montanha, mas nunca nenhum deles viu o mesmo que o André...

Nunca mais ninguém soube que o André se tornara num homem muito feliz, e isso desde o momento em que percebeu que as perguntas realmente sérias não têm resposta, ou melhor, até têm... só que não é para os homens compreenderem...

Morreu anos mais tarde...

Só depois disso compreendeu tudo o que há para compreender...



Monday, April 09, 2007

Sócrates... ser ou não ser (engenheiro)?


já mandei!


Ora, se fez pós-graduação em sanitária...
algo teria que ter feito antes....

Thursday, March 29, 2007

Revolução da Alma


Recebi um texto por e-mail com a indicação de que teria sido obra de Aristóteles...

Em virtude da minha formação, duvidei...

Na realidade, este texto "Revolução da Alma" foi extraído do livro "Decidi ser Feliz", de Paulo Roberto Gaefke , editado em 2002.

Embora a última frase seja realmente de Aristóteles.

Com o maior dos respeitos pelo português do Brasil, tomei a iniciativa de o "traduzir"/adaptar para um português mais perto do português falado em Portugal.


Ninguém é dono da tua felicidade,
por isso não entregues a tua alegria,
a tua paz,
a tua vida nas mãos de ninguém,
absolutamente ninguém.

Somos livres,
não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos,
da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja.

A razão da tua vida és tu mesmo.

A tua paz interior é a meta da tua vida.


Quando sentires um vazio na alma,
quando acreditares que ainda te está a faltar algo,
mesmo tendo tudo,
remete o teu pensamento para os teus desejos mais íntimos
e busca a divindade que existe em ti.

Pára de, a cada dia, colocares a tua felicidade mais distante.

Não coloques objectivos longe demais das tuas mãos;
abraça os que estão hoje ao teu alcance .

Se andas desesperado com problemas financeiros,
amorosos ou de relacionamentos familiares,
busca no teu interior a resposta para te acalmares.

És o reflexo do que pensas diariamente.

Pára de pensar mal de ti,
e sê o teu melhor amigo... sempre.

Sorrir significa aprovar,
aceitar,
felicitar.
Então abre um sorriso e aprova o que o mundo que te quer oferecer de melhor.

Com um sorriso no rosto as pessoas terão de ti as melhores impressões,
e estarás a dizer a ti mesmo,
que estás "pronto" para ser feliz.

Trabalha,
trabalha muito a teu favor.

Pára de esperar a felicidade sem esforços.

Pára de exigir das pessoas aquilo que nem tu conquistaste ainda.

Critica menos,
trabalha mais.

E não te esqueças nunca de agradecer.
Agradece tudo que está na tua vida neste momento,
inclusive a dor .

A nossa compreensão do universo ainda é muito pequena
para julgar o que quer que seja da nossa vida.

Por fim,
acredita que não estaremos sozinhos nas nossas caminhadas,
um instante sequer,

se nossos passos forem dados em busca de justiça e igualdade!!!

"A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las."


Sunday, March 18, 2007

João Pedro


A esposa de João Pedro acabara de ficar grávida e se já viviam com grandes dificuldades, o amanhã do bebé adivinhava-se bem pior.

João Pedro estava desempregado por já longos 4 meses, tinha sido uma falência do escritório. A sua mulher trabalhava 12 horas por dia numa fábrica.

Quando soube da gravidez da sua mulher, o que fez foi começar a procurar emprego com cem vezes mais esforço do que aquilo que já estava a fazer.

Conseguiu ao fim de mil
nãos, um sim. Tinha o problema de ser um pouco sujo, tratava-se de manutenção de esgotos, a pior parte de tal coisa. Ele ficou feliz pois o salário era relativamente bom e assim havia a possibilidade de sustentar com mais segurança aquele que se esperava.

Começou o seu trabalho no dia seguinte. Foi só ao chegar a casa que se apercebeu do estado em que estava, as roupas sujíssimas e o cheiro, um cheiro tão nauseabundo que até lhe deu vontade de rir. Sua mulher, quando chegou, fez uma cara indescritível, olhando-o de forma fria.

Passadas duas semanas, e ainda antes do primeiro salário entrar em casa, a esposa de João Pedro sentou-se diante dele e disse-lhe que aquele emprego era indigno e que aos olhos de outras pessoas até ela ficava mal vista -
O meu marido trabalha nos excrementos! - E afirmou que iria separar-se dele pois a situação tinha atingido tal ponto que já só havia a solução de quebrar a relação. Saiu de casa sem o ouvir sequer, levou tudo... até aquilo que tinha no seu ventre e que não era só seu. Só deixou a morada para onde ia, isto para ele lhe enviar dinheiro (se quiseres!) e a indicação expressa para que ele não tentasse sequer voltar a vê-la.

