Saturday, February 03, 2007

Prefácio ao Diário do Sedutor de Kierkegaard

O grande filósofo dinamarquês, Sören Aabye Kierkegaard, viveu intensamente a sua obra; cada livro é um pedaço da sua vida, um farrapo da sua alma.

Sobre toda a sua vida, animada de um espírito impregnado de uma filosofia profundamente religiosa, pesa para todo o sempre um anátema. O pai, um dia, simples pastor na Jutlândia, maldisse a sua sorte, amaldiçoou Deus; e ao voltar para Copenhaga, rico, por um acaso, o remorso de ter ofendido o Senhor, influiu poderosamente na sua alma religiosa de pastor.

Daí veio uma imensa melancolia, transmitida ao filho, Sören, que ainda mais se agravou quando este veio a conhecer a tragédia espiritual do pai. E fez-se um triste.

Um dia, porém, um raio de luz veio iluminar-lhe a existência. Sören amou profundamente Regina Olsen, espírito oposto ao seu, toda vida e alegria; esta alegria ainda mais lhe exacerbou o seu fundo de tristeza. Na alma travou-se-lhe uma luta entre o seu amor e a sua melancolia; esta venceu e ele tornado um melancólico cerebral, viu que não tinha o direito de sacrificar para sempre a existência de uma rapariga toda vida, mocidade, saúde.

Por isso, passado um ano de luta desfez o casamento já anunciado a todos. E para se justificar escreveu o livro "Diário do Sedutor". Era um livro para ela, para que o lesse e lhe perdoasse o muito que a tinha feito sofrer. Recalcou no íntimo do peito a veemência do seu amo; e fingiu-se um egoísta, que apenas quis, friamente, por uma questão estética, brincar com a felicidade de uma rapariga. E chegaria a ser revoltante, a sua gélida ironia, se não se adivinhasse através deste livro, quanto ele devia ter sofrido...

Daí em diante a sua actividade literária foi extraordinária; escreveu por necessidade, como que para desabafar. Deixou uma obra colossal, toda repassada da sua originalíssima filosofia. Os seus inúmeros escritos, a maior parte sob pseudónimos, são a ilustração da sua filosofia: cada personagem é uma ideia, cada livro a confirmação prática do seu sistema.

Por isso o mundo dos seus personagens é um mundo estranho, de névoa, misto de verdade e paradoxo. Ao ler-se a sua obra, disseminadíssima, mas obedecendo ao plano geral da sua Ideia, fica-se como que fulminado, pelo arrojo das concepções, pela variedade de pensamentos, pela sua prosa bizarra, ora grandiosa e empolada, ora simples, como prosa para crianças. Umas vezes é obscuro nas suas imagens, pedaços do seu pensamento íntimo que se revelam, incompreensíveis para nós; outras vezes, serve-se de assuntos banalíssimos, quase ridículos, para ilustrar os mais elevados problemas da sua filosofia.

Desta, difícil será dar uma pálida ideia neste lugar; referir-me-ei apenas à parte de que o “Diário do Sedutor” é, por assim dizer, a ilustração.

Entre os vários estádios que ele reconhece no caminho da vida, o primeiro é o estético. O homem deve tirar da vida todo o partido possível, para viver sob um ponto de vista estético; deve tirar dela apenas o que ela encerra de interessante; necessita para isso de moldar os indivíduos e as situações à imagem do seu ideal estético.

A primeira condição para obter este fim é a liberdade absoluta: nada de prisões. É necessário viver a vida fora dela; passar como uma rajada de vento, que tudo envolve, que tudo arrasta e faz girar a seu bel-prazer, e em seguida desaparecer em busca de novas sensações. Conseguido o ideal estético numa determinada situação, o interesse desapareceu. Por isso o "Sedutor" vai pela vida adiante, moldando nas formas requintadas do seu capricho de esteta a feminilidade tornada plástica das suas vítimas.

Não é, pois, um sedutor na acepção vulgar da palavra. É um artista do amor. Busca em cada mulher o que ela lhe pode dar de interessante: nesta um olhar, naquela um sorriso, noutra a forma graciosa de saudar. Não se serve de mentiras, dessas mentiras vulgares com que se seduz normalmente uma alma ingénua de rapariga. Tudo o que faz é por vontade delas. Se promete casamento a Cordélia Whal, a heroína fictícia deste livro, é porque sabe que há-de ser ela própria quem o desligará da sua promessa, porque ele há-de levá-la a querer amá-lo com a máxima liberdade infiltrando-lhe no espírito a única, a verdadeira maneira de amar e de ser amado - na mais absoluta liberdade - fora de qualquer preocupação de ordem ética, fora dos convencionalismos sociais, portanto. "O amor ama o mistério - estar-se noivo é um bando; o amor ama o balbuciar submisso - estar-se noivo é um pregão" - diz ele numa das suas cartas à sua vítima.

Cordélia Whal vê de repente abrir-se-lhe um horizonte novo - assim é que deve ser o amor verdadeiro, livre como o pensamento, e como o pensamento entregue só à criatura amada.

Regina Olsen, por muito que o amasse, nunca poderia ser completamente livre - e o matrimónio é uma prisão. Por isso ele a abandona; por isso o seu amor, ansioso de liberdade, se estiola e morre na perspectiva de uma prisão de carácter ético.

É esta a sua justificação.

Regina não o compreendeu; suplicou-lhe que não a abandonasse; ele ficou mudo, inflexível, cruel para ela, muito mais cruel para si próprio.

E acabou tudo; a maldição herdada de seu pai, tinha-lhe obscurecido a única claridade, que suavemente lhe poderia ter iluminado a vida.

O anátema tinha-se cumprido...

1 comment:

passenger said...

Passei para apenas deixar um abraço, acabei por ler este texto até ao fim.

Talvez volte, mais tarde, para ler outro.

abraço, chino