Sunday, January 21, 2007

O Silêncio da Morte


No lugar da Morte a palavra falha, o silêncio ataca com uma invulgar intensidade. A morte é uma ausência que o silêncio preenche... O silêncio de um cadáver enche subitamente o mundo... O silêncio de quem assiste à morte é a marca da reticência em acreditar na imobilidade de mármore daquele de quem ainda se busca o olhar e cuja fala e escuta acabou há pouco.

Ao aproximar-se da morte a palavra torna-se ridícula. Os restos mortais de um homem são uma amálgama de silêncio, algo que se encontra no centro de uma série de círculos concêntricos que, à medida que se vão afastando, restituem à fala e ao murmúrio do mundo a sua soberania.

O minuto de silêncio visa simbolicamente uma suspensão dos acontecimentos do mundo. O recolhimento dos presentes é um mergulho na memória da sua relação com o defunto ou com a tragédia que se recorda. O fluxo de existência é provisoriamente parado em testemunho da dor sentida. O ritual é uma obrigação social em relação à lembrança, mantendo os corpos e as palavras na mesma postura. A comunidade como que imita a ausência para reviver mentalmente a presença do desaparecido, para o celebrar, para lhes dedicar uma oração...

Mas há sempre um diálogo com o defunto, fala-se com ele, interiormente ou em voz baixa, recorda-se com ele momentos especiais, lamentam-se os mal-entendidos, as ocasiões perdidas, os momentos em que se esteve esquecido de que um dia só lhe restaria recordar.

Uma incansável fala interior mantém viva a memória do outro, com o diálogo a prosseguir, no segredo de uma deliberação íntima. E o defunto pode ser sentido e pensado qual anjo que agora nos acompanhará e ajudará... continua a ser uma presença ligeira, que acompanha os acontecimentos do dia, a quem se pede um conselho, por quem se chama nos momentos em que a dor se torna mais difícil de suportar. Mas ainda nesta perspectiva paira sempre a dúvida acerca de se o outro nos ouve...

Qual feto em perpétua gestação, o outro jaz em nós... mas sempre em silêncio.

3 comments:

Paulo said...

E pensar que a morte já está determinda mas é indeterminável...

Um abraço, amigo JLM!

Anonymous said...

Stor, espero que nunca mude de usar duas meias, se é isso que é preciso para ter uma e só uma cara. Foi de dificil compreensão mas passado algum tempo de interpretação penso ter percebido o texto!
Tentei mandar-lhe uma mensagem de bom ano mas acho que me enganei no numero, por isso desejo-lhe tudo de bom, para si e para os seus. Continue a escrever.

Abraço de um amigo/Aluno do C.V.

inês said...

porque quanto mais vivo e despegado do mundo o defunto está, mais vivo nos aparece...em nós.