João Pedro continuou a trabalhar no mesmo sítio... não havia nada melhor. Enviava mensalmente 3/4 do seu ordenado para a morada que ela lhe tinha deixado num bocado de papel pardo.

Completamente só, vivia para o final do mês, para o cheque que se trocava por dinheiro e este por um vale postal, que por sua vez era enviado para a morada.

Foi assim durante muito tempo. A sua (ex-)? mulher teve um filho, foi despedida antes de o ter, pois não houve compreensão para a licença de maternidade, os tempos eram de crise. Nunca mais conseguiu arranjar emprego. Vivia do vale-postal e nem o apelido do pai pôs no nome do menino... Sempre achou indigno trabalhar
nos excrementos.

João Pedro viveu com cerca de 1/4 do seu salário durante muitos anos, quando era aumentado aumentava, também ele, a fatia para o vale-postal. O menino cresceu e fez-se um homem que quando se apercebeu do vale-postal procurou de imediato explicação. Não a obtinha em lado algum, mas persistindo acabou por chegar à morada remetente do papel que valia dinheiro. Era a morada de quem os sustentava a ele há anos. Pensou que era um ricalhaço qualquer, mas mesmo assim resolveu ir até ao fim, havia que ver a cara de quem enviava o crédito mensal.

Era uma barraca, junto dos vizinhos perguntou coisas e esperou para ver a cara do tal Sr. João Pedro.

João Pedro chegou, e ao fim de pouco tempo, aquele velho e o jovem (re)conheciam-se pai e filho...

Depois de horas de diálogo:

- Mas afinal, meu filho, como é que te chamas?

- Acabei de nascer à pouco e chamar-me-ei João Pedro!

O velho João Pedro morreu num acidente de trabalho ao fim de dois dias...

O jovem João Pedro saiu de imediato da casa da mãe para ir viver para a do seu falecido pai, ocupando igualmente o lugar do pai na manutenção dos esgotos. Ao sair de casa da sua mãe nada disse, só prometeu 3/4 do salário.

João Pedro, o pai, chorou... anos e anos pelo filho, por tamanha dignidade.

Chorou até sorrir quando se deu conta dos porquês da sua história.

Saturday, March 03, 2007

Filosofia


Sim, considero-me filósofo (que me desculpem todos quantos têm outros critérios onde não encaixo nessa categoria)... e há dias, enquanto pensava no sentido da existência acabei, de súbito, por me ver confrontado com uma ideia tão forte quanto evidente...

Os dias que se seguirem ao dia da minha morte serão ainda... dias da minha vida.




Wednesday, February 21, 2007

Um poema de Anónimo (um dos meus autores favoritos)

À medida que vamos crescendo
aprendemos que até aquela pessoa que era suposto nunca nos desiludir...
provavelmente o fará mesmo.

Sentirás o coração destroçado
Provavelmente mais do que uma vez
E que de cada vez é sempre mais doloroso.

Também tu destroçarás corações
Pelo que te deves lembrar do que sentiste quando te aconteceu a ti

Discutirás com o teu melhor amigo
E culparás o teu novo amor por coisas que um anterior te fez.

Chorarás por que o tempo passa demasiado depressa
E certamente perderás alguém que amas

Por isso, tira muitas e muitas fotografias
ri-te muito e muito

e ama como se nunca tivesses sido magoado

Porque cada sessenta segundos que desperdiças aborrecido

é um minuto de felicidade que nunca te será devolvido

Não temas por teres que morrer, teme por poderes nunca chegar a viver

Anónimo




A minha amiga Anne Morrison enviou-mo...

Com o meu amigo Wilson traduzi-o...



versão original:
As we grow up, we learn that even the one person that wasn't supposed to ever let you down probably will. You will have your heart broken probably more than once and it's harder every time. You'll break hearts too, so remember how it felt when yours was broken. You'll fight with your best friend. You'll blame a new love for things an old one did. You'll cry because time is passing too fast, and you'll eventually lose someone you love. So take too many pictures, laugh too much, and love like you've never been hurt because every sixty seconds you spend upset is a minute of happiness you'll never get back.
Don't be afraid that your life will end, be afraid that it will never begin.


Wednesday, February 14, 2007

Despedida de Heitor à sua mulher Andrómaca

Pois isto eu bem sei no espírito e no coração:

Virá o dia em que será destruída a sacra Ílion

assim como Príamo e o povo de Príamo da lança de freixo.

