Saturday, December 23, 2006

Tadeu Antunes

Tadeu resolveu rumar para um país diferente onde, talvez aí, sua vida tomasse, também ela, um novo rumo.

Começou por arranjar um emprego daqueles onde só há vaga porque mais ninguém o quer fazer. Ganhava bem, relativamente ao que estava habituado. Todos os meses, e cada vez mais exausto, escrevia para os seus parentes,... sempre recebeu resposta.

Passado algum tempo, e devido à sua entrega total ao que fazia, foi promovido, para um daqueles cargos que ninguém mais quer ocupar porque dá demasiado trabalho... mas recebia mais e mais, e cada vez menos e menos escrevia para os seus. Tanto era o esforço que fazia que a sua casa só tinha uma cama... só trabalhava e dormia, também poupava.

Quase já só escrevia de 6 em 6 meses e na sua terra, não punha o pé haviam já 4 anos...

Foi mais uma vez promovido, agora sim, para um serviço daqueles em que já há concorrência, e trabalhou em favor da sua função com tal empenho que os seus superiores depois de terem começado a tratá-lo por Sr. Antunes, chegaram mesmo a agraciá-lo, não só monetariamente, como também em afecto... superficial, mas.... sempre foi alguma coisa!

Por esta altura já não escrevia aos seus parentes havia um ano. E nunca mais escreveu... arranjou uma namorada, pobre como ele o fora outrora na sua terra, e resolveu partilhar com ela o que tinha poupado: o carinho, o amor e também as suas notas e moedas...

Ela era boa rapariga, gostava dele, amava-o e respeitava-o. Resolveram casar-se porque o sentimento era recíproco. A lua-de-mel seria na terra de Tadeu... comprou-se um carro e fizeram-se as malas e aí estavam eles de alianças no dedo e na estrada rumo à pátria de Tadeu...

Inadvertidamente, aconteceu um acidente, um carro embatera num segundo, e este foi chocar com o carro dos recém-casados. Foi fatal para a esposa do Tadeu, a ele... nem um arranhão... que angústia, que tristeza profunda!

Tadeu foi enterrar a sua esposa à terra natal dela, vindo a saber, mais tarde, que a sua esposa guardava uma criança que lhe germinava dentro.


Depois resolveu voltar e fê-lo de imediato, regressou de avião, depois o comboio e eis que se encontra na sua terra, naquele sítio que o vira nascer, a sua terra...

Os montes ainda eram como os que tinha guardado na memória. Aqueles de quem ele se esquecera é que já não estavam lá, tinham morrido e... que angústia, que profunda tristeza! Que remorso e arrependimento enormes...

Tinha trabalhado tanto e, agora, no momento de partilhar... nada, nem esposa nem pais, nada... a sua família já não existia... o seu suor de nada tinha valido! Tinha sido tudo em vão!

Sentou-se, depois deitou-se... olhou para o nada e sentiu ali a solidão de ninguém se ter.

Partilhou, ou melhor, doou o que tinha poupado (o dinheiro) às crianças da terra, pagou uma escola e um jardim, ambos muito bonitos...

Mas, apesar de tudo isso, jamais deixou de ser só, extremamente só...

Os anos passavam devagar, tal como as lágrimas que dos olhos de Tadeu saiam todos os dias... devagar.

Viu partir jovens para o estrangeiro.

Viu-os voltar, por vezes casados...

Viu-se chorar por nunca ter sido membro de uma família, e não era só por isso que ele chorava, as lágrimas de Tadeu eram fruto de algo que não podia ser dito, pois tal sentimento não tem palavras que o agarrem. No entanto, Tadeu respondia sempre que chorava de saudade... não dizia era de quê...

Inadvertidamente aconteceu um acidente. Num dia de chuva, o telhado da casa onde Tadeu vivia ruiu, caindo-lhe em cima, mas ele... não morreu, o seu coração parava, o sangue saia-lhe do corpo, todo o seu organismo deixava de funcionar... e Tadeu, no seu último acto, disse:

-Trabalhei, sofri e chorei, agora vou morrer... tenho muito medo mas não há outra saída... ... Sinto em mim a saudade do tempo que nunca vivi. Saudade de mim, daquele eu que nunca fui e que sempre quis ser! Quero morrer mesmo assim!


Faleceu depois de uma última lágrima lhe percorrer o rosto... muito devagar e dolorosamente, como a vida.

Foi com muita alegria e surpresa que descobriu que a Morte abre a porta para outra vida e.... (como nas histórias infantis) Viveu. Finalmente viveu!

e Viveu feliz para Sempre.


3 comments:

Poupée said...

Eu quero ser feliz para sempre...

Quando não importa mas, quero que um dia a minha história seja contada e que acabe com a mais bela das frases : "E viveu feliz para sempre...".

Eu vim para o estrangeiro...temo esquecer aqueles com quem gostaria de partilhar a riqueza que aqui apreendi...

Vou dormir...pensar e repensar neste texto que acabei de ler...para ver se aprendo e consigo dizer um dia: "feliz para sempre..."...

**

weee said...

Só sentimentos a fluir no meu pensamento aquando da leitura.

Mais uma vez, o protagonista morreu, mas ainda pôde ainda dizer que viveu feliz!

Eu vivo feliz!!

mariana veiga said...

sim, porque viver a morte deve ser realmente fantastico, e cheio de vida..ai ai..