Thursday, February 08, 2007

A minha filha e a questão do Aborto


Ontem, resolvi explicar à minha filha Vitória (5 anos) a razão de tanta gente a falar sobre o Aborto na TV...

Sendo que a minha posição é a de um NÃO claro, decidi enfrentar o desafio da explicação com um objectivo: ser imparcial, chegando mesmo a pensar que se ela me viesse a dizer que estaria de acordo seria um objectivo concretizado!

Comecei a explicação pela questão da concepção...

o pai põe a sementinha na barriga da mãe...

claro que veio a pergunta óbvia: “Como?

e mais uma vez lhe expliquei que – resumidamente: o que os homens têm a mais no corpo têm as mulheres a menos e, quando se unem, há uma completude e a semente liberta-se – e lá se lembrou e quis passar à frente...

bem, sementinha a crescer (tentei desvanecer a ideia do “nascer” a favor de um “crescer”), ainda não é um bebé-bebé-mesmo, que tamanho vai tendo etc. E eu ia oscilando entre os termos de “bebé” e a “semente-a-crescer”... depois a questão de certas senhoras não quererem ter um filho, etc... e que vão “tirar”... mais uma vez: “Como?” – injecção, tesoura, aspirador (estranhamente, gostou desta opção!!!!), etc.

O assunto estava preparado... agora, - essas senhoras se quiserem podem abortar nos hospitais? Esse é o assunto que se discute...

- Vitória, que achas?

- Acho que vocês são bonzinhos porque me terem deixado crescer!
(quase me vieram as lágrimas aos olhos)

Cerca de 20 minutos depois veio ter comigo e disse:

- Pai, acho que as senhoras devem poder ir aos hospitais abortar!

- Por quê, filha?

- Porque se as mães são más, é melhor os filhos não as terem.

Tentei explorar a questão e a ideia era a de que se a mãe estava disposta a matar, seria por ser má, sendo má, mais vale não ser filho dela.

Toda a minha carreira académica se curvou perante tal argumento... mas não desisti da minha isenção, e expliquei-lhe que poderia não ser um matar-matar-mesmo, mas fui aniquilado com uma pergunta retórica:

- Mas não é com uma tesoura e já não tem este tamanho (mostrando-me a mão em concha)?


Fiquei tão orgulhoso quanto perturbado por ter estado tão próximo da Verdade!


13 comments:

Fernando Fernandes said...

Gostei do texto.

Embora tenha apenas tenha abordado a vertente moral - reconheço que será a mais interessante para uma rapariga de 5 anos, ainda sem noçao social...

Mas, será que podemos ver esta sensivel questão apenas do ponto de vista moral?

Será que podemos esquecer a questão do aborto enquanto problema de saude publica; alem de um problema de politica social...

*aceito e compreendo que este coment nao seja publicado, dada a materia pessoal deste artigo. Reconheço.o desajustado...

Anonymous said...

Serão os filhos das más mães os asasinos delas? Vieram ao mundo sem serem queridos, sem eles próprios quererem talvez?

Benjamim said...

Meu caro amigo JL adorei o post de hoje.
Grande Mulher de 5 anos.
Um abraço

Domingos said...

Amigo Zé, realmente este referendo dá muito que pensar!

SR said...

Lembro-me de ser criança (não sei se 5 anos)a verdade e que ja era totalmente contra o aborto (sem nunca ninguem me ter explicado tão bem ou com tanta imparcialidade) mas a verdade e que hoje com 34 anos continuo contra, o meu voto sera no NÃO. Alguns dirão "Mais uma que não sabe o que diz" sera? Ja pesei todos os pros e contras, ja li muito sobre o assunto, mas nada do que foi escrito ou dito me fez mudar de opinião.
Um beijo para Vitoria que sera de certeza uma grande mulher e sempre muito bem esclarecida.

Bjs
SR

Anonymous said...

Hermano,
Linda filha a tua!!!

p. carlos said...

Gostei da partilha, da autenticidade de ambos.
Abraço,
P. Carlos

Paulo said...

Este foi, sem dúvida, um dos postas mais deliciosos que algum dia eu tive a oportunidade de ler num Bloco.
Dou-te os meus sinceros parabéns pela forma como explicaste à tua filha a questão do Aborto.
É bom ser pai, não é?
Um abraço valente!

Menina said...

Sempre amei essa miuda...

Quem a viu sabe que os olhos dela são do tamando do mundo...

Gosto dela...da princesa Vitória...

Um bjo pa si...e pa ela claro...

antonio said...

Uma criança ao nascer, traz-nos a mensagem de que Deus ainda não perdeu a esperança nos homens.
Elas são assim simples e verdadeiras nos sentimentos.
Só me apetece dizer, que da boca das crianças nasce o louvor perfeito. Abraço

Sophie said...

Pois é, por vezes as criancas sao mais inteligentes que nós.

Beijos

Anonymous said...

Estou orgulhosa por ter uma "sobrinha" tão espectacular...
Beijinhos
SB

Anonymous said...

Bom, em primeiro lugar "o que os homens têm no corpo a mais, têm as mulheres a menos", não sei o que será (era bom que fossem os pêlos, mas nem sempre se verifica). Sei que a ideia era simplificar, mas os orgãos reprodutores de um dos sexos têm paralelismo com os dos outros. Mas siga, que não importa.

Agora o tamanhinho da mão é que não importa mesmo nada, nem é isso que se discute, né? Algo forçado e apelando ao choradinho, como quase toda a argumentação do NÃO (sorry).

Seja como for, se a explicação foi mesmo neutra, já foi um bom trabalho, parabéns! Até porque nem todas têm que o ser ou conseguem sê-lo, já que quando tentamos transmitir algo aos nossos filhos, muito de nós vai nessa explicação, explícita ou implicitamente que seja. Ainda assim, julgo que a vida depois de encarregará de os ajudar a esculpir a sua própria opinião. Mas se pedirem a nossa, pois que lha demos, assim os achemos prontos a lidar com ela.

Teço todos estes "mas", MAS gostei!

Margarida