Mas não é tanto o sofrimento futuro dos Troianos que me importa,

nem da própria Hécuba, nem do rei Príamo,

nem dos meus irmãos, que muitos e valentes tombarão

na poeira devido à violência de homens inimigos -

muito mais me importa o teu sofrimento, quando em lágrimas

fores levada por um dos Aqueus vestidos de bronze,

privada da liberdade que vives no dia a dia:

em Argos tecerás ao tear, às ordens de outra mulher;

ou então, contrariada, levarás água da Messeida ou da Hipereia,

pois uma forte necessidade se terá abatido sobre ti.

E alguém assim falará, ao ver as tuas lágrimas:

Esta é a mulher de Heitor, que dos Troianos domadores de cavalos

era o melhor guerreiro, quando se combatia em torno de Ílion.

Assim falará alguém. E a ti sobrevirá outra vez uma dor renovada,

pela falta que te fará um marido como eu para afastar a escravatura.


Mas que a terra amontoada em cima do meu cadáver me esconda

antes que oiça os teus gritos quando te arrastarem para o cativeiro.


Homero, Ilíada, Canto VI, vv.447-465, Tradução de F. Lourenço, Edições Cotovia.

Thursday, February 08, 2007

A minha filha e a questão do Aborto


Ontem, resolvi explicar à minha filha Vitória (5 anos) a razão de tanta gente a falar sobre o Aborto na TV...

Sendo que a minha posição é a de um NÃO claro, decidi enfrentar o desafio da explicação com um objectivo: ser imparcial, chegando mesmo a pensar que se ela me viesse a dizer que estaria de acordo seria um objectivo concretizado!

Comecei a explicação pela questão da concepção...

o pai põe a sementinha na barriga da mãe...

claro que veio a pergunta óbvia: “Como?

e mais uma vez lhe expliquei que – resumidamente: o que os homens têm a mais no corpo têm as mulheres a menos e, quando se unem, há uma completude e a semente liberta-se – e lá se lembrou e quis passar à frente...

bem, sementinha a crescer (tentei desvanecer a ideia do “nascer” a favor de um “crescer”), ainda não é um bebé-bebé-mesmo, que tamanho vai tendo etc. E eu ia oscilando entre os termos de “bebé” e a “semente-a-crescer”... depois a questão de certas senhoras não quererem ter um filho, etc... e que vão “tirar”... mais uma vez: “Como?” – injecção, tesoura, aspirador (estranhamente, gostou desta opção!!!!), etc.

O assunto estava preparado... agora, - essas senhoras se quiserem podem abortar nos hospitais? Esse é o assunto que se discute...

- Vitória, que achas?

- Acho que vocês são bonzinhos porque me terem deixado crescer!
(quase me vieram as lágrimas aos olhos)

Cerca de 20 minutos depois veio ter comigo e disse:

- Pai, acho que as senhoras devem poder ir aos hospitais abortar!

- Por quê, filha?

- Porque se as mães são más, é melhor os filhos não as terem.

Tentei explorar a questão e a ideia era a de que se a mãe estava disposta a matar, seria por ser má, sendo má, mais vale não ser filho dela.

Toda a minha carreira académica se curvou perante tal argumento... mas não desisti da minha isenção, e expliquei-lhe que poderia não ser um matar-matar-mesmo, mas fui aniquilado com uma pergunta retórica:

- Mas não é com uma tesoura e já não tem este tamanho (mostrando-me a mão em concha)?


Fiquei tão orgulhoso quanto perturbado por ter estado tão próximo da Verdade!


Saturday, February 03, 2007

Prefácio ao Diário do Sedutor de Kierkegaard

O grande filósofo dinamarquês, Sören Aabye Kierkegaard, viveu intensamente a sua obra; cada livro é um pedaço da sua vida, um farrapo da sua alma.

Sobre toda a sua vida, animada de um espírito impregnado de uma filosofia profundamente religiosa, pesa para todo o sempre um anátema. O pai, um dia, simples pastor na Jutlândia, maldisse a sua sorte, amaldiçoou Deus; e ao voltar para Copenhaga, rico, por um acaso, o remorso de ter ofendido o Senhor, influiu poderosamente na sua alma religiosa de pastor.

Daí veio uma imensa melancolia, transmitida ao filho, Sören, que ainda mais se agravou quando este veio a conhecer a tragédia espiritual do pai. E fez-se um triste.

Um dia, porém, um raio de luz veio iluminar-lhe a existência. Sören amou profundamente Regina Olsen, espírito oposto ao seu, toda vida e alegria; esta alegria ainda mais lhe exacerbou o seu fundo de tristeza. Na alma travou-se-lhe uma luta entre o seu amor e a sua melancolia; esta venceu e ele tornado um melancólico cerebral, viu que não tinha o direito de sacrificar para sempre a existência de uma rapariga toda vida, mocidade, saúde.

Por isso, passado um ano de luta desfez o casamento já anunciado a todos. E para se justificar escreveu o livro "Diário do Sedutor". Era um livro para ela, para que o lesse e lhe perdoasse o muito que a tinha feito sofrer. Recalcou no íntimo do peito a veemência do seu amo; e fingiu-se um egoísta, que apenas quis, friamente, por uma questão estética, brincar com a felicidade de uma rapariga. E chegaria a ser revoltante, a sua gélida ironia, se não se adivinhasse através deste livro, quanto ele devia ter sofrido...

Daí em diante a sua actividade literária foi extraordinária; escreveu por necessidade, como que para desabafar. Deixou uma obra colossal, toda repassada da sua originalíssima filosofia. Os seus inúmeros escritos, a maior parte sob pseudónimos, são a ilustração da sua filosofia: cada personagem é uma ideia, cada livro a confirmação prática do seu sistema.

Por isso o mundo dos seus personagens é um mundo estranho, de névoa, misto de verdade e paradoxo. Ao ler-se a sua obra, disseminadíssima, mas obedecendo ao plano geral da sua Ideia, fica-se como que fulminado, pelo arrojo das concepções, pela variedade de pensamentos, pela sua prosa bizarra, ora grandiosa e empolada, ora simples, como prosa para crianças. Umas vezes é obscuro nas suas imagens, pedaços do seu pensamento íntimo que se revelam, incompreensíveis para nós; outras vezes, serve-se de assuntos banalíssimos, quase ridículos, para ilustrar os mais elevados problemas da sua filosofia.

Desta, difícil será dar uma pálida ideia neste lugar; referir-me-ei apenas à parte de que o “Diário do Sedutor” é, por assim dizer, a ilustração.

Entre os vários estádios que ele reconhece no caminho da vida, o primeiro é o estético. O homem deve tirar da vida todo o partido possível, para viver sob um ponto de vista estético; deve tirar dela apenas o que ela encerra de interessante; necessita para isso de moldar os indivíduos e as situações à imagem do seu ideal estético.

A primeira condição para obter este fim é a liberdade absoluta: nada de prisões. É necessário viver a vida fora dela; passar como uma rajada de vento, que tudo envolve, que tudo arrasta e faz girar a seu bel-prazer, e em seguida desaparecer em busca de novas sensações. Conseguido o ideal estético numa determinada situação, o interesse desapareceu. Por isso o "Sedutor" vai pela vida adiante, moldando nas formas requintadas do seu capricho de esteta a feminilidade tornada plástica das suas vítimas.

Não é, pois, um sedutor na acepção vulgar da palavra. É um artista do amor. Busca em cada mulher o que ela lhe pode dar de interessante: nesta um olhar, naquela um sorriso, noutra a forma graciosa de saudar. Não se serve de mentiras, dessas mentiras vulgares com que se seduz normalmente uma alma ingénua de rapariga. Tudo o que faz é por vontade delas. Se promete casamento a Cordélia Whal, a heroína fictícia deste livro, é porque sabe que há-de ser ela própria quem o desligará da sua promessa, porque ele há-de levá-la a querer amá-lo com a máxima liberdade infiltrando-lhe no espírito a única, a verdadeira maneira de amar e de ser amado - na mais absoluta liberdade - fora de qualquer preocupação de ordem ética, fora dos convencionalismos sociais, portanto. "O amor ama o mistério - estar-se noivo é um bando; o amor ama o balbuciar submisso - estar-se noivo é um pregão" - diz ele numa das suas cartas à sua vítima.

Cordélia Whal vê de repente abrir-se-lhe um horizonte novo - assim é que deve ser o amor verdadeiro, livre como o pensamento, e como o pensamento entregue só à criatura amada.

Regina Olsen, por muito que o amasse, nunca poderia ser completamente livre - e o matrimónio é uma prisão. Por isso ele a abandona; por isso o seu amor, ansioso de liberdade, se estiola e morre na perspectiva de uma prisão de carácter ético.

É esta a sua justificação.

Regina não o compreendeu; suplicou-lhe que não a abandonasse; ele ficou mudo, inflexível, cruel para ela, muito mais cruel para si próprio.

E acabou tudo; a maldição herdada de seu pai, tinha-lhe obscurecido a única claridade, que suavemente lhe poderia ter iluminado a vida.

O anátema tinha-se cumprido...